Arte e Cultura

Quadrilhas juninas: manifestação artística e expressão popular

Alavantú, anarriê, tô! A gente sabe que o mês de junho costuma ser o mais animado no Nordeste. Nesse ano, não teremos as tradicionais festas juninas por conta da pandemia do novo coronavírus. Mas para matar a saudade relembramos uma matéria especial sobre as quadrilhas juninas do Cariri publicada no nosso portal, em 2019.
Por Redação Cariri • 19 de junho de 2020

Por Márcio Silvestre e Renata Linard. 

Uma explosão de cores e ritmos marcam os festejos juninos no Nordeste brasileiro. Comidas típicas, forró, sanfona e muita dança expressam a alegria do povo nesta grande representação da cultura popular do Brasil, que é o São João. As quadrilhas dão um ar lúdico e contagiante aos concursos e festivais. Com sincronia coreográfica, casamento matuto, luxuosas vestes e enredos ousados, os grupos realizam um verdadeiro show de beleza e autoafirmação nordestina.

Em 2006, alguns adolescentes apaixonados por festas juninas começaram a se mobilizar para apresentações escolares na cidade de Nova Olinda. Até aí, tudo acontecia de acordo com o que se espera para essa época do ano, independentemente do tamanho da cidade. Mas, os jovens foram tomando gosto pela coisa e o movimento se tornou o “Arraiá Danado de Bom”, um espetáculo renomado na região do Cariri e que coleciona apresentações no Ceará e em outros lugares do Nordeste.

Apresentação do Arraiá Danado de Bom, em 2012. Uma das quadrilhas juninas que mais se destacaram no Cariri. Foto: Arquivo Pessoal do Grupo.

Willyam Luxo é um dos idealizadores do Danado de Bom. O estudante de Serviço Social de 27 anos tem quase metade de sua vida dedicada aos festejos juninos. Luxo, como é popularmente conhecido, diz que em todas as apresentações os brincantes da quadrilha se envolvem completamente nas etapas dos preparativos, exceto nas atividades de costura. “O que a gente ainda não consegue fazer é a costura, mas o restante dos adereços, do cenário, de alguma alegoria e de qualquer coisa que possa contribuir com o espetáculo é feita com o grupo”, conta.

A experiência que colecionam nos festejos juninos contribuiu para o amadurecimento do grupo. O quadrilheiro destaca que a vivência somou ao nível de profissionalismo das apresentações e em relação à formação pessoal. Luxo conta que o Arraiá sempre buscou homenagear personalidades marcantes e que os participantes do movimento estudam bastante sobre a importância das festas juninas. “Nós sempre procuramos retratar em nossos temas figuras e personalidades que tenham deixado alguma contribuição significativa para nosso povo, para a nossa terra. Nesse período, a gente pôde estudar mais sobre o movimento junino do interior e de toda a região Nordeste: as culturas, as rotas turísticas, alguns personagens que foram fundamentais para nossa formação enquanto sujeitos de mudança… O que a gente construiu durante esses anos foi um leque de admiradores”, relembra saudoso.

Experiências e lembranças

O brincante conta ainda que o Arraiá Danado de Bom já se apresentou em diversos lugares. O grupo circulou na região centro-sul do estado, Vale do Jaguaribe, Sertão dos Inhamuns, na capital Fortaleza e até em Pernambuco. As adversidades fizeram com que a equipe desistisse algumas vezes, fazendo pausas e retomadas. A última apresentação do Danado de Bom foi em 2016. O quadrilheiro explica que, devido a alguns problemas que o município de Nova Olinda enfrenta atualmente, o grupo ainda não retomou às apresentações.

Ensaio para a última apresentação, em 2016.

A expectativa é de que o Danado de Bom retorne aos festejos juninos em 2020. “Já está com três anos que o Arraiá não se apresenta. Já estamos com ideias em relação à tema, performance e proposta coreográfica para ano que vem retornar às quadras e aos arraiás do Ceará com muita força e muita garra”, comenta otimista.

Atual Campeã Cearense

De Juazeiro do Norte a quadrilha Nação Nordestina brilhou no São João do estado Ceará no ano passado, levando o título de campeã do Concurso Cearense de Quadrilhas Juninas 2018.  Na ocasião, a Nação Nordestina competiu com 31 grupos de todo o Estado e alcançou também a primeira colocação no quesito melhor marcador, para Jhone Barros, coordenador do grupo.

Com a temática “Expresso Sonho Azul” a quadrilha Nação Nordestina se prepara para o São João 2019. Foto: Divulgação.

A quadrilha Nação Nordestina surgiu em 2009, como a materialização do sonho de jovens apaixonados pelo movimento junino, inspirados por outros grupos tradicionais como o Arraiá Danado de Bom, de Nova Olinda. A ideia inicial era experimentar novas ideias conectando as vivências do teatro, da música e do artesanato com os elementos juninos. “O São João para mim representa tudo. Eu posso dizer que a quadrilha Nação Nordestina é minha família. Daria minha vida por essa quadrilha”, destaca o marcador.

Hoje a Nação Nordestina coleciona vários títulos e premiações, mas as dificuldades de manutenção do grupo ainda é o principal desafio para realização e circulação da quadrilha. Uma realidade geral vivenciada no movimento junino, segundo Jhone Barros a preparação e confecção de adereços, cenários e figurinos são muito caras, chegando a R$ 1.200,00 um par de figurinos para um casal.

Quadrilhas juninas: energia contagiante toma conta das apresentações. Foto: Divulgação Nação Nordestina.

Mesmo com as dificuldades, os jovens brincantes continuam a realizar o espetáculo junino que encanta a todos que o assiste. Neste ano, o tema da Nação Nordestina é trem “Expresso Sonho Azul”, que mergulha na memória afetiva do povo cearense entre chegadas e partidas do trem que fazia o percurso do Crato até Fortaleza. O antigo trem de passageiros da linha Sul da RFFSA, conhecido como “Sonho Azul”, operava como transporte de passageiros e cargas diversas, que saíam e chegavam ao Crato diariamente, inclusive em dias de feira.

Às vésperas do São João, chega a notícia: O sonho Azul vai parar!

Convidando o público a embarcar entre canções, danças e encenação numa viagem de sonhos pela máquina que corta o sertão, a Nação Nordestina resgata as memórias de passageiros que vivenciaram o funcionamento do Sonho Azul entre 1965 a 1988. A desativação do trem, causou muitos transtornos porque era no trem que saía a produção do interior. O medo do novo e a constatação de que o trem era o transporte do pobre faz essa história ser inesquecível para muitas pessoas que cruzaram o sertão a bordo dele.

Foto: Divulgação Nação Nordestina.

 

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