Arte e Cultura

Um Jagunço Lírico guerreia pela Arte

A coluna Grandes Caririenses dessa semana relembra a entrevista com José Wilker, texto capa da 4ª edição da CARIRI Revista, publicada no ano de 2011.
Por Márcio Silvestre • 1 de julho de 2019
Por Tuty Osório
Fotos: Rafael Vilarouca

Rio de Janeiro, 1975. Minha primeira vez no Brasil, minha primeira vez diante da TV em cores, aos 10 anos. Só havia conhecido a TV aos sete – TV em preto e branco nas férias passadas em Portugal. Na infância em Moçambique, colônia portuguesa naquele tempo, no sul da África, não havia televisão. Minhas fantasias de criança foram nutridas pelos pequenos discos de histórias tocados na vitrola embutida no móvel de madeira da sala de visitas, pelos livros que habitavam em profusão a nossa casa e pelo rádio. Era uma ouvinte enlevada e dos sete aos nove anos fui locutora num programa infantil onde dizia poemas e respondia cartas.

Daí que a imagem colorida da TV brasileira me deslumbrou com fatalidade. Na tela um homem vestindo um terno claro, chapéu panamá e um bigode que parecia desenhado, perseguido em surdina por um grupo de jagunços que lhe aprontavam tocaia. Uma música sinistra reveza-se com o silêncio. A personagem de terno azul era Mundinho Falcão, protagonizado por José Wilker em “Gabriela”, o primeiro sucesso mundial da teledramaturgia brasileira.

Rio de Janeiro, 2011. O intérprete do homem de terno claro que caminhava lentamente na imagem da minha estreia como telespectadora da TV em cores nos recebe ao vivo na sala de sua casa no Jardim Botânico. Conta à Cariri Revista histórias da infância em Juazeiro do Norte, da memória do Cariri dentro de si e dos múltiplos planos em ampliar a participação das artes cênicas no cotidiano do público, no Brasil e em outras paragens. Ator, diretor, produtor, autor, atuante no teatro, no cinema e na televisão desde 1973, José Wilker não esconde a sua paixão pelo trabalho e a inevitabilidade de sua escolha. É um erudito exigente, contemporâneo ousado e conservador na qualidade. Discorre com fluidez sobre o que se produz no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa. E também é conhecedor do que se faz no Irã, na Índia e em pequenos países da África, numa busca constante de outras experiências, novos olhares. Ao falar do Cariri, Wilker revela que os amigos o apelidaram, justamente, de jagunço, em alusão à sua origem sertaneja e à leve rudeza que sobrevive à sofisticação. Conta que a relação mágica com a realidade apreendida na infância permanece até hoje, bem como a ironia lúdica tão característica dos cearenses. Foram as salas de cinema de Juazeiro, o teatro na escola e a biblioteca de seu tio professor – fontes únicas de cultura na cidade da época –, as primeiras influências que o levaram à profissão que exerce.

Não nos fala de lembranças de lugares, nem de episódios, embora sirva-se destes para ilustrar o que deseja expressar. Sua memória revelada ultrapassa a descrição de simples lembranças. Mostra um Cariri que vive realmente dentro de si, alicerce de sua identidade, de sua forma de sentir o mundo e de devolver esse sentimento.

CARIRI DEFINITIVO

“O Cariri dentro de mim… A primeira infância é definitiva. Depois você elabora, mas a base está ali, quer você queira, quer não. Eu nasci em Juazeiro, e em que pese voltar sempre a Recife, a minha infância e a minha pré-adolescência foram vividas no Cariri. Então é assim, entre os meus amigos mais próximos eu sou conhecido como o jagunço, porque por mais que eu tenha me sofisticado, o que eles chamam de jagunço é essa memória em mim.”

