Arte e Cultura

SE CUIDAR PARA RESISTIR – a importância da saúde sexual para mulheres lésbicas

Por Redação Cariri • 29 de agosto de 2019

Por Ravena Monte

É verdade que, de dez meses pra cá, a palavra “resistência” tem permeado as rodas de conversa e redes sociais das pessoas que estiveram ao lado da democracia de forma mais presente, por um motivo um tanto quanto óbvio. Essa palavra soa como um acalanto, ainda seguida do complemento “ninguém solta a mão de ninguém”, que poderiam estar relacionados a uma grande ciranda dançada no Cariri, durante a Mostra Sesc. Porém, sabemos que ela traz mais peso quando se pensa em fortalecer uma engrenagem de sobrevivência, onde todes devem permanecer aqui, firmes e vives, pois viver é uma forma de resistir e para (sobre)viver, precisamos nos cuidar.

Antes de tudo, precisamos entender que o sexo entre mulheres é tão prazeroso e passível de se transmitir infecções quanto com o outro gênero. Várias pesquisas apontam que as mulheres lésbicas são mais satisfeitas sexualmente do que as mulheres heterossexuais e muito desses índices se dá pela predisposição das mulheres em entenderem e respeitarem o corpo e as limitações de suas companheiras. Logo, esse texto vai tratar o assunto fora da visão falocêntrica-heteronormativa-machista-homofóbica-patriarcal de que sexo se dá apenas entre homem e mulher.

Mas não estou aqui para falar sobre o quanto as mulheres lésbicas gozam mais do que as héteros, e sim para falar de um assunto muito mais invisível e pertinente: a importância da saúde sexual da mulher lésbica e/ou bissexual.

Desinformação e despreparo no sistema de saúde

Trazendo esse viver-resistir para o mês da visibilidade lésbica, faço uma observação no que tange à vulnerabilidade da saúde sexual de mulheres lésbicas e/ou bissexuais ou mulheres que têm ou já mantiveram alguma relação sexual com outra mulher e que não se encaixam em nenhuma sigla.

Manter relações sexuais com outras mulheres não nos exime da responsabilidade e cuidados que devemos ter para conosco e com a(s) parceira(s). Cuidados básicos como manter as unhas cortadas/serradas ou sempre limpas, manter periodicamente uma higiene bucal em casos de sexo oral, evitar compartilhamento de acessórios eróticos ou utilizar preservativo novo sempre que dividi-los garantem o mínimo para um sexo com menos riscos de infecções, mas não 100% seguro.

Além de dados defasados ou pouco divulgados, as pesquisas¹ e políticas públicas voltadas para nós mostram que ainda tem muito o que melhorar e exigir dos nossos representantes para que tenhamos direito à saúde com um atendimento eficaz, preventivo e gratuito, garantidos pelo artigo 196, da Constituição Federal.

Mas nem sempre essa segurança é garantida, tanto pelo fato de não haver métodos preventivos apropriados para esse tipo de relação sexual, tendo que recorrer a métodos adaptáveis, como pela ideia de que lésbicas/bissexuais não “pegam doenças”, ideia essa que está no imaginário social e que influencia diretamente no atendimento
dos profissionais de saúde das lésbicas e bissexuais.

Em 2009, na Revista de Saúde Coletiva, o professor da Universidade Federal Fluminense, G. Almeida afirmou que até a década de 1990, no Brasil – a possibilidade de infecção do “corpo lésbico” foi pouco cogitada na cena pública da Aids (na política de saúde e no repertório do próprio movimento homossexual). Esta invisibilidade também teve estreita relação com a forma como foi pensada a propagação do vírus pela epidemiologia: pautada na ideia da necessidade de partilha de fluidos corporais – a ausência de penetração e de contato com fluidos corporais fariam do “corpo lésbico” um corpo infenso à infecção por HIV, em sentido inversamente proporcional ao “corpo gay”, que foi alçado ao epicentro da epidemia.

O fato de ginecologistas não reconhecerem as práticas sexuais lésbicas como fator de risco, colabora e atenua os argumentos falocêntricos, alegando que nesse ato sexual, como não é identificada uma penetração peniana, as incidências de IST’s são menores ou inexistentes. É preciso saber questionar à paciente e entender a diferença entre orientação sexual e prática sexual.

Acredito ser por esse despreparo da equipe médica, não só na ginecologia, mas em outras especialidades, que a comunidade lésbica evita as visitas regulares à clínicas e hospitais pois além de não haver amparo, ainda há atitudes homofóbicas e violentas. Temos aqui, pelo menos, dois pontos que devem ser melhorados no atendimento da saúde da mulher lésbica e bissexual: despreparo dos profissionais de saúde e a negação da existência de transmissão das IST’s nas relações entre mulheres. Outra abordagem ginecológica comum é do profissional considerar que, por não ter tido penetração peniana, a mulher consultada é considerada “virgem”, ou seja, nunca teve relação sexual.

