Arte e Cultura

Verônica, a defensora

Por Alana Maria • 13 de fevereiro de 2019

Foto: Samuel Macedo 

Verônica Neuma das Neves Carvalho é uma mulher alta, encorpada, de nariz largo e lábios grossos, perfeitamente dispostos em seu rosto oval acimado por um afro curto e acinzentado, frequentemente cobertos por lenços em turbante que, combinado com sua pele negra de brilho natural, mais parece uma coroa ancestral. Se depender de seu vigor, Verônica não dá nenhuma pista de envelhecimento. Está prestes a completar 60 anos e se destaca como uma das principais referências na luta pelos Direitos Humanos do Ceará. Seu nome é conhecido entre os parlamentares e os movimentos sociais de Fortaleza, Juazeiro do Norte e Crato, e também entre as senhoras que trançam palha em comunidades como Carcará, no distrito rural de Potengi.

Figura constante nos debates sobre o fim da violência contra a mulher, Verônica preside o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher Cratense desde 2016. Como fundadora do Grupo de Valorização Negra do Cariri, elabora, agita e participa de atividades de empoderamento de negros e negras. Já pela Cáritas Diocesana, participa do Fórum das Águas, onde luta pelo direito dos pequenos agricultores rurais a terem acesso à água e também se engaja em defesa dos catadores de recicláveis.

Desde a adolescência se faz presente em toda movimentação dedicada à luta pelos direitos dos eternos oprimidos: mulheres, pretos, gays, pobres. Aos 16, foi estagiária da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM), em Crato, por onde fazia trabalhos educativos com meninos e meninas em conflito com a lei antes mesmo da criação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Aos 20, participou das reuniões de garagem em São Paulo que resultaram na fundação do Partido dos Trabalhadores. Aos 25, se viu no meio das passeatas que exigiam as Diretas Já! Militante, ativista, feminista e o que mais se quiser chamar, Verônica é combatente edefensora, fundamentalmente, pelo direito de bem-viver.

Verônica nasceu em Crato, em 1958, filha de Luiz e Gilbertina, gêmea de Valéria e irmã de outros 14, sendo 10 irmãos de útero e quatro adotivos. Gosta de dizer que veio de longe, de uma comunidade quilombola chamada Saco dos Cansanção, na zona rural de Araripina, no Pernambuco. Foi lá que seu bisavô Raimundo, escravo liberto, muitas gerações atrás fincou morada após sair do Piauí. Como uma história de retirantes, o avô Fernando, por sua vez, inflou o peito de coragem para fugir da seca que atingia o Saco e veio em direção ao Crato, que desde aquela época já despontava por sua verde chapada e fontes d’água.

A maior parte da infância Verônica passou na casa dos avós na rua dos Kariris. “Ali era um aquilombamento urbano, você sabe”, disse descrevendo a casa cheia de andares que recebia todo tipo de gente. O avô era umbandista e mantinha “quartinhos de fé” de onde Verônica e os irmãos só ouviam palavras irreconhecíveis e tambores entoando músicas tribais em noites de festa. Nos fins de semana, a casa cheirava a bolo recém assado e, após comerem o bolo, todos se sentavam para ouvir as histórias da família, da vida no Saco dos Cansanção, da bravura do bisavô Raimundo, da esperteza da bisavó Ursulina e do começo difícil de Fernando, o Côcão, no Crato. Histórias essas que alimentariam o caráter combativo de Verônica.

Foi na prática que aprendeu com a mãe, Gilbertina, uma servidora pública da Saúde, a ter a voz firme, calma e confiante. Gilbertina era uma mulher negra e corpulenta que, por sua vez, aprendeu sozinha a se impor firmemente contra o racismo da sociedade cratense da época. Não foram poucos os casos discriminatórios que mãe e filhas viveram, frutos do ódio à cor negra. “Na escola, algumas professoras tentaram constranger a mim e a minha irmã Valéria dizendo ‘A gente sabe se a mãe é limpa pela calcinha das filhas’ e levantando nossas saias”, lembra. “Não preciso de dizer que quebraram a cara, não é?”, e dá uma risada, sem achar muita graça. “Mamãe ficou uma fera quando soube”.

“Mamãe nunca alisou ou enrolou os cabelos em bobes, como faziam as outras mulheres na época. Sempre usou seu crespo com honra. Mas ela enrolava os nossos, das filhas, e deixava bem-comportado. No meu entendimento, de tudo o que vivi e aprendi, aquilo era uma proteção dela, algo de adaptado para minimizar o preconceito que via tantos passando. O mesmo acontecia quando meu pai, que era umbandista, mandava a gente ir à missa católica. O Crato é uma cidade escrota, de uma burguesia racista que dá asco. Não era uma fuga da identidade negra, da ancestralidade, mas uma questão de sobrevivência”, analisa.

Aos 18 anos, estava matriculada no curso de licenciatura em História Natural da então Faculdade de Filosofia, em Crato, mesma graduação de sua mãe, e procurava emprego. Em sua casa, todos estudavam e trabalhavam, estímulo herdado do meu avô materno, Fernando, que estudou na Escola Técnica do Comércio junto com os filhos. “Ele apostou que a educação faria a família crescer”, conta. Mas tamanha era a dificuldade de conseguir emprego que após uma rejeição seguida da proposta, “mas se quiser, minha irmã está precisando de uma empregada doméstica”, Verônica decidiu seguir os passos das irmãs e partir para São Paulo.

