Crônicas

OS BOBOS DA CORTE

Por Filipe Pinho • 11 de julho de 2019

Um Rei troglodita acabara de assumir o trono. Em pouco menos de dois invernos, tomou de assalto vários reinados, enforcou centenas e encheu a barriga dos seus.

Depois de tanta luta, o rei queria diversão e convocou o povo para esse fim. Mesmo cientes que uma besta alegra-se com dificuldade, sobrou ânimo aos governados quando a corte publicou edital para o preenchimento do novo cargo de bobo da corte; e formou-se uma enorme fila às portas do castelo.

Quase todos os habitantes do reino compareceram. No fim do dia, após acirrada disputa, um sortudo foi escolhido e os demais, frustrados (mas bem alimentados), retornaram às suas vidas medíocres.

Na manhã seguinte, o rei decretou a morte na guilhotina do escolhido bobo da corte. O reinado acabou aplaudindo as razões reais: bobo que não faz rir o Rei não pode ter outro destino. E outra fila se formou em frente ao castelo para o cargo vago do bobo morto.

Nos cem dias que se seguiram, cem decretos foram assinados e cem bobos, degolados. O povo, muito bem alimentado, continuava a bater palmas e fazer filas e fazer festa.

O rei acompanhava as execuções da carruagem, bem ao lado do palco. O som da cabeça quicando na cesta era acompanhada pela sua gargalhada e, ato contínuo, dos seus fiéis com o bucho cheio.

A história não muda muito. Fica nesse eterno escolhe e mata, sem nenhuma lição de moral: apenas bobos mortos e palmas para o Rei.

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Filipe Pinho

Filipe Pinho é advogado, graduando em Psicologia e pós-graduando em Escrita Literária pela UNIFB. É autor de “Últimas Peripécias” (livro que possibilitou a sua participação em duas mesas na FLIP 2018) e “Mirabilia, Contos de Natal”, obra que organizou e publicou em coautoria. Tem no humor e no inusitado suas principais ferramentas interativas, buscando inquietar e desconstruir através da graça.