IMAGINAÇÃO PROVOCADA

“E a memória em mim está em ter uma imaginação provocada pelo lugar, pelas pessoas do lugar, pela geografia do lugar. Tem uma história da minha infância em Juazeiro que eu até contei numa peça que escrevi, que me parece fascinante. É a história de um sujeito que andava sempre vestido de príncipe, eu me lembro bem. Era o Príncipe Ribamar, ele andava com um rolo de papel debaixo do braço que era um desenho da Gioconda do Da Vinci. Ele se dizia noivo dela e estava sempre esperando a Gioconda chegar, até que um dia ele descobriu que ela não ia chegar. Isso porque ela viria por via aérea e em Juazeiro não havia aeroporto! Então, ele juntou alguns crédulos e capinou um terreno que é, justamente, onde está instalado hoje o aeroporto de Juazeiro. Até essa noção ele tinha…”

RELAÇÃO MÁGICA COM A VIDA

“Essa relação mágica com a vida, que herdei de lá, é uma relação que não me abandona. No sentido oposto, a extrema religiosidade que conheci em Juazeiro me tornou ateu, ela me levou para o caminho inverso. Despertou uma curiosidade, um questionamento, uma busca de conhecimento onde a religião institucional, oficial, não cabe.”

IRONIA HERDADA

“A outra memória é a da minha ironia, que é uma herança da minha mãe e das minhas tias, o olhar com que elas viam o mundo ao redor. Ninguém escapava dois minutos sem um apelido, ninguém escapava três minutos sem que elas descobrissem naquela pessoa uma característica particular que a identificava”.

PRIMEIRAS INFLUÊNCIAS

“A minha curiosidade sobre os livros vem daí, também. Eu vivia numa casa cheia de livros, meu tio era professor, ali nos Salesianos, e isso eu tenho até hoje. Eu me lembro de não saber ler mas gostar do objeto livro e de ficar tentando descobrir o que havia por trás daqueles desenhos que a gente chama de letra, tentando adivinhar que histórias aquele tipo de coisa escondia. Foi uma revelação quando eu descobri! Havia de tudo, desde dois volumes da Antologia da Poesia Cearense do Dolor Barreira até literatura romântica francesa de Lamartine e Chateaubriand.”

“O próprio teatro que eu faço, a profissão que segui – que eu sempre achei que foi por acaso – me foi despertada na minha pré-adolescência em Juazeiro, quando a gente fazia uma ou duas vezes por ano apresentações de teatro para a própria escola e para o padre visitador, que rodava mundo afora visitando os colégios, como uma espécie de inspetor.”

“O meu próprio gosto musical, ecletíssimo, se formou também por ouvir, por exemplo, um médico que era o parteiro da cidade, o Dr. Mozart. Ele era louco por ópera italiana e as cantava no intervalo entre o almoço, um banho e uma sesta, a plenos pulmões. Junto com isso havia toda a música popular brasileira e de alguma maneira latina que a gente ouvia na única fonte de informação da cidade, o CRP, Centro Regional de Publicidade, que funcionava de 6h às 8h e que tocava músicas de alguém para você.”

“E finalmente o cinema, que era, digamos, a atividade cultural mais constante em oferta, e que me mostrou que o mundo era muito maior que aquela cidade da qual eu conhecia o começo e o fim. Não sei se eu te respondi…”

DEVANEIOS DE SÁBADO

“O sábado era o dia em que a gente se informava. Era quando os cantores de feira cantavam na literatura de cordel o que estava acontecendo no mundo, e a gente sabia basicamente do mundo por eles. Quer dizer, a única rede de comunicação de Juazeiro com o mundo era um rádio amador, o prefixo dele era PY7Y4. Por ele chegavam as informações fundamentais, como o suicídio do Getúlio, a vitória do Brasil na Copa da Suécia… chegavam às vezes com um dia de atraso.”

RISCOS E VIRTUDES DAS CONEXÕES COM O MUNDO

“A troca é válida, mas a troca é perigosa, sim… Tinha um slogan de uma rádio em Recife que era: ‘Rádio Jornal do Comércio, Recife, Pernambuco, Brasil. Pernambuco falando para o mundo’. Provavelmente o mundo estava pouco ligando para a Rádio Jornal do Comércio, provavelmente o mundo jamais a escutou, mas as pessoas que escutavam tomavam Recife como uma referência, uma aspiração, um lugar a ser imitado… Havia uma disputa interna na época, não sei se há ainda, entre Juazeiro e Crato, quando Juazeiro aspirava a ser melhor que o Crato e o espelho de aspiração não era outro senão o Crato. Essas relações enriquecem, mas acabam empobrecendo também.”

