Arte e Cultura

Rgs

Por Redação Cariri • 3 de abril de 2020

Por Diogo Mendes

1999. O protótipo incomoda meus dentes. Evitava lidar com a ideia do futuro aparelho extrabucal, vulgarizado freio de burro, bastava o início do tratamento. Meninos de um lado, meninas do outro. Eu sempre era o último da fila. Não tinha apelido, porque temiam meu tamanho. Perdemos um dia de “capela”, uma aula doutrinária em um Brasil laico.

Saímos da sala, queria estar jogando queimada ou enfurnado na biblioteca, naquele tempo ainda não lia, apenas gostava de estar no meio dos livros. O improvável silêncio das intocáveis bibliotecas escolares. Sem ruídos, demorei mais de vinte anos para aceitar a quietude. Para chegar no lugar destinado, tínhamos que atravessar outros setores da escola que sempre estava em reforma.

Meninos de um lado, meninas de outro. Nunca juntos. Lembro das chuteiras dos meninos de cores masculinas. Das pressinhas das meninas de cores femininas. Eu novinho já achava tudo isso um tédio. O uniforme que nós usávamos carregava uma mãozinha em chamas. Todo mundo de azul tiffany, pelo menos um pouco de igualdade.

A criançada ia andando em fila indiana, na semana já tínhamos cantado o hino nacional. Tinha uma professora de ciências que repetidas vezes chorava na “Pátria amada, Brasil” da letra de Joaquim Osório Duque Estrada e composição de Francisco Manuel da Silva. Será que ainda lacrimeja?

De modo frequente, a escada demorava para chegar no grande espaço que eram realizadas doutrinações, com degraus vermelho-encerado, chamados mesmo de vermelhão. Íamos subindo, primeiro os meninos, ou seja os homens; segundo as meninas, ou seja as mulheres. Os últimos das filas pegavam os piores lugares, dessa vez foi diferente.

Posição privilegiada, de repente tive ao observar as crianças fazendo seu primeiro rg. E fiquei um pouco desabituado. Eu não sabia o que significava na época registro geral. Rolava um boato que seria um ingresso pra gente entrar no céu, após entendi toda a mentirada.

Gel na cabeça para esconder meu cabelo duro. Fechar o máximo possível os lábios para esconder meus dentes. Esperei todo esse tempo para ouvir dos técnicos de fotografia do governo paranaense, que minha foto não podia ser assim. Pouco assemelhava com aqueles do começo da fila.

Foto saiu, ou tirada. Eu recebi um monte de números que usei por um tempo, recebendo cadastro da minha brasilidade.

20etantan. Dentes arrumados. Cavanhaque duro à amostra. Não consigo deixar meu cabelo crescer por conta da foliculite, hoje tratada, insone. Qualquer coisa ela acorda como a antidemocracia que espreita em cada esquina. As esquinas estão para ser dobradas. E as dobremos. Precisava atualizar o meu rg, mudei muito daquela foto anterior.

Mais peso, mais cérebro, mais experiência – tolero a desarmonia da vida. Galguei algumas coisas desde crises, burocracias e garrafadas.

Árvores arquejadas em um dos meios do centro de São Paulo, estou no Poupatempo. Passo por algumas ruas que bastante gente já passou, após consegui revistas gratuitas de alguma instituição cultural. As ruas aqui nunca são vazias, como as de Londrina. Me acostumei com isso, algumas vezes gosto – sinto acolhido no coletivo, eis que não seja.

No prédio que recorda de longe tudo menos público, antigos bancos de praça estão instalados. Uma coisa paulistana, perspectivas embaralham. Entro nesse labirinto de corredores, e por momento, lembro daquele garoto retirando o primeiro rg. Agora tenho senhas, sou chamado por um letreiro cujo é uma máquina que te lambe o rosto antes de abocanhar. Uma moça me atende, tendo os traços físicos parecidos com os meus.

Cor interpretativa. Nariz de batata. Cabelo duro. Orelhas grandes. Olhos projetados.

Se muita gente não nos conhecesse iria falar que viemos da mesma família. Digo as informações triviais para provar que sou eu mesmo que estava no sistema. Ela coloca já no computador a minha etnicidade. A pergunta cabal aparece:

– Qual profissão?

Em automático disse “sobrevivente”, devido ao fato de sobreviver a lugares e situações, no sistema brasileiro não existe essa opção. Indiquei um cargo qualquer das minhas várias profissões. A primeira, por comodidade foi “jornalista”, inclusive devido à graduação. Rgs, minha etnia naquele mesmo instante deixou de ser negra e virou branca. Questionei a moça e a supervisão vermelha inutilmente, ficou como o governo esbranquiçado quer. Há brigas que não compensam uma gota de suor em um país que todos soam, poucos na sombra, a maioria de baixo de um brilho tirano. Um serviço que escamoteia quem realmente somos.

Fotos: Reprodução/ Visual Hunt

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Sobre o Autor

Diogo Mendes (1990, Londrina, Paraná, Brasil) poeta, escritor e jornalista. Graduado em Comunicação Social – Jornalismo (2012). Mudou para São Paulo em 2015. Trabalha na área de comunicação. Desde 2018 atualiza o blog de cultura e arte, Pontofervura.

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