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Sementes Crioulas como fonte de conhecimento e soberania

Por Redação Cariri • 22 de fevereiro de 2019

Por Alexandre Pires.

Sementes crioulas é uma denominação geral para todas as sementes que são cultivadas e armazenadas por agricultores e agricultoras familiares, camponeses e camponesas, indígenas, e diversos outros povos tradicionais. Ao longo dos milhares de anos em que a agricultura foi se desenvolvendo, as sementes também foram sendo usadas, selecionadas, melhoradas e armazenadas, por vários povos e comunidades rurais ao redor da Terra.

Em um planeta, onde mais de 820 milhões de pessoas passam fome, o domínio sobre a propriedade da terra, das fontes de água e das sementes é sinônimo de poder. E é exatamente no entorno desses bens comuns, que se protagoniza a maioria dos conflitos existentes no campo. No entanto, quero dar aqui um destaque especial para a importância e papel das sementes crioulas, que estão sob a gestão de milhares de agricultores, agricultoras e comunidades tradicionais, que diferente das seis principais empresas multinacionais que controlam o mercado de sementes no mundo, constroem uma verdadeira rede de troca de sementes e saberes sobre esse patrimônio da humanidade.

Exposição de sementes crioulas, no VI Econtros de Agricultores e Agricultoras do Semiárido, realizado em Juazeiro do Norte em fevereiro de 2019. (Foto: Márcio Silvestre)

No Semiárido brasileiro, em função do contexto de estiagens anuais e prolongadas, agricultores e agricultoras construíram importantes estratégias para sua produção e reprodução social, entre elas a cultura de estocar. Estocar ou guardar na abundância para o uso na escassez. Assim, desenvolveram várias técnicas para coleta, seleção e armazenamento de sementes, muitas delas são originárias de seus antepassados, que por décadas foram incorporando em seu DNA características próprias de adaptação, resistência e resiliência ao contexto climático do Semiárido.

São práticas de armazenamento das mais diversas variedades de sementes de milho, feijão, fava, melancia, abóbora, jerimum, arroz, entre outras centenas, em garrafas, tonéis, silos ou “paióis”, técnicas simples, eficientes e recheadas de simbolismos, que protegem as sementes de pragas, ajudando na conservação e manutenção de sua capacidade de germinação. Elas são guardadas em casas, lugares da intimidade como os quartos de dormir, ou acima da meia-paredes, distantes da frieza dos pisos sertanejos. Através do Programa Sementes do Semiárido, articulado pela ASA, algumas delas são guardadas em casas comunitárias.

Existe também a prática de se estocar sementes animais, perspectiva que muitas vezes passa despercebida, que em definição simplificada, significa selecionar os animais que melhor se desenvolvem e produzem para permanecer e dar continuidade ao rebanho. Ao longo de gerações, esses animais vão incorporando características de resistência e adaptação ao clima e as condições ambientais do lugar.

As práticas de conservação das sementes crioulas, são fonte de riqueza biológica nas mãos dos povos do campo, promovendo sustentabilidade, equilíbrio ambiental, diversidade biológica na agricultura e a soberania dos povos sobre sua alimentação e seus saberes. Mesmo com muitas dificuldades impostas pela força do agronegócio, essas práticas impedem o avanço das sementes transgênicas, que fazem parte de um projeto econômico e de dominação para homogeneizar nossa alimentação, destruindo hábitos e culturas alimentares seculares.

Para aqueles que não produzem seu próprio alimento, como eu, mas que reconhecem a importância da soberania dos povos sobre sua cultura e seu direito à alimentação saudável, é urgente apoiarmos os agricultores com suas práticas, desde uma comunidade rural do Cariri cearense no Semiárido brasileiro ao belíssimo trabalho desenvolvido por professores e jovens camponeses da Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul. Defendamos as sementes crioulas, as sementes locais, como Patrimônio da Humanidade!

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Esta é uma coluna de opinião. As informações e ideias expressas neste espaço são de responsabilidade única do autor.
Alexandre Henrique Bezerra Pires é coordenador do Centro Sabiá e integrante da coordenação executiva da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA).

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