Arte e Cultura

O entardecer no Quilombo

sob o olhar do sol
Por Redação Cariri • 16 de outubro de 2019

Por João Leandro e Tayronne de Almeida.

Um forte vento irrompe no início da tarde, como que em um espetáculo artístico uma espessa cortina de poeira anuncia o entardecer. Do pátio da escola percebo cotidianamente esse vento forte no mesmo horário. Certa vez perguntei a uma mãe que acabava de chegar para deixar seu filho “É sempre assim?”, ela me respondeu que sim, “todas tarde dá essa ventania, mode o porquê eu não sei”. Os alunos daquele turno chegaram e o fim da conversa ficou para depois, mas a curiosidade eu não deixei para lá…

Já são meio dia e trinta quando o pequeno sino anuncia o início da aula. O pátio está repleto de crianças correndo e brincando, nada de smartphones ou tablets, mas sim pés descalços e muita euforia. Todos se reúnem após o toque para juntos fazermos uma breve oração e em seguida nos dirigirmos para as atividades letivas. Aqui acolá se ouve um choro de criança que ainda não está habituada a ficar na creche, no entanto, o professor faz seu papel acolhedor e consolador.

Entre rezas e trabalho, travessuras

Na comunidade, quem é de roça vai cuidar do roçado, outros vão cuidar do rebanho – predominantemente são ovinos e caprinos. O horário da tarde é propício para os tijolos secarem no sol, não há forno para assar o barro. As donas de casa vão dar continuidade aos afazeres, ajeitar a janta, lavar roupa e cuidar da casa. O calor da tarde causa incômodo, olhares lânguidos e sensação nostálgica. É a monotonia que está preenchendo o lugar, até que um grito de uma criança quebra esse clima e gera um alvoroço. Todos correm para saber o que foi.

Dois garotos chegaram à associação da comunidade, vinham correndo, pálidos, assustados e gritando. Logo chegou o pessoal para saber do relato. Deram logo uma garapa (mistura de água e açúcar) para acalmar os “nervos” deles e em seguida um começou a contar o que ocorreu. “Fui fazer uma espera (tocaia para uma caça) com meu irmão nas terras do finado “Papado”. Quando chegamos lá, com pouco tempo, ouvimos um chiado no mato, por trás de nós. Mandei meu irmão atirar uma pedra para ver no que dava, mas quando jogamos a pedra voltou e “tirou fino” da minha orelha! Aí a gente correu e deixou a espera para lá, ainda prendi o calção no arame da cerca e quase que não solta! Tenho certeza que era o finado “Papado” vigiando suas terras!”.

Dito isto, levaram logo o menino até a rezadeira, Mãe Chica, para ver se não tinha nenhum “esprito” nos garotos e ela constatou que estavam limpos, mas que nunca mais fossem novamente àquelas terras assombradas.

O professor dos anjinhos

Após o acontecido, todos voltam a suas tarefas, e ao longe já se escuta o sininho da escola avisando que as crianças estão voltando para casa. Permaneci inquieto para descobrir sobre aquela ventania que falei no início desta crônica e fui averiguar. Para minha surpresa, outra mística envolve o quilombo do Arruda: por trás da escola, algumas dezenas de metros, há um cemitério de anjinhos (crianças que foram a óbito antes de serem batizadas). Fiquei impressionado com a informação e mais perplexo ainda quando ouvi que eram eles que causavam aquele vendaval, anunciando que estavam também presentes ali para assistir aula. De arrepiar!

Já que eu descobrira que igualmente sou professor deles, indaguei onde ficava o lugar exato, pois queria prestar minha oração e respeito a eles. Juntei comigo um grupo com quatro crianças que também manifestaram a vontade de ir. Fizemos o trajeto a pé.

Um deles perguntou: “professor, porque o senhor quer ir lá?” Eu serenamente respondi, “já que eles nos assistem, também devemos rezar por eles para que se sintam ajudados por nós”. Sabendo disso, me confessou: “meu irmãozinho está enterrado lá, quero que o senhor reze por ele”. Assim fizemos a breve visita e deixamos o carinho das nossas preces aos anjinhos. Tomei conhecimento que as mães vão até lá prestar homenagens no dia de finados, limpando seus túmulos e deixando flores.

Voltamos e o sol já estava se escondendo por traz da serra… a noite se aproximava e eu não sabia o quão longe estava por desvelar os mistérios daquele lugar.

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