Arte e Cultura

Só no Crato mesmo

Ontem, 21, o município do Crato completou 256 anos de emancipação. Recordamos hoje na coluna especial Arte e Cultura, uma reportagem publicada na edição #16 da cariri revista, em junho de 2014.
Por Pedro Philippe • 22 de junho de 2020

“Impossível descrever o deleite que senti ao entrar neste distrito”, relatou George Gardner de passagem pela Vila Real do Crato em 1838. Apesar de encantado pela beleza do lugar, o naturalista escocês que coletava experiências e catalogava espécies de plantas em seu diário de bordo não mediu palavras quando quis falar mal: o capítulo 5 de “Viagem ao Interior do Brasil” traz as primeiras e piores descrições sobre o passado do Crato, um “lugar de refúgio de assassinos e vagabundos de todas as sortes e vindos de diferentes partes do país”. Dos dois mil habitantes que o médico e zoólogo calculou viverem no Crato àquela época, a maioria era de índios e seus descendentes mestiços, contendo apenas uma pequena parcela de “brasileiros”, que para ele eram os únicos habitantes respeitáveis – sugerindo que somente os brancos eram brasileiros.

A Serra de Araripe, descrita no capítulo “Pernambuco to Crato”, foram, segundo Gardner, o melhor campo que encontrou para sua pesquisa, juntando um inventário de árvores extenso e outro de histórias ainda maior e mais revelador. De todos os lugares onde passou, foi no distrito onde – “jogos de carta são a principal ocupação durante o dia” e toda briga se resolve na faca – que ele afirmou ter feito menos amigos. Ninguém escapou aos olhos do observador europeu, nem mesmo os dois soldados que cochilavam na delegacia e muito menos o vigário que, segundo ele, tinha seis filhos e, entre eles, um que seguiu os passos do pai e se tornou clérigo, vindo a se eleger Presidente da Província e, logo depois, senador do Império. Gardner garante que viu com seus próprios olhos o dito cujo voltar ao Crato para visitar o pai trazendo consigo a amante que, a propósito, era também sua prima.

Apesar de ter sido roubado por ciganos e amargar uma inflamação nos olhos durante uma parte dos dois meses que passou no Crato, George Gardner foi embora levando boas lembranças da festa de Nossa Senhora da Conceição e deixando o pressentimento de que “quando a população se tornar mais numerosa e a civilização tiver se tornado mais ambiciosa, esse distrito vai, com certeza, converter-se em uma parte valiosa da província.” Mesmo abominando o pecado do adultério e o vício em uma terra onde “o estado de moralidade entre os habitantes está em maré baixa”, Gardner acertou no palpite: o Crato viria a ser conhecido como uma cidade próspera e de gente civilizada e religiosa.

Os historiadores do Instituto Cultural do Cariri – ICC conseguiram localizar o dia e o lugar exatos em que a maré subiu: 03 de maio de 1817. Nesse dia, José Martiniano de Alencar proclamou, do púlpito da Sé Catedral, a independência e a república, inserindo a participação de cratenses na Revolução Pernambucana, consequentemente criando mártires e marcando o começo de uma série de eventos que criariam uma aura em volta da naturalidade cratense. O ICC surge em 1953 relembrando essas datas e os heróis a serem cultuados. Inclusive denominando aquele episódio como a “Revolução Caririense” e até como a “Revolução Cratense”.

Sobre os anos que se seguiram depois que Gardner, o europeu indelicado, foi embora, Irineu Pinheiro, historiador, escritor e jornalista cratense justificou: “Progredimos, sem dúvida, na esfera moral, intelectual e física. Maior será nosso adiantamento de hoje em diante, porque à proporção que os dias passarem, mais célebre e enérgico será, também, o impulso que nos arrebatará sempre para frente”. O trecho do livro “Cidade do Crato”, escrito em parceria com J. Figueiredo Filho, é só uma gota no oceano de exaltações que fazem parte de todas as obras e revistas lançadas por meio do ICC, resgatando a identidade inventada a partir do século XIX, quando acontecimentos convergiram para fazer o Crato ser conhecido como o berço da cultura – local onde a elite intelectual letrada se fazia influente na política nacional.

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Foi como uma belle époque, só que melhor. Em 17 de outubro de 1853, o Crato é elevado à categoria de cidade e, dois anos depois, surge O Araripe, o primeiro jornal do interior da Província do Ceará, fundado por João Brígido, autor do primeiro livro sobre a história do Cariri, em 1861. Em 1875 é a vez do Seminário São José ser construído e trazer o título de centro formador educacional e religioso da região, status reforçado em 1914, quando a cidade é elevada a Diocese, tendo em Dom Quintino o seu primeiro bispo. A primeira Exposição Centro-Nordestina de Animais e Produtos Derivados (atualmente a Expocrato) em 1944 e a criação da Faculdade de Filosofia do Crato (a URCA de hoje), a primeira do interior, em 1960, aumentaram ainda mais o conceito de pioneirismo e avanço que a cidade reivindicava.

