CARIRI Natureza

Trilhas, passeios de bike e turismo no coração verde do Cariri

Na Coluna CARIRI Natureza de hoje relembramos uma bela reportagem, publicada na 2ª edição de nossa revista impressa, que enaltece o turismo da região do Cariri.
Por Redação Cariri • 21 de outubro de 2019

Por Claudia Albuquerque

— Quem vai querer andu?

 A pergunta, feita sob o sol do meio-dia, que banha de azul e açafrão a pequena roça de macaxeira, jerimum, mandioca brava e batata doce, é proferida por dona Mariquinha aos turistas atentos, alguns deles totalmente ignorantes dos usos e delícias do andu, ou feijão-guandu, uma espécie de leguminosa arbustiva comum nessa região.

Tirando algumas vagens do pé, dona Mariquinha, que nasceu Mariana, antiga moradora desse terreno fresco ensombrado por fruteiras, diz que os caroços rajadinhos do andu são mesmo saborosos. Mais tarde, devidamente cozidos e casados ao arroz, eles deslumbrarão os visitantes esfaimados, que vão repartir pela primeira vez uma travessa copiosa de baião-de-dois com andu. Acrescido de pequi, como manda a etiqueta regional.

Estamos no sítio Lírio, distrito do Cajueiro, município de Santana do Cariri, perdidos nas artérias refrescantes da Chapada do Araripe, o imenso planalto verde que tonifica pedaços do Ceará, Pernambuco e Piauí. Aqui, entre pés de caju, graviola, manga, acerola, goiaba, jaca e outras branduras, dona Mariquinha vive da agricultura familiar e da produção de mel.

Perícia na arte de fazergoma e farinha.

O responsável pelo apiário é o genro José, casado com Cicinha, uma das filhas da casa. Sobrevoando as floradas do cipó-uva, do jequiri, da pitomba, da cidreira, do jatobá e outras tantas, as abelhas da Chapada usufruem da fama de excelentes operárias. “Tudo aqui é melhor que no Sul, por causa do sol: as frutas, as folhas, o mel…”, diz o apicultor, sem hesitação.

Apesar da presença de José, a casa que nos recebe é uma casa de mulheres. Iracema e Cícera, a Cicinha, dividem com a mãe o zelo com a roça, a labuta ardente no fogão à lenha, o capricho com o terreno sempre bem varrido, os cuidados com as galinhas e pequenos animais. Aqui os dias são longos, as noites geladas e o tempo desliza feito areia nos dedos, sem sobressalto. O dinheiro acompanha o mês, contadinho, desde que não se façam gastos extras.

Este ano, porém, a casinha verde com altar cheio de santos e cadeiras na varanda está recebendo pela primeira vez os grupos que fazem turismo sustentável, trazidos por uma agência da região. Fuçando aqui e acolá, os visitantes percorrem a roça, observam as plantas, apreciam a produção de mel, adentram a casa de farinha, conhecem o cemitério da família, se benzem na capelinha ao lado, lavam as mãos no pote frio de barro e provam o tempero inigualável das mulheres da casa, para as quais não cessam de fazer perguntas.

—           Quando é a farinhada?
—           E o mel de cipó-uva?
—           Como fazem a goma?
—           O que é puba?

No início da tarde, o almoço farto parece encomendado para o triplo de convidados: galinha caipira cozida e assada, carne de sol, baião-de-dois, batata doce, macarrão com muito queijo. Todos avançam, mal mastigando, elogiando, repetindo uma vez, duas, três, já esquecidos de que há pouco tempo se sentaram nessa mesma mesa com café, chá, suco de goiaba, beiju, tapioca e bolo de puba – tudo colhido e feito na casa. Enquanto um favo de mel escuro e viscoso circula entre os forasteiros, Cicinha se emociona, olhos marejados: “Espero que tenham gostado, é tudo muito simples, mas estamos felizes”.

Novas possibilidades de apreciação

O juazeirense Adalmiran Silva de Vasconcelos foi o mentor, junto com os irmãos André e Adriano, desse roteiro que leva os visitantes para o coração da Chapada do Araripe, descortinando alguns dos seus segredos ao percorrer caminhos verdejantes numa van perfeitamente adaptada, com internet, bagageiro e água gelada. O roteiro surgiu do desejo de Adalmiran, um jovem padre conhecedor das carências locais, de oferecer assistência ao povo da Chapada.

 

“A ideia é contribuir para o desenvolvimento sus- tentável das comunidades, trazendo os visitantes para conhecer a vida das pessoas, e não apenas as paisagens. Claro que as casas que recebem os turistas são capacitadas. E o preço do passeio, que começa de manhãzinha e vai até o fim da tarde, inclui as refeições, tipicamente caririenses, feitas por famílias como as de dona Mariquinha. Além disso, os produtores podem vender mel e goma diretamente para os visitantes, que se encantam com essa zona de transição entre a mata atlântica e o cerrado”, explica Adalmiran.

Junto com os irmãos, ele elaborou outros trajetos turísticos – inclusive um religioso (que leva ao Mosteiro Beneditino Nossa Senhora das Vitórias) e uma city tour por Juazeiro (que inclui visita ao Horto, Memorial Padre Cícero, Centro de Artesanato Mestre Noza, Mercado Central e outros points obrigatórios). O mais “verde” e sustentável, porém, é o roteiro “Pequi com o Mel”, que acontece desde abril e expressa uma tendência mundial de ir em busca da “essência humana” na tentativa de compreender uma região.

