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Soldadinho-do-Araripe: a lembrança do canto da realeza

Por Redação Cariri • 14 de março de 2019

Exemplar macho do Soldadinho do Araripe. A ave existe apenas no Ceará e está ameaçada de extinção (Foto: Divulgação/Ciro Albano)

Por Tayronne de Almeida e João Leandro

O Soldadinho-do-Araripe (nome científico: Antilophia bokermanni) é uma ave passeriforme da família Pipridae, que é encontrado somente nos municípios cearenses de Barbalha, Crato e Missão Velha. O Instituto Chico Mendes (ICMBIO) no ano de 2011, lançou um Plano de Ação Nacional para Conservação do Soldadinho do Araripe, neste documento apresenta dados que até 1998 o nosso protagonista era ignorado pela ciência e pela maioria da população, especialmente pelo fato de ser uma espécie encontrada unicamente nas cidades já citadas e de não haver interesse prévio no estudo e preservação desta ave. O plano desenvolvido pelo ICMBIO, instrumento público pouco apresentado para quem de fato deve interessar e que vive intimamente essa realidade, destaca que poucos habitantes da encosta da Chapada do Araripe o conheciam, o que refletiu na utilização de diversos nomes atribuídos popularmente a ave: “lavadeira-da-mata”, “galo-da-mata”, “cabeça-vermelha-da-mata”, “língua-de-tamanduá”, “uirapuru-matreiro” dentre outros.

Os nomes têm relação direta com seu hábitat florestal, descrição do canto e associação com a água, devido a Chapada do Araripe ser conhecida por suas abundantes nascentes, consolidando assim a unificação do nome Soldadinho-do-Araripe; o que voava apenas nos ares caririenses, agora torna-se mais forte do que antes, passa a bater no coração de cada morador, que à sua maneira testemunhou, destacou e o nomeou como símbolo para conservação das matas e dos rios, perpetuando assim, não somente um guardião, mas um “reizinho” entre eles na natureza.

Apesar de toda beleza e majestade, o soldadinho não tem o direito à realeza que naturalmente lhe pertence. O processo constante de urbanização da Região Metropolitana do Cariri faz com que inversamente as áreas de preservação se reduzam. O governo e as instituições de conservação discutem o seu vertiginoso processo de extinção, tanto que em 2006, com apoio do Ministério do Meio Ambiente, a Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (AQUASIS) elaborou uma proposta de plano de ação do Soldadinho-do-Araripe, subsidiada na sua experiência de pesquisa e conservação desta espécie. Para dar mais segurança à iniciativa foi publicada a Portaria nº 54, no Diário Oficial da União, em 2011. A portaria institui um grupo estratégico assessor, rede de colaboradores que acompanharão a implementação do Plano de Ação Nacional para a Conservação do Soldadinho-do-Araripe.

Espécime fêmea de soldadinho-do-Araripe. (Foto: Divulgação/Ciro Albano)

O Soldadinho-do-Araripe é ameaçado de extinção pela perda de hábitat, provocada principalmente pelo desmatamento e degradação de mananciais.  O pássaro está entre 190 aves classificadas como criticamente ameçadas de desaparecer do mundo, das quais 22 vivem no Brasil.

Os sons emitidos pelo Soldadinho-do-Araripe consistem em chamados e cantos, sendo estes últimos restritos aos machos, construindo assim um poder extenso de mantê-lo em nossas memórias além do ver, mas do ouvir. O canto principal dura menos de um segundo, sendo constituído por sete notas curtas. As estatísticas mais atuais colocaram nossa nobre ave em outra lista, a de aves ameaçadas da BirdLife International, organização ambiental cujos objetivos são a conservação e proteção da biodiversidade de aves e seus habitats. A entidade considerou seu status como criticamente em perigo (CR) de extinção.

O som do seu canto, o deslumbre causado por vê-lo, a necessidade da defesa, a luta pela existência de uma lembrança vai além, além de nossas capacidades físicas e estruturantes, vai até a mais alta resistência, no âmago da sobrevivência e como criaturas da natureza que também somos, viemos para dizê-lo: EIS QUE NÃO SERÁ APENAS LEMBRANÇA, MAS CONTINUARÁ SENDO EXISTÊNCIA.

RESISTA SOLDADINHO!

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