“Os cratenses acreditam tanto que o Crato é a capital da cultura, que chega a ser verdade”, diz Carlos Rafael Dias, coordenador do curso de História da URCA. Em sua dissertação de mestrado, “Da flor da terra aos guerreiros cariris: representações e identidades do cariri cearense (1855-1980)”, o professor Carlos afirma que “a construção representacional do ‘Crato, Cidade da Cultura’ contou, em determinados momentos, com estratégias bem elaboradas, planejadas de forma deliberada”. “O Cariri é uma região inventada. Eu coloco, na dissertação, que esse conceito é uma invenção, uma representação que foi inserida ao longo de muito tempo na cabeça dos cratenses e muita gente ainda acredita. E até briga por isso”, ele diz.

Coincidência ou não, o discurso de superioridade e as estratégias de fazer o Crato tornar-se conhecido como a “Cidade da Cultura” sucederam-se em uma época em que essa idealização se fazia necessária, pois na década de 50 veio à baila mais uma vez a pauta que assombrava a Assembleia Legislativa do Ceará há um século e meio: a proposta de criação do estado do Cariri. Por vezes seguidas, o projeto da Província do Cariri Novo tentou convencer sua razão de existir e, lógico, ter o Crato como sua capital: em 1828, 1839, 1846 e depois em 1957, fracassando em todas elas e indo parar na gaveta.

Os milagres que mexeram com as estruturas da igreja de 1889 a 1891 podem ter sido o começo de uma briga de vizinhos que durou por muito tempo. O clero cratense, além de não se comover com os supostos milagres, também já tinha seu ícone religioso no Frei Carlos, fundador da Missão do Miranda, o aldeamento indígena que foi o embrião do Crato. Assim, onde Padre Cícero via homens e mulheres de fé em busca de perdão, os religiosos cratenses viam uma escória de degenerados e fanáticos religiosos.

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“O Crato representaria esse espaço onde os costumes seriam mais refinados e o Juazeiro, através do movimento religioso, representava o oposto, seria um centro da barbárie porque ali estava o fanatismo e então se cria um chamado ‘imaginário do terror”, explica Rafael. “Foi incutido na população, principalmente na população cratense, de que o Juazeiro era um perigo para esses valores civilizados do Crato, já que o grosso da população do Juazeiro era formado por pessoas ignorantes e incultas, além de marginais e degenerados”.

Carlos Rafael conta que os devotos de Padre Cícero eram considerados “ignorantes, marginais e até mesmo cúmplices do crime e da desordem” e que o processo de emancipação do Juazeiro, que até 1911 era um distrito do Crato, distanciou ainda mais os moradores das duas cidades. Como se não bastasse o risco que representava ao seu projeto civilizador, o desmembramento determinava o fim do recebimento de impostos que eram pagos pelo centro comercial já em desenvolvimento no começo do século XX e importante provedor de renda para o Crato, tendo, inclusive, O Rebate, jornal que circulou de 1909 a 1911 em Juazeiro, estimulando os contribuintes a pararem de pagar seus tributos. O auge da rixa se deu em 1914, quando romeiros, ex-jagunços e ex-cangaceiros invadiram o Crato na Sedição de Juazeiro.

O professor Carlos diz não se incomodar com o barulho do paredão tocando forró eletrônico, nem morrer de amores pela dita cultura popular. “Para mim não importa se essas invenções são corretas ou se são erradas, se são legítimas ou se são falsas. É importante que haja reinvenção porque hoje em dia existem outras representações”. Para ele, da mesma forma que o Padre Cícero planejou o Juazeiro para ser a cidade da fé e do trabalho, também foi planejado que o Crato se tornasse conhecido como a cidade da cultura, da intelectualidade e, quem sabe, a capital do Cariri.

Sobre a proposta de criação da Província do Cariri enviada ao Governo em 10 de junho de 1828 e que tornaria o Crato em uma capital, Irineu Pinheiro lamentou: “muito mais teríamos progredido”.Falecido em 1954, um ano após a criação do Instituto Cultural do Cariri, Irineu não chegou a ver o projeto ganhar corpo novamente em 1957. Até hoje ainda se ouve aqui e ali o burburinho de que corre pelos corredores das câmaras municipais até de cidades do sertão pernambucano mais uma tentativa de separar o Cariri do Ceará e criar um novo estado. Como na profecia que George Gardner soltou antes de ir embora, Irineu deixou também um presságio. “Virá, amanhã ou depois, o momento propício”.

Fotos: Acervo Fotográfico Crato Antigo

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REPORTAGEM PUBLICADA NA EDIÇÃO #16 DA CARIRI REVISTA, EM JUNHO DE 2014

 

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