“Recife tinha o Pastoril do Faceta, que era o velho do Pastoril. Na época a televisão mantinha uma sede na cidade, e o pastoril era exibido em pedaços, pequenos trechos durante a programação nacional. Os produtores, vindos de outros lugares do Brasil, propuseram ao pessoal do pastoril que eles trocassem as cores, o encarnado e o azul, porque elas não eram adequadas à televisão. Como basicamente o pastoril é uma coisa cantada através dessas cores, eles não mudaram nada e a televisão teve que se ajustar a isso.”

O DIÁLOGO E O ESPELHO

“Quando eu estava filmando ‘Bye Bye Brasil’, a gente viajava muito e eu tinha a sensação de que o país ia se dividir em cinco. Nós éramos um Brasil que não conversava. O Acre, o Pará, o Amazonas não conversavam com o Rio Grande do Sul. O Nordeste pouco sabia do Centro-Oeste. O Sudeste se bastava. Quando voltei, após alguns anos, percebi que tínhamos ultrapassado essa dificuldade. E uma das grandes contribuições para isso veio da televisão. Ela de alguma maneira unificou este país. Hoje falamos uns com os outros. O Ceará fala com São Paulo e não é somente enviando mão-de-obra. Temos unidade sem padronização.”

“Você tem que ter o equilíbrio nessa troca porque é muito fascinante você assumir o espelho ou cair dentro dele, e se perder nele, mas só consegue se divertir dentro do espelho a Alice da história. O resto perde a essência, perde o perfil, perde a fonte da imagem. Você tem que ter cuidado com isso.”

JUAZEIRO DO COMEÇO AO FIM

“Eu tenho visto fotos de Juazeiro hoje, por causa do Centenário, a Globo News fez imagens lá, conheço umas trocentas pessoas que foram para lá agora por motivos diversos, sejam profissionais, sejam religiosos. Então, eu olho pro Juazeiro e ao mesmo tempo em que ele me encanta, me assusta.”

“Me encanta pela saudade, pela cidade que eu conhecia do começo ao fim. A cidade começava na Matriz de Nossa Senhora das Dores, lá embaixo, e só tinha mais uma rua. O resto era mato, e a gente caminhava pelo mato para chegar ao rio. Em cima acabava nos Salesianos. Tinha uma ruazinha e umas casas de taipa onde ficavam as pessoas mais pobres, que vinham pagar promessa ou porque lá era a terra da salvação. Eram retirantes mesmo, que corriam para a região porque era o único lugar poupado pela seca com muita frequência.”

O TEMPO E A CIDADE

“O Juazeiro moderno eu não conheço dele, eu não sei dele, ou eu sei de segunda mão. E esse me assusta… Eu não devia dizer isso, mas me assusta…”

“Mas não vou lá mesmo por falta de tempo… Uma viagem para o meu prazer pessoal exige uma ginástica monumental e eu trabalho demais… Não é como ir a São Paulo, que você almoça e volta. É um dia para ir, outro para ficar, outro para voltar. São três dias, e é difícil ter três dias disponíveis assim…”

“Quando eu vivia lá, a gente morava onde todo o mundo morava. Uma quadra, duas ruas antes da Praça Padre Cícero. A cidade morava naquela área ali, os cinemas eram todos ali, o cinema Avenida, a sorveteria, o cartório, a prefeitura, tudo acontecia ali. De vez em quando você se aventurava a ir um pouco mais longe, onde foi construída a igreja dos franciscanos, por exemplo. Diariamente as pessoas ficavam sentadas na calçada, vendo as outras passarem, se visitando, a gente ficava andando o mesmo caminho uma eternidade, a gente ficava tentando namorar. Namorar era uma coisa estranhíssima…”

