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Relacionamento tóxico e abusivo: a dor maquiada de amor

Por Márcio Silvestre • 25 de outubro de 2019

Crescemos ouvindo histórias que idealizam o amor fatal, aquele que nasce magicamente com uma predisposição para dar certo, almejando o tão sonhado “E viveram felizes para sempre”. No entanto, as relações afetivas no mundo real são muito complexas, amplas e diversas demais para preencher o script de um conto de fadas. Após algumas conversas com amigos e psicólogo percebi a urgência de escrever sobre relacionamento tóxico e abusivo. Um assunto delicado, mas necessário de se provocar discussões, considerando que a maioria das pessoas que vivem esse tipo de relação acabam naturalizando comportamentos destrutivos e ficam presas em um ciclo de dor, aparentemente, interminável.

Em 2003, a cantora Kelly Key lançava o álbum ‘Do Meu Jeito’. Entre as músicas de sucesso está ‘Por causa de você’, que descreve o típico relacionamento abusivo de maneira romantizada. Após abrir mão de tudo, todos e de si mesma a personagem da música leva um “fora” do companheiro e lamenta no refrão chiclete “É, ou não é, pra chorar!?”.  Esse é um drama vivido por muitas pessoas e que pode acontecer não apenas nos relacionamentos hetero ou homoafetivos, mas também em outros vínculos emocionais e sociais.

“A gente nasce e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado”

A célebre frase da romancista cearense Rachel de Queiroz, sintetiza a necessidade humana de se relacionar. Tão importante quanto ter relacionamentos afetivos é mantê-los saudáveis. Ao mergulhar nesse assunto é necessário explicar e diferenciar relacionamento tóxico de abusivo. De acordo com a psicóloga Flávia Jayne, a principal diferença dessas relações está no comportamento do indivíduo tóxico que, geralmente, não tem a intenção de machucar, causar mágoa ou dor ao companheiro, por mais que suas atitudes levem a isso. Enquanto o indivíduo de comportamento abusivo tem a intenção de controle e dominação do outro. Esse comportamento, geralmente, inicia de modo sutil e aos poucos ultrapassa os limites causando sofrimento e mal estar.

A psicóloga Flávia Jayne Costa Lima – CRP 11/14763.

“A pessoa tóxica, geralmente, não percebe suas próprias ações ou condutas. É alguém que esta de mal com a vida, mas que praticamente não tem intenção de ferir ou machucar o outro. Já o abusador sabe muito bem o que está fazendo, calcula seus passos, premedita, é manipulador e na maioria das vezes não tem piedade da vítima. A relação tóxica pode evoluir pra um relacionamento abusivo”, pontua a psicóloga destacando que a relação tóxica é mais centrada no campo psicológico, por exemplo: o indivíduo se sente ameaçado ou desconfortável com o crescimento pessoal do outro e por isso adota comportamento destrutivo. Flávia ressalta, ainda, que esses tipos de relações podem acontecer em vínculos afetivos, amorosos e profissionais.

Boca de Cachorro Louco: “A escrita que me salvou”

Apesar de toda dor e sequelas emocionais deixadas por esse tipo de relação, é necessário quebrar o ciclo de sofrimento e tentar reestruturar a vida. Nesta perspectiva, a escritora e professora cearense, Kah Dantas, publicou em 2016 o livro “Boca de Cachorro Louco”, que apresenta o relato biográfico de um relacionamento abusivo vivido por ela. O processo de escrita do livro ocorreu durante e após o fim do relacionamento e reúne relatos de uma experiência aterrorizante. “O que eu posso dizer desse período da minha vida é que, pela natureza dolorosa dele, o ano que passei nesse relacionamento pareceu uma década. Foi muito intenso, de muito sofrimento, de violência física e psicológica, principalmente psicológica, de recaídas e novas tentativas de ir para longe. Nesse processo, costumo dizer que foi a escrita que me salvou, porque eu tinha muita vergonha de contar às pessoas o que se passava comigo. Por isso, eu escrevia. Era como eu desabafava e dava vazão àquela dor que, se silenciada, implodiria o peito”, relata a escritora.

Kah compara um relacionamento abusivo a uma droga, que causa dano e dependência. “É preciso desintoxicar, se cuidar, tratar a saúde. Eu o amava muito, estava muito apaixonada e, mesmo com os maus tratos, eu não conseguia imaginar a vida sem ele. Era o meu vício, sabidamente ruim para a minha saúde, mas de que eu não conseguia abrir mão. Fui perseguida pela cidade, afastei-me dos meus amigos, quase fui morta por estrangulamento e, só quando as coisas alcançaram esse extremo, é que consegui colocar um ponto final nisso tudo”.

Sair do estágio de negação, identificar se está em um relacionamento tóxico ou abusivo, não é tão simples como pode parecer para quem não está dentro da relação. Por envolver sentimento, as pessoas tendem a naturalizar e em alguns casos reproduzir a violência verbal, física ou psicológica dos parceiros. Segundo Flávia Jayne, o relacionamento abusivo é mascarado de amor. “A pessoa envolvida nesse tipo de relação, tem em mente que esses comportamentos estão relacionados a cuidado. Isso faz com que ela leve um tempo pra entender e perceber que esses comportamentos não são saudáveis”, destaca a psicóloga.

Verbalizar o que sente, procurar ajuda e denunciar qualquer agressão física, são atitudes extremamente necessárias para romper esses ciclos de violência.

Os interessados em conhecer mais sobre a obra Boca de Cachorro Louco, de Kah Dantas, podem entrar em contato através do perfil https://www.instagram.com/contakah/ .

Foto destaque: Alamy.

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Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".