 

Almeida completa que a maioria dos ginecologistas teria dificuldade de proporcionar um ambiente adequado à revelação dos comportamentos sexuais, bem como uma escuta capaz de proporcionar o resgate da história pessoal de suas pacientes, sobretudo sem a manifestação de julgamentos morais. O questionamento, portanto, é da atitude médica, notadamente da anamnese. Por isso precisa ser criada outra forma de anamnese com perguntas mais abertas, que permitiria ao médico perceber as diferenças e adaptar tratamentos e discurso às especificidades da paciente.

Lésbica prevenida é uma delícia

Os números de mulheres lésbicas que contraem IST’s são assustadoramente altos, principalmente o HPV (câncer no colo do útero). Realizar anualmente o exame Papanicolau, ou exame de prevenção, é a primeira conscientização que sugiro para as lésbicas que ainda hesitam ou não julguem necessário fazer, principalmente as que performam a masculinidade, as popularmente conhecidas como “caminhoneiras”. Para essas meu apelo é maior, pois são tão vítimas da sociedade machista e patriarcal quanto o homem cis hétero.

O amor em dias de luta e em dias de glória! Madá Arteira e Verônica Isidório, em 2019 comemoram dez anos de união. Foto: Arquivo Pessoal.

Realizar periodicamente exames de sorologia ou após ato sexual sem proteção, também é o mais indicado. Não tenhamos medo do resultado. Façamos exames constantemente, seja para prevenir ou para remediar.

Não existem barreiras protetivas para lésbicas

O fato de possuirmos pouca visibilidade sobre a saúde sexual da população lésbica e bissexual, as indústrias de produtos protetivos estão longe de resolverem essa deficiência do mercado. O que se há de fazer são adaptações dos produtos que já existem, sejam da área sexual, como preservativos masculinos e femininos, sejam nas áreas de saúde, como luvas de látex, dedeiras, usadas por fonoaudiólogos, adaptáveis para camisinha de dedo e dental dam, usado em consultórios odontológicos, adaptáveis para o sexo oral. Essas adaptações não garantem total eficiência e ainda geram um desconforto, reduzindo ainda mais a adesão às práticas de prevenção.

Relacionamentos estáveis também precisam manter cuidados, tanto preventivos como de higiene básica. Lavar mãos, boca e genital antes e depois da relação sexual é importante não só para prevenir as IST’s, mas também para a saúde do corpo, da flora e pH vaginal.

Lembrem também de manter o diálogo sempre aberto com sua(s) parceira(s) sobre possíveis relações que possam surgir, com consentimento ou não, com outras pessoas. Informar sobre seus atos pode ser considerado, por algumas, uma forma de cuidado para com a outra, uma demonstração de lealdade. Não sejamos egoístas e inconsequentes.

“Mulheres, precisamos estar bem de saúde!”

Precisamos nos cuidar, seja física ou mentalmente, porque precisamos viver e incomodar muito, até essa lgbtqifobia deixar de existir. Precisamos de todas saudáveis e vivas! Se informem sobre os coletivos de mulheres de sua cidade/região. Se unam às lutas das mulheres, sejam lésbicas, bis, héteros, trans, cis, o que importa é lutar contra toda e qualquer forma de invisibilidade. Não vão calar nossas vozes. Não vão prender nossos corpos. Não vamos voltar para o armário!

Meninas, vejam mais filmes de sapatão, leiam mais livros de sapatão, sigam blogueiras, poetisas, ilustradoras, fotógrafas, incentivem, representem o cotidiano sapatônico, aquele sem dor, sem medos, sem pudor, aquele onde tem beleza e muito, mas muito amor.

¹ - Ver os documentos Dossiê da Saúde das Mulheres Lésbicas (2006) e Relatório da Oficina “Atenção Integral à Saúde de Mulheres Lésbicas e Bissexuais” (2014).
Sobre a Autora

Ravena Monte é graduada em Letras pela Universidade Regional do Cariri – URCA, com pesquisa na produção feminina no Projeto Performance Poética (SESC). É integrante do coletivo de mulheres poetas “Xanas recitam Xanas”, visibilizando suas poesias com temática lésbica. Atualmente atua como Produtora Cultural do Centro Cultural Belchior – A casa de praia da música, equipamento gerido pelo Instituto Cultural Iracema, na cidade de Fortaleza-CE.

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Estou aberta à críticas construtivas de outras lésbicas e/ou estudiosas do assunto que tenham identificado qualquer informação desatualizada ou equivocada de minha parte. Esse artigo é apenas uma crítica ao descaso da saúde sexual que nós lésbicas enfrentamos.

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