Arte e Cultura

Samuel Wagner, o Ás de Juazeiro do Norte

Por Redação Cariri • 18 de fevereiro de 2019

Por Roberto Junior

Samuel Wagner Marques de Almeida nasceu em 7 de setembro de 1945, na ainda pacata Juazeiro do Norte, filho de José Marques da Silva e Maria Almeida Marques. Desde tenra idade, Samuel tinha duas paixões, aviação e rádio. Junto dos irmãos brincava de radialista: lia as notícias dos periódicos da região e, munido de discos de 78rpm, embalava os ouvintes de sua estação. Aos pais, dizia que iria ser piloto da aeronáutica, afirmação que preocupava a mãe, receosa do ingresso do filho na carreira militar.

De nada adiantou o receio. Samuel tinha verdadeira fascinação pela Força Aérea, tanto que sentia-se muito bem no traje de gala do Colégio Salesiano — onde concluiu seus estudos ginasiais —, que lembrava muito os trajes oficiais da Aeronáutica. Sua brilhante carreira começou na Fortaleza de 1963, onde cursou um pré-vestibular específico para aspirantes às Forças Armadas. Foram meses de muita aplicação nos estudos até o jovem seguir para Barbacena, em Minas Gerais, onde está situada a Escola Preparatória de Cadetes do Ar. Lá viveu os primeiros momentos da carreira militar e aprendeu os fundamentos da Aeronáutica. Ainda moço, Samuel Wagner passou por bases aéreas de todo o Brasil. Em 1970, recebeu o espadim de aviador em Campos Afonsos, um dos principais locais de pre- paração da Força Aérea.

A ascensão profissional do primeiro aviador de Juazeiro do Norte coincidiu com a fase de construção da rodovia Transamazônica e a construção de aeroportos na Amazônia. Nesse cenário, executou suas principais missões de transporte, patrulha e de outras naturezas. Rapidamente acumulou horas de voo e prestígio para galgar o posto de 2° Tenente, em 1970, alguns meses após sua formatura.

Sua carreira, no entanto, seria interrompida na manhã de 18 de setembro de 1974. Pontualmente às 7 horas daquele dia, decolaram de Ponta Porã a Campo Grande (MS) o comandante, José Hélio de Macedo, e o copiloto, Samuel Wagner de Almeida, transportando generais, chefes da inteligência militar e oficiais de diferentes patentes, na aeronave C-115 Búfalo. Menos de 30 minutos após a decolagem, Samuel Wagner informou retorno ao operador de rádio da base aérea devido mau tempo. Foi a última vez que a voz do aviador juazeirense seria captada.

Os serviços de investigação da época apontaram que teria havido desorientação espacial. Até hoje, tudo está envolto em mistério. O fato é que após passar a cabeceira da pista o avião colidiu com várias árvores, postes e uma caixa d’água. Os motores General Eletric “urraram” em sua potência máxima, despejando seus 3.000SHP, em uma tentativa desesperada da tripulação de recuperar altitude e evitar danos maiores. Foi em vão. A primeira explosão ocorreu ainda no ar, e segundos depois aconteceu o choque fatal contra o solo, que quase atingiu uma igreja usada como escola infantil.

Samuel Wagner Marques de Almeida havia completado 29 anos quando morreu. Deixou uma filha ainda nos primeiros anos de vida, esposa enlutada, família, amigos e uma promoção para capitão encaminhada desde 1972, quando se tornou primeiro-tenente, o que viria post mortem. Ele jamais realizaria o sonho de se aposentar e fundar uma rádio em sua terra natal, Juazeiro do Norte.

Sua morte, envolta em mistérios, é sentida por muitos ainda hoje. Teorias diversas foram criadas, alimentadas pelo bastante vago laudo de acidente, concluído em tempo recorde, como se às pressas. Outra fonte seria o interesse nos ocupantes da aeronave, em sua maioria “gente graúda” das forças armadas. Afinal, eram os anos de chumbo. Até o sepultamento no Cemitério da Quarta Parada, em São Paulo, foi cercado por vigilância militar e acesso restrito.

A notícia sobre tamanha tragédia percorreu o Brasil e deixou Juazeiro atônita. Apesar de morar em São Paulo com a família, o jovem aviador retornava frequentemente à cidade natal, e suas visitas eram um verdadeiro acontecimento. Foi referência e inspiração para muitos, devido ao seu pioneirismo. Era comum que meninos aspirantes a aviadores procurassem o piloto para ouvir seus conselhos sobre a carreira.

Mais de 40 anos depois de sua morte, o legado de Samuel Wagner continua. Seja em homenagens — como o monumento no Mato Grosso, o batismo de uma praça em frente ao Aeroporto Regional do Cariri, em Juazeiro do Norte, ou a mais recente honraria em execução, que conta com a carcaça de um jato da Força Aérea Brasileira suspenso junto de uma placa em memória do primeiro oficial aviador desta cidade —, seja inspirando pessoas como eu a ter curiosidade sobre o assunto.

 

Cadete do ar: Samuel Wagner foi o primeiro oficial da Aeronáutica filho de Juazeiro do Norte. Até hoje seu nome inspira jovens sonhadores (Foto: Acervo da família Wagner).

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* Agradecimentos a Renato Casimiro, Raimundo Tadeu e ao casal Daniel Walker e Tereza Neuma, que me receberam em suas casas e dedicaram boa parte de seu tempo a me contar a história de Samuel.

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