Arte e Cultura

Quando o talento vem do berço

O especial Arte e Cultura de hoje, relembra uma reportagem especial publicada na edição 26 da nossa revista impressa. Abraão Batista é pai de Hamurábi, que é pai de Jarid. Três gerações de talentos caririenses ligados pelo amor à xilogravura e ao cordel.
Por Pedro Philippe • 13 de janeiro de 2020

Abraão Batista tem 81 anos e fala respeitando os plurais e sem cometer erros de concordância. Linguarudo assumido, ele tem uma simpatia surpreendente por trás do semblante sisudo e fala de si na terceira pessoa, como “esse aqui que está conversando com você”, “o poeta” e “o cordelista”. Abraão escreveu seu primeiro cordel só aos 31 anos, um calhamaço popular de 16 páginas intitulado Entrevista de um Repórter de Juazeiro do Norte com os 44 Santos Cassados, uma fantasia criticando a cruzada da Igreja Católica contra o sincretismo religioso, que adapta as divindades cristãs nos altares do candomblé. Apesar de ter debutado na literatura de cordel com questionamentos estranhos à sua época e ao lugar onde mora, Abraão Batista é um católico fervoroso, preza pelas formas e normas e acha que o cordelista não deve fazer “ensinamento ideológico”. O cordel é isso: tradição.

Hamurábi Batista tem 45 anos e está nervoso com a situação política no país. Palavrões estão presentes em seus escritos desde a sua primeira publicação, A Verdadeira História das Falsas Religiões que Lutam Contra a Verdade, porque, segundo ele, não faltam motivos para alguém ser rebelde – da colonização na África à corrupção em Brasília. Anarquista punk na juventude, Hamurábi acha que “a família é a primeira experiência de opressão que uma pessoa passa”, por isso ele se rebelou primeiro em casa, depois na igreja que frequentava, e aí não parou mais. Suas xilogravuras já retrataram cenas de sexo gay e de tortura na ditadura militar. O cordel é isso: subversão.

Jarid Arraes tem 25 anos e mudou-se para São Paulo para ficar mais próxima da redação da Revista Fórum, onde atuava como colunista. Depois de ler Os 500 Anos que Invadiram o Brasil, de autoria do pai, ela aprendeu ainda pequena que as rimas do cordel poderiam ser usadas para falar de injustiças sociais. Para dar sequência à linhagem de Batistas escritores, ela resolveu seguir os caminhos de Abraão e Hamurábi, “com medo da tradição acabar na família”, ela diz, “já que esta geração não se importa tanto com o cordel como antes”. Dora, a Negra Feminista foi o primeiro de mais de 50 cordéis publicados em quatro anos e, desde então, Jarid se dedica a escrever sobre a causa feminista, a presença de mulheres negras na luta pelo fim da segregação racial e o movimento LGBTQI, em um gênero literário reconhecidamente machista, homofóbico e misógino. O cordel é isso: revolução.

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GRAVADO NO DNA

Levando recado da mãe para Inocêncio da Costa, o Noza, Abraão dizia quantos e quais santos ela queria. Romeira da zona da mata pernambucana, Dona Maria José tomava conta da lojinha de artigos religiosos que herdou do marido quando ficou viúva e era Abraão quem ia ao ateliê de Noza esperar o escultor fazer as encomendas da mãe. Ali, observando o talhado na madeira, ele aprendeu ao olhar para as mãos do mais importante dos gravadores da cidade, “pernambucano de Juazeiro do Norte”, como brinca Abraão, porque “depois de chegar aqui e trabalhar por uma semana, você já é juazeirense”. O trabalho na loja o colocou em contato com outros grandes artesãos da primeira metade do século XX no Cariri, como Valderêdo, Zé Cordeiro e Antônio Pintado.

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“Juazeiro do Norte é cordel vivo. Esses cajueiros estão recitando trechos de cordéis todo tempo, os pássaros que vêm me visitar são cordelistas”, Abraão fala como quem verseja de improviso. “Assim como foi Jó e Davi, mas naquele tempo não tinha papel nem imprensa. O Criador fez o homem em versos, com a palavra. Isso é um cordel”. Sua fé se mostra inabalável quando diz que “Padre Cícero era um homem indo e voltando, o maior assistente social que já existiu nesse país. Mas não é santo, porque santo, na minha visão, só Deus”. Fervoroso, Abraão também acredita nos princípios invioláveis da literatura de cordel, que “deve ter métrica, rima, gostosura, sentido, harmonia, ritmo, imaginação. Em outras palavras, tem que ter a cara do povo, o cheiro do povo, a fala do povo”.

Como aluno dos Salesianos, ele fez o catecismo, mas logo aprendeu a duvidar dele – e esta pulga atrás da orelha carregou pela vida, questionando tudo. Quando correu pelo Juazeiro a notícia de que a Lagoa Encantada dos índios kariri brotara em frente à Igreja da Matriz de Nossa Senhora das Dores, Abraão foi lá conferir e, para tristeza dos peregrinos, desmentiu o fato: o hidrocarboneto derretido das velas estava refletindo a luz do sol, fazendo o chão parecer um olho d’água. Formado em Farmácia pela UFC em Fortaleza, Abraão deu aula de Física nas escolas públicas do Crajubar por 32 anos – manhã, tarde e noite – até resolver largar a sala e se dedicar a pôr seus questionamentos no papel e os pensamentos na madeira.

