Arte e Cultura

Um Escritor com Fome

O Grande Caririense homenageado hoje é o escritor, dramaturgo e médico cratense, José Flávio Vieira. Essa reportagem foi publicada na Edição 17, e conta um pouco sobre sua trajetória na literatura, o gosto pela leitura e as obras que escreveu.
Por Redação Cariri • 2 de setembro de 2019

Foto:  Rafael Vilarouca

 

Por Pedro Philippe.

É sempre difícil a gente mexer nesse sótão para saber quando começou”, José Flávio diz, tentando lembrar de onde vem seu interesse pela escrita. Deve ser difícil mesmo cavoucar um sótão tão cheio de referências e inspirações. A começar pelo balcão da Livraria Católica, loja que o seu pai, Manuel Vieira, e o tio José do Vale Feitosa mantiveram por quase 20 anos na Rua do Commercio, atual Rua Dr. João Pessoa, e onde Flávio cresceu ouvindo as conversas da elite intelectual cratense que se reunia entre as estantes de livros que o pai e o tio vendiam. Tanto o pai quanto o tio José eram professores de língua portuguesa, mas um outro tio também muito amigado das letras foi quem encorajou o jovem Flávio a continuar escrevendo.

Xará do grande escritor dos Sermões, Pe. Antonio Vieira publicou quase 30 livros e, entre eles, 100 cortes sem recortes, uma coletânea de crônicas lançada em 1963, e foi deputado federal de 1967 a 1970, ano em que o jovem Zé começou a estudar medicina na Universidade Federal do Pernambuco. Em Recife ele escrevia para jornais universitários que veiculavam em plena ditadura militar e, nas vezes em que os cronistas da família Vieira se encontravam de volta ao Crato, Antonio, escritor já consagrado, lia o que o sobrinho mostrava e o estimulava a continuar. Depois de terminada a residência médica em cirurgia geral, Zé Flávio volta a morar no Cariri em 1980, dedicando-se inteiramente à profissão.

“Os criminosos sempre voltam ao lugar do crime, né?”, Flávio brinca sobre o seu retorno à literatura. Em 1996, “depois que os filhos cresceram e levantaram voo próprio”, como ele diz, o médico então começa a escrever semanalmente para a Rádio Educadora, onde até hoje apresenta uma crônica ao público todos os sábados. Engraçado notar que uma das características do gênero é estar associado ao jornal impresso, desde os folhetins franceses do século XVIII, até hoje nos periódicos do Brasil, onde os cronistas ainda são lidos com bastante interesse. Enquanto uns tentam encontrar uma voz íntima do leitor, Zé empresta seu texto para ser lida por outra voz no rádio.

O tio não chegou a ver mais um membro da família se tornar um conhecido escritor, já que A terrível peleja de Zé de Matos com o Bicho Babau do Crato, o primeiro livro do menino Dedé – como Flávio é conhecido entre os parentes – foi lançado meses depois do falecimento do Padre Antonio, em 19 de abril de 2003. Apesar da dedicação quase exclusiva à escrita de crônicas, sua primeira aventura literária foi a peça de teatro que narra uma saga envolvendo o poeta Zé de Matos, algumas figuras marcantes da história do Crato e personagens da literatura regional, adaptando tudo: em vez do ato, a estripulia; no lugar da cena, a munganga.

Inspirado em O matuto cearense e o caboclo no Pará, obra de José Carvalho de Brito, folclorista cratense que viveu no começo do século XX, Zé Flávio juntou-se a outros conterrâneos músicos, entre eles Abidoral Jamacaru e Luiz Carlos Salatiel, para montar um musical em homenagem ao poeta no ano de seu centenário que, dois anos depois do lançamento do livro, foi levado aos palcos pela Cia. de Teatro Oficina de Cultura e Arte (OCA).

Das histórias que foram surgindo aos poucos, entre 1996 e 2007, entregues aos ouvintes antes de irem para as mãos dos leitores, José Flávio fez o seu segundo livro, Matozinho vai à guerra, um tributo à memória do seu pai. “Este, imagino, era o livro que ele gostaria de ter visto publicado”, ele escreve na dedicatória. Natural de Várzea Alegre, seu Manuel Vieira, o Vieirinha, era um contador de histórias capaz de rememorar personagens e causos inusitados. Atribuindo o dom à naturalidade varzealegrense, Zé relembra: “Papai contava uma história e a repetia muito. Com o tempo, de tanto repetir, é claro que a gente gravava”. Como no romance do espanhol Enrique Vila-Matas, o filho herdou as memórias do pai e as colocou no papel para todo mundo ler.