CAMPOS E ESPAÇOS

“Eu tenho a informação de que a casa onde as minhas tias moravam, onde eu morei, foi vandalizada quando morreu o último da família, meu tio. Toda aquela região onde a gente vivia hoje é uma área comercial. Não é mais um espaço de viver, é um espaço de comprar e vender, e esse é um espaço que se enfeia, que se empobrece. Eu sei que hoje esse é o destino de todas as cidades quando crescem. Os centros delas são vandalizados, e de vez em quando resolvem revitalizar esses espaços. Aí Paris faz o Les Halles, Buenos Aires faz Puerto Madero, o Rio de Janeiro está tentando revitalizar a região portuária. Mas o destino é esse. O local onde as cidades nasceram acaba sendo destruído…”

GOGÓS E CARRAPATOS

“É inteligente acabar com a disputa entre as cidades. Quando eu ainda morava em Juazeiro, nas eleições havia o PSD e a UDN, os chamados gogós e os carrapatos. Eles se alternavam na prefeitura e a cidade era apenas um pretexto, uma circunstância que podia ser considerada ou não. Eles começaram a se entender mais tarde. A cidade foi dominada por uma família que a uniu, que trouxe uma certa harmonia. Isso foi uma coisa boa. Não sei se solto foguetes, porque é uma herança do coronelismo, mas alguma benfeitoria disso resultou.”

O CONSTANTE LUGAR DO OUTRO

“O pior elogio que alguém pode me fazer é me chamar de natural, eu considero isso um xingamento. Eu não acredito em ser natural interpretando. A gente mente. A melhor definição de ator que eu conheço é aquela das palavras cruzadas, homem que sabe mentir com quatro letras – ator. Eu tenho que desenvolver mecanismos de exposição que possa controlar. Eu preciso ser uma pessoa observadora, uma pessoa que lê, que tem um olhar sobre o outro, que é curiosa, que duvida, que é teimosa, que é insegura, que é afetuosa, que é generosa… Há uma série de qualificativos que te levam a poder representar. Você representa. Ser ator é isso, representar.”

“Esse ator que incorpora personagem é um ator que não me atrai, ele revela muito pouco dessa personagem. Há uma corrente forte no Brasil que defende o natural, mas ela vem a serviço da televisão, cujo principal programa é o intervalo comercial. Eu não posso menti-lo, então me deixo assimilar por ele. Muitas pessoas na televisão são tatibitati, falam mal o português, gaguejam… Tentam se parecer ao máximo com as pessoas do dia-a-dia que você reconhece. Isso tem muito pouco a ver com representar. Tem a ver com vender bem certos produtos, que não são só a geladeira, a televisão… São também atitudes de relação entre pessoas e valores que a sociedade de repente prega como fundamentais da sobrevivência. Isso empobrece de alguma maneira o conceito do que é ser ator. Mas nem todo mundo pensa dessa maneira. Se eu estou me preparando para fazer Macbeth, eu não preciso cometer crimes, embora Macbeth seja uma peça sobre assassinato.”

SHAKESPEARE PARA CRIANÇAS

“Não sei se eu vou levar essa ideia adiante, de encenar Shakespeare para crianças, não sei se é economicamente viável… Isso eu vi numa viagem pra Londres, onde a Royal Shakespeare Company apresenta espetáculos de Shakespeare para crianças de cinco até 10, 11 anos… Não tem teatro infantil e teatro adulto, tem teatro. O teatro infantil – não sei como está sendo feito fora do Rio – mas aqui ele é confinado ao espaço que sobra da peça que está no horário nobre. E os atores representam falando com objetos inanimados: oi pedra!, oi árvore! É meio maluco, não me encanta.”

