Arte e Cultura

Pôr a vida no modo avião

Nossa retrospectiva de hoje é uma reportagem publicada em nosso portal em novembro de 2015, que fala sobre ansiedade e dependência do uso do celular. Boa leitura!
Por Redação Cariri • 7 de fevereiro de 2020

Por Pedro Philippe.

Para muitos, o celular funciona quase como um apêndice do corpo. A dependência atua com o mecanismo semelhante ao uso do cigarro, do álcool e de outras drogas, pois ativa no cérebro áreas responsáveis pela satisfação e prazer, onde a pessoa acaba tendo dificuldades de enxergar os prejuízos causados pelo uso indiscriminado de uma droga ou de uma tecnologia.

“Aos poucos o jovem poderá se afastar dos contatos sociais e passar a viver boa parte do seu tempo em um mundo virtual, desconectando-se em parte da realidade”, explica a psicóloga Yane Ferreira. A princípio, o distanciamento pode trazer conforto, mas, em pouco tempo, torna-se um vício. A psicóloga diz que o assunto é sério. Os profissionais da saúde mental já falam em nomofobia, transtorno que tem características semelhantes às psicopatologias da ansiedade e consiste em um mal-estar, um medo exacerbado de ficar sem o uso do celular e a dependência dessa tecnologia. Para Yane, os jovens estão bastante sujeitos à ansiedade, “principalmente pelo perfil comportamental, a necessidade de realização de muitas coisas ao mesmo tempo e o intenso estímulo pela mídia, da sociedade e o uso de tecnologias”, diz a psicóloga.

De acordo com dados lançados recentemente pela IMS Health do Brasil, a venda de controladores de humor cresceram 11,6% entre setembro de 2014 e o mês passado. Foram 53,3 milhões de caixas vendidas nesses 12 meses.

Há 33 anos trabalhando no atendimento de crianças e jovens, a psicóloga Claudia Couto reforça a importância da busca por uma vida sem desperdícios e sem utilização de muitos recursos. “Vida simples não é uma vida medíocre. É uma vida com essência, integrada ao que realmente nos importa”, explica ela. Claudia conta que cada vez mais estamos “desconectados” da vida com qualidade – e que essa desconexão potencializa a ansiedade.

Dentre os casos de ansiedade mais clinicados por Claudia, está o de ansiedade antecipatória e o de ansiedade generalizada. A primeira, como o próprio nome sugere, atua na preocupação desnecessária. “A pessoa vive um futuro que ainda não chegou, por isso antecipa fatos que não são seus”, esclarece. A segunda ocorre quando a ansiedade já contaminou todo o viver do paciente, gerando medo, insônia, angústia e hiperventilação.

O grande vilão para o aumento do distúrbio, segundo ela, é o uso do celular. Em suas consultas, muitas vezes aconselha o paciente a tentar esquecer do aparelho e sugere que ele desligue o celular por uma tarde ou final de semana. Ela garante que é preciso se desligar e ter coragem para fazer uma mudança radical no estilo de vida. “Precisa-se de busca. Estamos aqui para crescer e temos que pôr um freio no que possa inviabilizar esse crescimento. As construções reais da vida exigem menos pressa”, completa.

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Foto: Carlos Lourenço

UM VENENO ANTIMONOTONIA

Antes de iniciar a conversa, a estudante Luiza Sedrim já avisa que chegou quinze minutos antes do horário marcado. Na mesa, um prato vazio e o celular, que minuto ou outro vibrava. Ela interrompeu a conversa duas vezes para ver de quem era a notificação recebida. Mas só para ver. E depois voltou a prestar atenção na conversa.

O excesso de informação, de trabalho e de pensamentos fazem da rotina um desafio. O estresse, impaciência e angústia guiam os ponteiros do relógio. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), os transtornos mentais atingem 700 milhões de pessoas no mundo – representando 13% da totalidade de todas as doenças – e a ansiedade já acomete outros 10 milhões.

Precoce, Luiza aprendeu a falar aos oito meses e a ler aos três anos de idade. O acesso mais cedo à informação também desencadeou um pensamento acelerado na menina. Aos dez anos ela já possuía uma rotina na frente do computador, entre bate-papo, jogos, filmes e música.

Antes de procurar ajuda através de atendimento psicológico, Luiza passou por um período em que chama de hard. O acúmulo de pensamentos e a fadiga de informações fizeram ela acreditar que estaria com depressão. Os dois distúrbios, apesar de intrínsecos, atuam de formas diferentes. A psicóloga Yane Ferreira explica que a ansiedade não está sempre associada à depressão. “A depressão é um transtorno de humor caracterizado pelo rebaixamento de vários aspectos do funcionamento psíquico do sujeito acometido por esse distúrbio, onde são frequentes sinais e sintomas como melancolia, desânimo, alterações no sono (insônia ou excesso de sono), alterações no apetite e na libido, intenso sofrimento, entre outros”, explica.

PARA EQUILIBRAR

Há muitas outras formas de tratar a ansiedade. Uma delas é através da prática do Tai Chi Chuan. Indo além do esporte, a arte marcial está inteiramente ligada ao pensamento filosófico. O princípio de que não existe bem ou mal já elimina problemas que podem afetar a vida. “O esporte trabalha com a circulação de energia no corpo. Movimentos leves e relaxados para deixá-la fluir”, explica o mestre de Tai Chi e estudante de Música, Davi Renan, da Universidade Federal do Cariri (UFCA). A prática melhora a tensão muscular, a circulação sanguínea, o controle respiratório, o sistema linfático nervoso e a concentração. Como as pessoas ansiosas estão preocupadas com o que pode acontecer a qualquer instante, no Tai Chi elas podem trabalhar o corpo e a mente para manter um equilíbrio entre presente e futuro. “O fluxo de energia livre faz o corpo ficar também”, diz o mestre.

Enquanto muitas artes marciais trabalham com o impacto corporal, o Tai Chi Chuan trabalha com golpes mais suaves. “Você ataca com a concentração de energia, e não só com a força”, explica Davi. A aula dura aproximadamente uma hora e meia: uma hora de atividade prática e trinta minutos de estudos filosóficos sobre o taoísmo e a alquimia chinesa. Com dois meses de prática já é possível desacelerar, mas Davi acredita que três aulas são suficientes para perceber a mudança. “As pessoas dizem que não se reconhecem mais”, pontua ele.

 

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