Arte e Cultura

Sangue, fé e três toneladas de tradição

Por Redação Cariri • 7 de junho de 2019

Por Roger Pires
Fotos: Rafael Vilarouca

Nitidamente extasiados. A fé em sua potência máxima concentrada em cerca de 100 corpos alcoolizados, masculinos e coloridos com os tons da terra. 2.800 quilos numa estimativa não exatamente precisa. Os carregadores arredondam para três toneladas. Alguns populares, baseados na média geral, falam em duas toneladas e meia. O comprimento beira os 22 metros de um tronco de jacarandá levemente torto e com uma extremidade bem grossa e outra mais fina.

Lá da frente, uma voz capta o momento certo e convoca o início do percurso de 6 km. A informação passa por todos até chegar lá atrás, onde oito homens seguram cordas amarradas na extremidade mais fina do tronco para dar apoio. O pau é suspenso com a força dos homens pela primeira vez antes das 10h da manhã e dali pra frente há intervalos apenas quando o limite físico do coletivo é extrapolado e a gravidade leva a madeira ao chão livremente.

Questionar qual a razão do carregamento do Pau da Bandeira, símbolo oficial dos festejos de Santo Antônio, não tem sentido quando se percebe que é a religiosidade que fundamenta essa tradição. Todos os anos, em Barbalha, desde 1928, junho é um mês especial e a crença que vem das igrejas toma a cidade e atrai visitantes da região, do Brasil e do mundo. Conhecido como o santo casamenteiro, o homenageado atrai mulheres solteiras em busca de um marido, mas também festeiros a fim de diversão.

Após uma manhã de muito suor e cachaça, oferecida pelo “vigário”, os carregadores superam o terreno irregular entre o sítio em que estava o pau e a pista. Se a caminhada fica mais fácil, os curiosos em torno da apoteótica ação podem atrapalhar. Moças ansiosas para tocar na madeira ou até tirar uma lasca, rapazes que querem testar a força e turistas com câmeras fotográficas em punho.

OS COADJUVANTES
Para as mulheres, os carregadores são simpáticos, arrumam espaço para que sentem. Mas para o cidadão que chega perto a fim de carregar o pau – apenas para sair dizendo que o fez –, nenhum sorriso ou simpatia. Para as fotografias, um comportamento semelhante ao pescador que mostra o peixe enorme que acabara de fisgar.

Nesse momento, escrevendo sobre os “rapazes aproveitadores”, confesso que, enquanto repórter, pensei na possibilidade de acompanhar o trajeto e até ajudar a carregar o pau. Mas logo percebi que eu não teria saúde e, talvez, na metade do caminho já não tivesse energia e lucidez suficiente para acompanhar nem andando o restante do trajeto. Resguardei-me ao posicionamento de observador, mas bem próximo aos carregadores, tentando ouvir os resmungos, ver de perto as caras feias e também a resistência deles.

“Faz 17 anos que eu carrego. Aqui é uma tradição e não é qualquer um que chega e vai carregar. Precisamos ter confiança um no outro, e uma pessoa nova ou de fora não deixa a gente seguro. É preciso ter uma habilidade que nós vamos conquistando com o tempo”, fala rapidamente e ofegante o educador físico Bruno Filgueira, de 29 anos. Ele acabara de abandonar o grupo por alguns momentos, pois não estava concordando com a “tática” adotada. Explicou tecnicamente o motivo, mas admito que não compreendi – como alguém que não sabe as regras de algum esporte.

FORRÓ CONCENTRADO

Se pela manhã acontece o desfile de diversos grupos culturais locais, durante a tarde uma das principais ruas da festa, a rua do Vidéo, se torna o lugar da farra. As pessoas bebem e dançam forró em frente às casas dos familiares e amigos, mas sempre informados sobre o percurso do pau, aguardado com certa ansiedade.

Barbalha está lotada e é difícil sair ou entrar da cidade nesse horário. São caririenses que voltam à cidade para o evento tradicional, pessoas que estão aproveitando para passar o final de semana no Cariri e os próprios moradores locais, que passam um período de agitação incomum na pacata e residencial cidade dos verdes canaviais.

Foto: Rafael Vilarouca

Foto: Rafael Vilarouca

RETA FINAL

Pouco antes das 21h, o carro de som que vem à frente do pau da Bandeira já pode ser ouvido. Um locutor anima os carregadores com palavras de incentivo e contagiando o público. Este ano um problema atrapalhou bastante. Na parte mais grossa do tronco, que segue na frente, a sequência de quedas, que acontecem quando os carregadores se cansam ou quando o movimento é sinuoso, acabou criando uma rachadura no pau, tornando o carregamento perigoso.

Algumas tentativas de contornar a situação deram sobrevida ao carregamento, mas a solução era mesmo arrastar o pau. Já próximo ao destino final, os carregadores passarm a puxar e empurrar a madeira. Os presentes aplaudem, pois têm consciência do esforço feito “longe dos holofotes” durante todo o dia.

Quando liberados, os carregadores sentem uma espécie de alívio e orgulho. Tiram fotos com as pessoas, comemoram entre si com as frequentes simulações de brigas – que assustam no começo e causam risadas no final – e aguardam o ápice do hasteamento do pau, que ficará em frente à Igreja da Matriz por quase um ano inteiro. As marcas do sol e as dores físicas só devem ser sentidas na segunda-feira, já que cachaça não falta no show musical que acontece mais tarde.

No começo do percurso, um homem sofreu um acidente e foi levado de carro para o hospital. Poucos ali o conheciam e não souberam dizer o nome para acompanhamento do quadro clínico do rapaz.

Matéria originalmente publicada na CARIRI Revista #7

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