Ele então se baseou nas histórias mais engraçadas que o pai contava sobre o Cariri para povoar um lugar imaginário batizado de Matozinho. “Eu tentei botar [as histórias] em uma cidade só, senão ficava complicado, porque toda vez eu tinha de criar um ambiente. Então terminou ficando uma cidade só. O meu Macondo, né? Mas é uma cidade que parece com muitas outras daqui da região e do resto do Brasil.”. Feito o povoado de Macondo, idealizado por Gabriel García Márquez em Cem anos de solidão, Matozinho tem esquinas e vielas bem definidas. Impossível se perder.

Além da homenagem ao pai, Zé Flávio tem mais um motivo para se afeiçoar a Matozinho vai à guerra: ele foi indicado como leitura obrigatória da prova de seleção da URCA por quatro vestibulares seguidos. Em um deles, um elogio se disfarçou por trás de uma assertiva na questão 16: “Rico em linguagem artística, nada é gratuito no texto, a denominação é caracterizadora, o enredo prosódico alia-se ao poético, o trágico e o cômico se interligam”. Quem marcou a letra C, acertou.

A questão seguinte pede para o candidato reconhecer qual figura de linguagem o autor utiliza em um determinado trecho. A resposta para aquele caso era “hipérbole”, mas a obra de Zé Flávio é de muitos outros truques e nuances. Como nas crônicas que são lidas nos jornais na mesa do café da manhã, as histórias de Matozinho tentam se fazer presentes, quase críveis, no tom confessional de José Flávio, com ele jurando que aquelas histórias são verdade e que viu aquilo tudo acontecer. O segredo do truque é que ele consegue escrever como se um piadista bem gaiato estivesse contando o causo.

“O cinematógrafo herege”, uma das histórias que ocorreram em Matozinho, ganhou adaptação para o cinema nas mãos e lentes de Jefferson Albuquerque Jr, com um curta-metragem que pode ser assistido livremente no Youtube.

Pela descrição nas orelhas dos livros, José Flávio é sagitário antes de ser médico. O signo que rege a casa de número 9 no mapa astral se diz dono de uma mente de “inteligência superior” inclinada à religião e à filosofia. Culpa do zodíaco ou não, ele gosta de versar sobre mistérios: “sou agnóstico, não acredito na transcendência, mas tive uma formação bastante formal em termos religiosos”, esclarece.

Durante a Mostra SESC Cariri de Cultura de 2007, José esteve com Jorge Mautner, cantor e escritor apaixonado por mitologia e misticismo. “Ele me falou uma frase que me encantou: ‘Essa região tem uma energia fortíssima desde a pré-história!’”, ele diz, lembrando de onde surgiu a ideia de escrever o seu terceiro e inusitado livro Mistério das Treze Portas do Castelo Encantado da Ponte Fantástica. Provocado pela declaração de Mautner, o cronista caririense começou a pensar sobre os seres mitológicos da sua região.

“A partir daí eu tive essa ideia de pegar alguns mitos do Cariri e colocar no papel. Fui dar uma estudada na questão dos mitos e descobri que todas as grandes civilizações têm uma mitologia muito forte. E a mitologia, na realidade, não é uma história da carochinha, ela tem muito a ver com o conceito coletivo daquilo ali”, ele conta, mostrando que os “seres mitológicos” do Cariri que tiveram suas histórias adaptadas no livro são tão – ou mais – lembrados do que muitas figuras reais e existentes da região.

“Peguei essas figuras, esses mitos, e tentei fazer uma história na tentativa de deixá-los mais claros para as novas gerações já tão distantes deles. Hoje, com a concorrência da televisão, da internet, do smartphone, essa coisa vai se perdendo. O mito passava de geração em geração, se contando quando justamente não se tinha as outras concorrências”, diz.

Olhando para as três primeiras obras que José Flávio produziu é possível perceber uma tentativa do autor em preservar histórias que são contadas de boca a boca, piadas do seu pai, “histórias de Trancoso”, e documentar outras há tanto tempo não ouvidas, como é o caso do musical no qual ele cita poetas que não deixaram suas palavras registradas em papel. Só em seu livro mais recente é que Flávio parece explorar a própria inventividade. “Esse último era o que eu pensava em publicar primeiro, mas os outros foram furando a fila”, brinca.

José Flávio, Foto: Rafael Vilarouca

“Tudo conspira contra escrever”, disse Fernando Sabino, cronista mineiro que se reclamava constantemente dos bloqueios e da dificuldade de sentar em frente à máquina de escrever e esperar pela inspiração que às vezes é bicho arredio e só vem quando quer. Ao contrário do autor de O encontro marcado, Flávio diz não ter dificuldade alguma quando escreve crônicas. “Os textos que eu sempre gostei mais de escrever e tenho grande facilidade são os mais bem-humorados. Para mim é fácil demais. Quando a história é de esculhambação, é dois minutos para fazer, é rápido. Já o conto, por exemplo, me dá um trabalho danado”.