CHOQUE DE GERAÇÕES

Jarid Arraes

“Muitos jovens acham que o cordel pode ser utilizado como um veículo de propaganda, divulgação e ensinamento ideológico, mas não pode ser assim. Se você coloca ideologia no cordel, ele vai ser rejeitado”, Abraão fala, então aponta para Hamurábi e complementa: “No começo ele era rebelde, dizia que o cordel tem que inovar”. Então é interrompido pelo filho: “Mas eu ainda sou rebelde! Eu sou mais rebelde do que no começo”, e os dois acham graça. O primeiro grande ato de rebeldia de Hamurábi contra o tradicionalismo que o pai tanto preza foi com a série Kama Sutra, onde ele falava de amor e sexo entre um homem e uma mulher, dois homens e duas mulheres. Com xilogravuras eróticas em cada página, o trabalho não passou pelo crivo de Abrão, que diz reprovar, mas respeitar.

A xilogravura e o cordel, muitas vezes, limitam mulheres, negros e homossexuais ao lugar do escárnio, da chacota e da piada. Incomodado com isso, Hamurábi faz questão de que suas obras nadem contra a corrente da reprodução dos preconceitos. Nos cordéis A História do Racismo, O Massacre dos índios na Ditadura Militar, o Extermínio dos Índios no Brasil, entre muitos outros, ele usa uma linguagem simples para contar a história da discriminação racial no país e para falar sobre homens fortes na luta negra, como Osvaldão e Zumbi dos Palmares. Na série Nos Porões da Ditadura, ele dedica muitos exemplares às mulheres que são esquecidas quando se fala em militância, e no cordel Ser Gay, Como é Difícil trata de homofobia.

“Ele não era uma pessoa que estudava sobre feminismo e movimento LGBT, mas hoje tá o tempo todo falando sobre essas causas”, Jarid Arraes comenta, lembrando como suas ideias passaram a pautar a obra do pai, “e ele foi uma das pessoas que me influenciou muito a tratar de temáticas sociais no que eu escrevo”. Militante feminista, Jarid percebeu duas coisas: que poucas mulheres se destacam como cordelistas e que a sequência de Batistas no cordel estaria com os dias contados, caso nenhum neto de Abraão pegasse o bastão. “Eu queria que a tradição continuasse, mas de uma forma necessária, com as mudanças necessárias”, ela relembra.

Escrevendo sobre mulheres negras que lutaram pela emancipação e pelos seus direitos, Jarid publicou 15 cordéis biográficos, contando a vida de Anastácia, Tereza de Benguela, entre outras. Em julho passado, ela lançou o livro As Lendas de Dandara, contando a vida da companheira de Zumbi dos Palmares. Quando recebeu o livro da neta, Abraão se encheu de orgulho. “Meu avô hoje consegue coexistir com as coisas”, Jarid conta, “mas ele sempre vai ter dificuldades, claro, porque as pessoas cristalizam muito os valores que elas aprenderam em um passado conservador”. Desde o ano passado, Abraão e Hamurábi viajam juntos a feiras literárias do Pará a Brasília, percorrendo milhares de quilômetros com o carro cheio de xilogravuras e cordéis. Questionado se as longas viagens não o cansam demais, Abraão responde, rindo e caçoando da pergunta: “Oxente! Eu tô véi, né morto, não!”.

 

ANATOMIA DO FREVO
Abraão Batista

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No frevo se manifesta

por completa, a expressão

da alma, a categoria

fazendo manifestação

da foto, frente e verso

corpo, cara e coração.

 

O frevo surgiu da tribo

da oca pernambucana

banhado nos raios de sol,

mamando caldo de cana

com berço na mata virgem

e no agreste bacana.

 

A HISTÓRIA DO COMUNISMO
Hamurábi Batista

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Desde a mais distante história

Da vida em sociedade

Desde quando as pessoas

Passaram em comunidade

A viverem organizadas

O comunismo é verdade.

Elas passaram a viver

Em territórios ocupados

Por tribos, e dentro deles

Os recursos eram usados

E os produtos conseguidos

E por todos compartilhados.

 

Aproveitaram em comum

Os recursos naturais

Pois pertenciam a todos

Para todos ninguém mais

Do indivíduo, as ferramentas

E utensílios pessoais.

 

 

PHOTOSHOP É A MULESTA
Jarid Arraes

Jarid Arraes - Carolina de Marchi

Nessa tal modernidade

De um tudo se inventou

Coisa útil e importante

Que essa vida melhorou

Mas nem tudo é positivo

Como enfim se intentou.

 

Falo do tal Photoshop

Que até pode ser usado

Para fim interessante

Para muito ser criado

Mas acaba distorcido

Sendo então manipulado.

 

É o exemplo das revistas

Ensaios e propagandas

Feitas com mulher bonita

Que nem fosse uma barganha

Vende o produto exibido

Faz do corpo uma façanha.

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Pedro Philippe