Arte e Cultura

Revoada

Por Filipe Pinho • 13 de junho de 2019
Foto: Nelson Quesado

Por Filipe Pinho

Em segredo, o presidente adorava pombas brancas. Quando morreu, seus assessores mais chegados, cientes da tara presidencial, resolveram cobrir os céus com as aves. Infelizmente, contudo, pombas brancas estavam em falta na cidade. Os assistentes, sabidos como o finado chefe, resolveram pintar de branco vinte urubus e soltá-los a uma distância segura para que o povo não notasse a diferença.

Coberta a tumba e disparada toda sorte de balas (inclusive da própria multidão), a revoada de animais foi libertada a duzentos metros das pessoas ali presentes — em grande parte, pais, mães, bebês e babás negras vestidas de branco.

O povo ficou muito encantado quando as supostas pombas se recusaram a deixar o enterro e, em voo atípico, insistiam em planar sobre a tumba do defunto. Para os enlutados apoiadores do ex-presidente, era a consagração divina do governo do cidadão de bem.

A todo instante, pessoas paravam para admirar aquele espetáculo, até que as batidas incansáveis de asas passou ao descompasso e a altitude caiu drasticamente. Já dava pra ver as cores desbotadas das aves.

Os assessores entraram em pânico. A aversão à lucidez — característica de seus apoiadores — não seria suficiente para deixar a farsa passar despercebida. Recorreram, novamente, às lições de seu guru, e tiveram uma excelente segunda ideia: bolaram uma mensagem de WhatsApp.

“Os pombos utilizados no enterro presidencial são escandinavos. Segundo pesquisa de Harvard, pombos escandinavos perdem suas cores na medida em que ficam felizes. Se chegarem à cor preta é porque estão ao lado de Jesus Cristo.”

A mensagem viralizou que foi uma beleza. Alguns se entreolharam menos para questionar do que para buscar apoio. Paulatinamente, o povo pareceu ainda mais encantado: “Louvado seja, meu Deus”, “É a comprovação!”, “E a pesquisa ainda é de Harvard!”.

A queda dos urubus nem de longe decepcionou. As aves eram divinas, e foram alçadas aos céus.

Passadas quase duas décadas do fatídico enterro, restam poucos imbecis no país, e quase nunca são notados na rua. Mas se forem à casa de alguém e se depararem com um urubu empalhado na sala de estar, saiba que ali mora uma família que acredita desde a masturbação de bebês holandeses à teoria terraplanista.

 

 

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Filipe Pinho

Filipe Pinho

Filipe Pinho é advogado, graduando em Psicologia e pós-graduando em Escrita Literária pela UNIFB. É autor de “Últimas Peripécias” (livro que possibilitou a sua participação em duas mesas na FLIP 2018) e “Mirabilia, Contos de Natal”, obra que organizou e publicou em coautoria. Tem no humor e no inusitado suas principais ferramentas interativas, buscando inquietar e desconstruir através da graça.