A escrita de Flávio mora em algum lugar vizinho parede-com-parede da crônica e quintal virado para o conto. Quando o assunto é definir um gênero para o que escreve, ele tergiversa e apela para Tchekhov e Sabino. “Fernando Sabino definia crônica como aquilo que você chama de crônica. ‘O que o autor chamar de crônica, é crônica’, ele dizia. Porque, por exemplo, O Homem Nu foi feito como crônica, uma história. Só que a gente tem aquela ideia de conto como uma coisa mais metafórica, mais complicada. Por exemplo, Tchekhov tem uma coisa bem metafórica, ele não conta a história toda. A história fica mais sugerida do que dita. Isso de fazer conto me dá um trabalho pra fazer. Pense num bicho pra me dar trabalho! É horrível pra mim”.

Evocando a primeira linha de Vestida de preto, “tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não”, o que Fernando Sabino falou, na verdade, foi só repetindo uma frase de Mário de Andrade: “conto é tudo o que chamamos de conto, ou tudo o que o autor chama de conto”, dizendo em seguida que a crônica é, também, impossível de ser definida. Já o grande contista russo que, segundo Flávio, não conta a história toda, realmente gostava de deixar reticências ao fim de seus contos. Em um dos mais famosos, A dama do cachorrinho, Anton Tchekhov encerra dizendo: “tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”. Diferente dele, Flávio se agrada de uma história bem contada e, acima de tudo, bem encerrada.

O homem nu é catalogado como um livro de contos e crônicas, enquanto A delicada trama do labirinto, seu trabalho mais recente, traz somente contos, mas o autor assume: “embora lá na editora eu tenha botado como conto, ele tem crônicas e mais crônicas”. Flávio tem um olho bom para perceber “o mundo que palpita e ferve à sua volta”, como diz o eu-lírico de um de seus textos, e é juntando todos os seus olhares do cotidiano, do pitoresco, da mitologia caririense, dos poetas do passado, que ele escreve sua “crônica contada” que se encerra para recomeçar logo em seguida.

“São várias histórias mais urbanas”, José diz, definindo o livro. Dividido em três partes (A delicada, Trama e Do labirinto), ele alterna textos poéticos e reflexivos com outros mais cômicos e divertidos. Verdade seja dita, apesar de tentar se distanciar do conto cheio de metáfora, José Flávio gosta de se utilizar desse artifício enquanto deixa lições e explicações ao fim de seus contos/crônicas. O fio da meada parece amarrar elucubrações aqui, meditações ali, e é como se ele deixasse um conselho ou uma dica, uma surpresa ou uma “gaitada” ao fim de cada crônica.

“Eu me enfastio se ficar fazendo a mesma coisa sempre”, José Flávio explica, dizendo o porquê de passear entre gêneros tão diferentes. Quando, em 2011, conheceu um mineiro apaixonado pelo cordel caririense, viu a oportunidade de expandir ainda mais o leque de publicações. Zé Mauro, mentor do projeto Livro de Graça na Praça, iniciativa promovida anualmente em Belo Horizonte, convidou o cronista a participar da edição do ano seguinte, onde textos de diversos autores foram reunidos e publicados em um livro. Para a terra de grande cronistas, como Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e o já citado Fernando Sabino, Zé Flávio levou o conto Na nave de Nava e, em 2013, O shopping mal-assombrado foi apreciado por pequenos leitores mineiros no livro de contos infantis que o projeto compilou. Para a edição deste ano, ele retorna com mais um conto voltado para as crianças, ainda com título não definido. “Vou terminar virando um autor de livro infantil”, ri.

“É um público legal. Primeiro porque é muito exigente, é muito difícil você agradar. E se ele não gostar, ele devolve e diz ‘eu não gostei’. É ótimo isso aí. Acho bom demais”, ele diz, se declarando fã da sinceridade das crianças e interessado no desafio encontrar um ponto específico no texto direcionado para o público infantil, entre uma linguagem fácil, que o permita entender com clareza, e outra mais trabalhada, que aumente o vocabulário de quem está apenas começando a ler. A crítica infante especializada caiu em cima do Mistério das Treze Portas feito Monteiro Lobato em Anita Malfatti. Zé Flávio já recebeu carta com a mensagem: “Gostei de todos. Menos do Vicente Fininho, porque ele é feio demais”.

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