“Quis voltar assim que desci na rodoviária”, lembra com ressentimento, fazendo parecer que se tivesse novamente a oportunidade, nem teria saído do Crato. “São Paulo foi outro nível de preconceito. Era muita violência”, diz pausadamente. “Muita violência”, repete, dessa vez sem conseguir segurar as lágrimas. E, com visível dor, relata o episódio que nunca conseguiu esquecer: “Depois de muitos estágios, finalmente arranjei um emprego bom no departamento de RH de uma construtora. Uma semana após minha admissão, meu chefe disse que o dono da empresa queria me conhecer. Esperei o homem, ele passou por mim. Eu não esqueci… Era alto, usava uma calça azul, camisa de listras e uma mala preta. Continuei a esperar até que a secretária me dispensou sem que houvesse o encontro. Quando volto para minha sala, já estava meu chefe com minha carteira de trabalho na mão. Ele agradece pela semana de trabalho, mas diz que não vai dar certo. Eu pergunto, indignada: como não vai dar certo? Não entrei aqui porque você me achou bonitinha, não. Eu fiz uma seleção e passei. E ele me diz ‘Verônica, você não está entendendo? Você precisa sair daqui agora’. Mas eu insistia em saber o motivo. Foi a última vez que fui ingênua”.

“Porque você é negra! Ele não quer nenhum negro na firma dele!”, foi a resposta que ecoou pelo escritório. O chefe insistia para que ela saísse imediatamente, como uma súplica. Da janela do escritório, via-se o galpão. Lá, o guarda esperava com cachorros. Verônica secava as lágrimas enquanto deixou escapar “eu só tinha 20 anos…”. Dali em diante sua vida não seria mais a mesma. As questões de desigualdade social e ódio racial passaram a emergir de forma violenta e agora ela estava preparada para entender o que significavam. “Esses casos ferem nossa existência”, disse. “Não podemos mudar nossa existência pela vontade de ninguém”. Abraçada pelos movimentos sociais paulistas nos 11 anos em que lá morou, Verônica se tornou uma guerreira.

Uma vida dedicada às causas: em defesa dos pequenos, dos pobres, das mulheres, dos negros e dos LGBT’s

De volta ao Cariri, o que seria apenas suas férias já vai durando mais de 30 anos. Ficou para cuidar do pai, que já com certa idade estava enfrentando o alcoolismo. Durante esse tempo, trabalhou como sacoleira, telefonista em RHs e em departamentos burocráticos de bancos que hoje não existem mais. Sempre agitada, acabou largando o emprego por uma função na Associação Cristã de Base (ACB), instituição cratense que desde 1982 atua no desenvolvimento de políticas públicas para pequenas comunidades rurais. Foi lá sua grande escola. “Ampliei minha noção de comunidade, de bem-estar e da realidade social”, explica. Participou do Conselho Tutelar e também se voluntariou na Sociedade Cratense de Auxílio aos Necessitados.

Em 2001, mesmo ano em que Fernando Henrique Cardoso, então Presidente, afirma na Conferência de Durban a inexistência de democracia racial no Brasil, Verônica e companheiros fundam o Grupo de Valorização Negra do Cariri (Grunec), um fruto de uma vida de reflexão, por onde realizou trabalhos como o mapeamento das comunidades quilombolas da região do Cariri.

Em 2002, filiou-se ao partido que ajudou a construir ainda nas reuniões de garagem em São Paulo, o PT. Coordenou a campanha de Mara Guedes ao cargo legislativo na Câmara de Vereadores do Crato. Em 2012, foi sua vez de se candidatar. “Foi uma candidatura de crítica social, porque eu nunca lembrava de pedir que votassem em mim depois de todos as falas que fazia”, ri. Na ocasião, levou mais de 300 votos, mas não conseguiu uma vaga.

Verônica vai completar 60 anos e tem a certeza de que “ainda não é hora de parar”. Atualmente trabalha na Cáritas Diocesana, desenvolvendo atividades educativas, sociais e de empoderamento de comunidades diversas. Está presidente do Conselho de Direito da Mulher Cratense, participa como militante da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri e diz que nunca viu um momento político como esse. “Nunca tivemos tanto o que fazer nos últimos 10 anos. E a gente faz, porque é preciso”, afirma.

Em meio a toda correria, arranjou tempo para namorar e amar. Não sabe quantos pedidos de casamento recusou e também nunca teve filhos. “Gasto todo o meu amor, mas nunca senti necessidade desse tipo de compromisso”, diz. Colocou em prática o que aprendeu ao longo de sua caminhada e se firmou como a inevitável protagonista de sua própria história. Nunca, no entanto, exerceu sua licença como professora de Biologia. “Sou mais agitada que os alunos, nunca iria dar certo”.

Verônica é combatente e defensora, fundamentalmente, pelo direito de bem-viver (Foto: Samuel Macedo)

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