Arte e Cultura

Tradição fortalecida em festejos do Ciclo de Reis

Por Márcio Silvestre • 4 de janeiro de 2019

Um momento especial para o público e para os brincantes da cultura popular. Assim tem sido o ciclo de reis do Município de Juazeiro do Norte. Na noite da quarta-feira (02), o anfiteatro do Núcleo de educação, arte e cultura Marcus Jussier estava lotado. Eram crianças, adultos e idosos reunidos para prestigiar o reinado da cultura popular. Ao longo da noite, o público presente pode aproveitar as apresentações dos grupos de Reisados, Guerreiros, Batuqueiros e da grande homenageada da noite: a Mestra Margarida.

Mestra Margarida (Foto: Márcio Silvestre)

Sentada em seu trono, cantava e brincava as peças do seu grupo, o Guerreiro Santa Joana D’arc, um folguedo popular criado e mantido por ela durante muitos anos em Juazeiro do Norte. “Faz muito tempo que eu tenho esse Guerreiro, comecei a ensaiar nos anos 40, cantando, brincando, dançando e jogando espadas”, relembra a Mestra de 84 anos, que desde a infância vive a tradição popular.

Atenciosa, Mestra Margarida canta um verso de “A chegada do Guerreiro”, uma das peças de seu grupo. “Chegou meu guerreiro treme terra com seu baianá moderno para o povo apreciar, chegou meu guerreiro treme terra com seu baianá moderno para o povo apreciar. Senhor e senhora, queira desculpar eu vim de longe com meu figura. Chegou meu jardim flores cheirosas violeta e cravo e rosa para enfeitar o natal”.

Os brincantes que atualmente formam o Guerreiro da Mestra Margarida se reuniram pela primeira vez em 2008, mas alguns dos integrantes já brincavam com a Mestra Margarida desde 2002. A jovem Luzia Gomide faz parte do grupo há 15 anos e afirma que a cultura popular está integrada com a sua vida. “Danço desde os cinco anos. Quando minha família chegou ao Cariri, meus pais moraram no Bairro João Cabral e lá reunimos grupos e brincantes, criando a União dos Artistas da Terra da Mãe de Deus. Daí iniciamos um trabalho com a cultura popular, valorizando os mestres e convidando os jovens a participarem. O contato com os mestres nos proporciona muitos aprendizados, como a resistência, fortalecimento da identidade e a manutenção das tradições culturais”, afirma Luzia.

Luzia Gomide brincante há 15 anos. (Foto: Márcio Silvestre)

Projeto Ciclo de Reis

Essa é a segunda edição do projeto Ciclo de Reis, que iniciou suas atividades no dia 21 de dezembro de 2018 e segue com uma vasta programação até o dia 06 de janeiro de 2019. Uma iniciativa da Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte, através da Secretaria de Cultura do Município. Nesta edição o projeto envolve 44 grupos de tradição e contempla na sua programação 20 bairros da cidade.

Reisado São Miguel (Foto:Márcio Silvestre)

Para quem está acompanhando a programação tem sido muito emocionante, como relata o Técnico de Cultura do Sesc, Josiel Bernardo.” A terreirada é um lugar de encontro, não só entre Reisado e Guerreiro, mas entre vários grupos de tradição. É uma festa que reúne o povo. Eu estou achando ótimo a valorização que os grupos tem tido durante o Ciclo de Reis. Vê o povo reunido para assistir é muito gratificante. Durante todo o meu recesso de fim de ano no trabalho pude acompanhar as apresentações e assisti muito reisado”, relata Josiel, que também brincou Guerreiro com a Mestre Margarida durante a infância.

Olhares atentos para a cultura popular. Foto:MárcioSilvestre

De acordo com Josué Farias, representante da ONG Zaíla Lavor (responsável pela organização do evento), o projeto foi pensado para democratizar o acesso a produção da arte popular. “Queremos descentralizar os festejos natalinos. A programação vem propondo o acesso democrático da população, com apresentações em diversos pontos da cidade. Ao todo temos 20 bairros atendidos. Esse projeto é muito gratificante para quem está envolvido tanto na organização como os próprios grupos que apresentam seu trabalho”, explica.

Um projeto feito por quem entende e vivencia a cultura popular desde a infância. A Coordenadora do Ciclo de Reis, Maria Gomide, explica o objetivo do projeto. “Nosso intuito é fortalecer a cultura popular, possibilitando que os grupos de tradição estejam efetivamente se apresentando nas comunidades, com tempo de vivência para renascer as figuras dramáticas e a valorização da musicalidade dos reisados, guerreiros e lapinhas, que são os grupos tradicionais do ciclo natalino. Mas o projeto também abre espaço para outros grupos de tradição, proporcionando o envolvimento deles, nas terreiradas, momento de encontros paz e união entre todos”, afirma a brincante.

 

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Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".