“Está certo, algumas peças de Shakespeare exigem talvez cinco ou seis leituras diferentes, você tem leituras mais profundas. Mas toda peça de teatro é ruína. Se você pega o teatro grego, é ruína que você como ator reconstrói. Enquanto está no papel não é nada, é tijolo, é palavra solta. Já escreveram dezenas de livros diferentes sobre Hamlet. É uma peça que foi montada aos pedaços e que até hoje ninguém sabe o que é. Temos que entender que há uma versão simples do Hamlet.”

“Shakespeare fazia teatro para pessoas que não sabiam ler nem escrever. O livro é posterior a Shakespeare – o livro, essa invenção genial! O que Shakespeare fazia era muito simples, só que as classes vão se formando e se apropriam desse tipo de coisa. Determinam que esse é um bem culto, um bem de luxo, que não pode ser apreciado pelo populacho, pois o populacho tem que se contentar com o que de pior se produz. Isso é uma forma de dominação, simplesmente.”

O ERUDITO é POPULAR

“Aqui no Rio havia uma coisa interessante há alguns anos atrás. Eram os Concertos para a Juventude, na Quinta da Boa Vista, patrocinados pela Shell. O Karabchevsky regia Wagner, Beethoven, Tchaiko- vsky, para um público de milhares de pessoas, nas manhãs de domingo. Esse evento era exibido após o Fantástico. De repente, por alguma razão misteriosa, decidiram que aquilo não fazia mais sentido e substituíram os concertos pelo Sai de Baixo, que eu dirigia… Substituir Tchaikovsky por Sai de Baixo!!! Eu me divertia muito fazendo o Sai de Baixo, mas decretar que o povo não entende música erudita é se apropriar de um bem em detrimento de um bem comum, é um problema social mesmo.”

PRODUÇÃO NACIONAL

“É uma pena que certas iniciativas culturais tenham que passar pelo gargalo da política partidária. O Centro Dragão do Mar, em Fortaleza, quase acabou por conta de briga político-partidária. Essas brigas descrevem imensamente a cultura. Eu acho que são uns heróis os caras que conseguem superar isso. O fato é que se está fazendo um trabalho de cinema no Ceará, na Paraíba, em Pernambuco, no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais. No Pará, por esforço da Dira (Paes). Acho legal que isso aconteça.”

AND THE OSCAR GOES TO…

“Alguns no Brasil acham que nós temos que ganhar um Oscar para termos de fato cinema. É preciso que os Estados Unidos e a Europa gostem do que a gente faz, pra gente gostar do que faz. Isso é uma tolice! Eles são outra civilização, outra cultura, outro ritmo de olhar pra vida que não é o nosso, então vamos sempre ser vistos lá como uma coisa pitoresca, da mesma forma que em São Paulo um espetáculo do Ceará é uma coisa pitoresca. E pitoresco pejorativamente.”

LEITURAS DO NORDESTE

“A televisão já experimentou fazer coisas sobre o Nordeste que eu acho que… Não dá para citar porque eu não quero criticar amigos meus, mas eu abomino certas coisas que fizeram, pretensamente nordestinas, a começar pelo sotaque, que está dissociado… As canções que a minha mãe cantava para mim eram canções de trabalho, elas serviam pra me embalar o sono e pro cara cortar cana, estavam ligadas ao cotidiano, tinham um sentido preciso… Não se pode fazer disso uma coisa pitoresca. Para conseguir algum resultado de fato significativo é preciso ser um Gauguin. Aí você vai pro Taiti e pinta o Taiti, sem mentir sobre isso. Mas não existem muitos Gauguin… Eu fico, assim, quicando quando eu ouço esse sotaque de… que região é essa?! Porque as pessoas falam de um jeito no Ceará, de outro jeito em Pernambuco, de outro jeito no Pará, de outro jeito na Bahia, de outro jeito em Alagoas…E a coisa fica um pastel na televisão, as pessoas falando daquele modo esquisitíssimo. Não sei em que lugar do mundo se fala daquele jeito! “

CINEMA NO MUNDO

“O maior produtor de cinema do mundo é a Nigéria, depois vem a Índia, depois os Estados Unidos. O maior festival de cinema ocorre em Burkina Fasso, que é um país no centro da África. Nesses lugares, Burkina, Nigéria, Índia, acontece uma coisa bem diferente, que merece um olhar. Burkina reúne toda a produção do cinema negro do mundo uma vez por ano, e distribui para a África. E debate, se reinventa.”