“Os turistas vivenciam novas experiências, e os moradores têm uma forma alternativa de renda”, acredita Adalmiran, que faz pequenas alterações no script, dependendo dos pedidos dos fregueses. Nesta terça-feira de sol e vento frio, os visitantes conhecem o Geossítio Pontal de Santa Cruz, a 750 m de altitude, e a Floresta Nacional do Araripe (FLONA), no alto da Chapada – conforme o previsto –, mas estendem a viagem à cidade de Santana do Cariri, onde veem o Museu de Paleontologia, o casarão do Coronel Felinto da Cruz Neves e a Igreja de Senhora Santana, antes de retornarem à casa de dona Mariquinha para o almoço.

 

No Cariri, o trade turístico está despertando para a importância de alternativas como essa. Aos poucos, a região elabora formas inovadoras de apreciação, valorizando não apenas o turismo de massa, mas, sobretudo o geoturismo, com a maior profissionalização do setor. Agências de receptivo, empresários e instituições como a Urca, Sebrae e Senac reconhecem que é preciso diminuir a informalidade – ainda grande – para aumentar a eficiência. A primeira turma do Curso Técnico em Guia de Turismo, promovido pelo Senac em parceria com o Geopark, já está completando um ano de estudos no Crato, assim como continuam sendo capacitados os jovens da Escola de Educação Profissional Prof. Moreira de Sousa, em Juazeiro do Norte.

Altiva e orgulhosa, a velha Chapada abriga o Geopark Araripe, primeiro parque fossilífero das Américas e do Hemisfério Sul reconhecido pela Unesco. Seus nove geossítios abertos à visitação se distribuem por seis cidades do Cariri. O planalto de 130 milhões de anos é um dos pontos privilegiados de atração de viajantes, que dividem com os caririenses o prazer de per- correr trilhas, conversar com os moradores, saborear o claro mel de cipó-uva (típico das floradas daqui), andar de bicicleta, fazer rappel, visitar as reservas de fósseis, ou, simplesmente, observar e relaxar.

Sobre duas rodas

Uma boa alternativa para quem tem pernas, fôlego e uma bike apropriada é percorrer as trilhas da Chapada sobre duas rodas. Pessoas da região, geralmente em grupos organizados, cada vez mais estão aderindo aos prazeres dessa modalidade, que exige certas precauções. “Não recomendamos que o ciclista vá só, a não ser que conheça bem a área”, diz Keely Cristina, que junto com o marido Antônio Rios mantém duas lojas de venda e manutenção de bikes, uma em Juazeiro e outra no Crato.

O casal organiza passeios semanais para turmas de ciclistas, que aproveitam o frescor da noite para pedalar. Uma turma se reúne às segundas e quartas, outra às terças e quintas. A primeira é para diletantes, a outra para atletas. “Às segundas e quartas as distâncias são menores, em média 30 km, partindo de Juazeiro para pontos vizinhos, como Crato ou Barbalha. Nos outros dias, o trajeto é mais pesado, chegando a 80 km, por isso é preciso preparo físico”. Esses passeios mais longos se estendem até localidades como Missão Velha, Caririaçu e Arajara. Aos domingos, é dia de subir a serra, com saída às 6h da manhã. “Vale a pena, as pessoas adoram, existem trilhas lindas e muito charmosas”, incentiva Antônio Rios, que assim como Keely é adepto convicto do ciclismo em bando.

MTB 6 horas

Os apaixonados por mountain bike têm à disposição vários eventos e passeios na Chapada. Um deles é o MTB 6 Horas, um circuito fechado de 10 km entre as árvores do planalto, que este ano aconteceu no dia 03 de julho, reunindo participantes a partir de 15 anos até mais de 60. O cratense Ernesto Rocha foi o idealiza- dor da prova, que já está na 10ª edição. “É um circuito bastante fácil, com inclinação suave e caminho som- breado. Qualquer bike aguenta, desde que o ciclista tenha fôlego para repetir o trajeto até completar as seis horas de pedalada”, explica Ernesto, um dos pioneiros do mountain bike no Ceará. “Quando comecei, há 25 anos, não existia nem a Federação Cearense de Ciclismo”, recorda. Hoje, o grupo Eco Biker´s, do qual Ernesto faz parte, tem quase mil cadastrados. “Atuamos de forma organizada, promovendo competições, passeios e aventuras. O ciclismo na Chapada é um privilégio, pois o topo dela é bastante plano”.

A passos largos

Para quem prefere ver o mundo sobre os próprios pés, a Chapada do Araripe descortina opções como a bela trilha que atravessa o Vale do Buriti. Com dois quilômetros de extensão e muitas nascentes de água límpida, o caminho pontuado de buritis também oferece a possibilidade de rappel num paredão rochoso de 76 metros. “Outra ótima pedida é a trilha do Pontal, que apesar de curta, é bastante íngreme. São 20 minutos de caminhada mais pesada, porém sem perigo”, informa o guia Henrique do Pontal, que trabalha no Casarão do Coronel Felinto da Cruz e também faz excursões externas com turistas.

Fotos: Rafael Vilarouca.

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