Arte e Cultura

Retrato Popular

Entre cavalinhos, monóculos e poses, um breve relato sobre as manifestações da fotografia popular no Cariri.
Por Márcio Silvestre • 29 de março de 2019

Por Julio Pedro Riedl.

A fotografia popular está presente na história do Cariri como em poucos lugares do Brasil. Em Juazeiro do Norte, desenvolveram-se técnicas e expressões particulares de fotografia que hoje são peças fundamentais da memória fotográfica brasileira. Trata-se de um cenário com similaridades daqueles vividos em outros centros de peregrinação, como Aparecida do Norte (SP), Canindé de São Francisco (CE) e Bom Jesus de Lapa (BA).

Três expressões representavam em especial a cultura de fotografia na região do Cariri: o lambe-lambe, técnica de fotografia instantânea em que o laboratório de revelação do retrato está integrado na própria câmera; a fotografia de monóculos, onde um suporte de plástico com uma lente é usado para visualizar peque- nos slides; e a fotopintura, uma junção técnica entre fotografia e pintura, onde um artista aplica cores numa ampliação em preto e branco de baixo contraste.

Fé e registro: a história da fotografia popular se mistura com as manifestações religiosas (Foto: Tiago Santana)

Esses tipos de fotografia estavam ligados, principal- mente em terras nordestinas, com práticas religiosas, uma vez que a fotografia popular se mostrava massivamente presente em locais de grande aglomeração, como feiras, passeios públicos e romarias. Nestas últimas, os fotógrafos ambulantes preparavam cenários de baixo custo para construção de fotografias atrativas e divertidas: lonas pintadas à mão que traziam imagens de igrejas famosas ou ainda estátuas de gesso de Nossa Senhora, Padre Cícero ou de Frei Damião. Em cenários não-religiosos, utilizavam elementos como cavalinhos, bois, charretes, aviões e carros para se montar, como também chapéus e roupas para compor o quadro e dar vida às fotografias.

Outro gênero fotográfico marcante da relação com a fé é a fotografia votiva: os fiéis depositam imagens de enfermos e feridos em casas de milagres, com o intuito de agradecer a cura divina ou de fazer pedidos de graças aos santos em favor dos retratados. Mais um fenômeno notável que utiliza da fotografia popular como modo de capturar momentos cruciais de uma biografia, e também o mais curioso, é o da fotografia memento mori, o retrato de uma pessoa morta. Registra-se o defunto já no caixão, rodeado por parentes, como forma de homenageá-lo e preservar uma memória afetiva. A tradição já foi muito presente na região, porém hoje está quase extinta.

EXPRESSÕES DO PASSADO

Não é à toa que o passado é a forma temporal mais comum aos verbos desse texto: com a transição da fotografia análoga para a digital, fotopinturas, monóculos e a fotografia lambe-lambe desaparecem gradativamente do cotidiano caririense. Um marco emblemático para observar o sumiço dos vestígios dessa arte é o fechamento da Casa Gino, principal ponto de encontro entre fotógrafos, fotopintores, vendedores de estampas e aficionados pela fotografia. A loja foi, talvez, o último lugar em todo o Nordeste onde fosse possível adquirir materiais como monóculos e monocões de plástico, câmeras fotográficas e molduras adequadas para o raro formato “meio-quadro”, papéis fotográficos em preto e branco, entre outros objetos.

 

Um outro momento de perda foi a morte de Telma Saraiva, fotopintora e proprietária do mais tradicional estúdio fotográfico do Crato, que não só chegou a retratar a burguesia da cidade, como também deixou em seu espólio uma série de fascinantes autorretratos com fantasias de filmes de Hollywood. Mais sinais de transição são vistos no trabalho de mestre Julio Santos, que dedicou sua vida à fotopinturas, mas atualmente deixou os pincéis e as tintas de lado, trabalhando quase que exclusivamente nas fotopinturas com Photoshop.

REGISTRO DAS MUDANÇAS

Com a mudança dos tempos, a fotografia popular sai da rua, perdendo espaço no cotidiano para os smartphones e suas selfies, ao mesmo tempo em que começa a ganhar destaque em galerias de museus, sendo documentada mais profundamente com o intuito de preservar seu papel e seus atores na memória da identidade cultural e visual do país.

Exemplo deste intuito é o projeto Retrato Popular, do Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar, em Fortaleza, que já criou um acervo documental, exposições, encontros de fotografia e o filme Câmara Viajante, além do surgimento de várias publicações sobre as obras da fotografia popular do Cariri. Entre seus frutos, está o livro fotográfico de coleções e colaborações diversas intitulado Retrato Popular, assinado por Titus Riedl, cujas fotografias ilustram as páginas desta matéria.

Exemplo de fotopintura  restaurada e tratada pelo mestre fortalezense Júlio Santos, um dos últimos no ramo. foto: Acervo Mestre Júlio  / Reprodução.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".