“A Nigéria faz quase que um cinema por encomenda, é parecido com o cinema do camelô de cinema de Recife, é feito com VHS e é vendido na feira. O cara vendendo vinte cópias já pagou a produção. A Índia faz uma coisa preciosa. Eles são um bilhão e cem de habitantes e fazem uns dez filmes para exibição nacional. É um número muito pequeno. A maioria absoluta, 90% da produção, é para exibição regional. Tem Bollywood que já se espalhou, é vendido no ocidente. Mas as várias regiões produzem e consomem o próprio cinema. Aqui houve uma tentativa há um tempo atrás, de um pessoal do Rio Grande do Sul. Eles mantinham um circuito que parava em Santa Catarina, e que, de alguma maneira, aumentava a produção de cinema e de televisão. Eles conseguiam produzir ficção, dramaturgia para a televisão, e exibir no mercado do Sul do país. É uma coisa que o Brasil pode fazer.”

ROQUE SANTEIRO E PADRE CÍCERO

“Eu estava no teatro no dia que ‘O Berço do Herói’, que é a origem de ‘Roque Santeiro’, foi proibida pelo Lacerda. O Dias Gomes mudou o título, rearrumou e fez uma novela, que por sua vez também foi proibida. Só veio a ser liberada quando o Brasil entendeu que precisava rir de si mesmo.”

“A história do Roque Santeiro é uma história que não é exatamente de propriedade do Brasil nem do Dias. É uma lenda medieval. Aliás, é bíblico, é a história do filho pródigo, da pessoa que some, que é dada como morta e que volta, é o eterno retorno. Quando eu fui fazer o Roque Santeiro, o que me inspirou foi muito mais essa memória – que é da humanidade – do que a memória de Juazeiro. Até porque Juazeiro é um fato concreto, observável, visível, uma cidade que tinha 500 pessoas e que agora tem quase 300.000! O Roque é uma ficção.”

“Algumas pessoas que têm habilidade com determinados sotaques e outras não. No Roque cada um fala como sabe, não existe um sotaque comum. Asa Branca, a cidade fictícia, não é um lugar determinado. O Paulo (Ubiratan) falava: Asa Branca é o Brasil, então os atores estão livres para escolher a forma mais confortável de falar. E fizemos isso. Como o Roque entrava depois do capítulo 20, eu fiquei assistindo e vi que era um carnaval de sotaques. A minha única saída para ser notado era não fazer nada, era trabalhar como se eu estivesse fazendo uma história em quadrinhos, com um desenho de personagem que tem um chapéu, um óculos…”

O REINO DAS PALAVRAS

“Eu tenho um método que é inspirado num poema que diz assim: penetra surdamente no reino das palavras. Meu trabalho como ator vai muito nessa direção de pegar o texto e tentar entender o que há por trás, o que significa, qual o valor daquela palavra, que espaço eu ocupo aqui… Jorge Luis Borges tem um personagem interessante, o Pierre Menard, que é um autor fictício que estaria reescrevendo o Dom Quixote. Ele escreve exatamente como o Dom Quixote de Cervantes, mas é uma reescrita. E Borges brinca com a ideia de que é de fato uma reescrita, porque o valor que o Pierre Menard dá a cada palavra não é precisamente o valor que o Cervantes dava a cada palavra e o leitor de hoje não é o leitor do século em que o Cervantes escreveu.

ESTAR PRONTO NÃO É TUDO

“Estar pronto é tudo? Não, tudo é nunca estar pronto, é ser movido pela dúvida. Nunca está acabado, é sempre uma reconstrução. Eu tenho sempre um, dois, três projetos novos, estou sempre começando algo, criando, sempre.”

*Essa entrevista foi capa da 4ª edição da CARIRI Revista, publicada no ano de 2011.

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Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".