Consumo e Estilo

O dia do glamour: Sanucia Pereira é a primeira caririense a disputar o Miss Brasil Plus Size

Evento será dia 27 de abril em São Paulo
Por Bruna Vieira • 10 de abril de 2019

(Sanucia Pereira vai representar o Ceará no Miss Brasil Plus Size. Foto: Divulgação)

 

Mais que beleza, a juazeirense Sanucia Pereira, tem um papel social como representante de uma categoria no Cariri. No dia 27 deste mês, ela sobe na passarela para disputar o Miss Brasil Plus Size, em São Paulo. O grande dia do glamour está chegando para realizar o sonho que não cabe em um padrão. Em entrevista à Cariri Revista, a modelo, estudante de enfermagem, mãe e dona de casa revela que com organização é possível conciliar essa intensa rotina.

Coaching para promover o empoderamento feminino, Sanucia repassa lições para todas as pessoas sobre amor próprio: mulheres ou homens, gordas ou magras. Ajudar a recuperar a autoestima de outras jovens é uma missão para ela, que critica o uso das redes sociais em favor da ditadura da beleza. Com ela não tem briga com a balança nem com o espelho.

A jovem de 29 anos conta o que mudou em sua vida com o sucesso na carreira, define a gordofobia como cruel e planeja impulsionar o movimento Plus Size, pouco difundido na região.

 

Cariri Revista: Como começou sua carreira de modelo?

Sanucia Pereira: Eu sempre quis ser modelo, e fazer parte de concursos nesse estilo, mas eu não cabia na forma imposta pela mídia. Até que conheci o Miss Plus Size e vi que era possível. Daí em diante participei de seletivas que proporcionaram trabalhos no mundo da moda.

CR: Que conquistas ela te trouxe?

SP: Fui primeira princesa, miss destaque, e a modelo Plus size mais requisitada do estado por marcas para fazer trabalhos de divulgação no ano passado. E além de todo esse retorno financeiro, consegui impulsionar minhas redes sociais e através disso ter contato com outras meninas que assim como eu sonham em entrar no universo da beleza, e que não conheciam o universo Plus Size. Eu hoje consigo ser um canal para muitas delas.

CR: Como é concorrer a um concurso nacional representando o Cariri e tantas jovens plus size?

SP: É indescritível. No começo, a parte glamorosa, enfim, passarela, maquiagem, fotos, vídeos, me fascinavam. Mas com o tempo, e com o contato que eu tive com essas jovens e muitas outras, inclusive as que não são gordinhas, me fizeram perceber meu papel social enquanto representante de uma classe. Eu tenho responsabilidade com essas meninas e prezo por isso. Já ouvi e conversei com muitas que estão deprimidas, com autoestima arrasada por causa de preconceito, discursos de ódio, ofensas, e que carregam isso desde a infância por não estarem dentro de um padrão que inventaram para excluir essas mulheres da sociedade.

CR: O termo “gordinha” a incomoda?

SP: Nunca me incomodou. Eu sou gordinha, mas sou saudável, me cuido, me sinto bem com meu corpo. Mas eu tenho consciência da quantidade de mulheres que levam isso como um fardo, um peso mesmo. Eu gosto de ser gordinha, mais que isso. Sou a gordinha mais linda desse Cariri (risos). Sou verdadeiramente feliz com meu corpo.

CR: Como você avalia a gordofobia?

SP: Não tem nada mais cruel que alguém ser taxado pelo número que veste, pela sua altura, ou pelo número da balança. A nossa capacidade e qualidade não tem nenhuma relação com nosso peso. E por incrível que pareça, nós somos excluídas sim por sermos gordas. Somos xingadas, não porque nos incomoda nosso peso, mas incomoda as pessoas à nossa volta. Se não nos traz problemas de saúde, se não queremos ser “as fitness”, saradas, com tanquinho, vestir 38, cintura fina, sem estrias e celulites, qual o problema? Até que ponto as características do outro estão te incomodando a ponto de você ofender, depreciar e diminuir? Isso é, sem dúvida alguma, cruel, pequeno e muito mesquinho. Estamos cada dia mais precisando praticar a empatia.

CR: E a sua vida pessoal? Como consegue equilibrar?

SP: Sou mãe, esposa, estudante de enfermagem, dona de casa também e uma Miss que está às vésperas de um concurso. Nada fácil (risos), mas nós mulheres temos o poder de conseguir. Ainda tenho tempo para fazer meus exercícios, afinal, gordinhas também malham (risos) e essa é minha rotina diária. Com organização, temos tempo para tudo. Ficar sentada reclamando pela quantidade de responsabilidade é que não nos leva a lugar nenhum.

CR: Quais os planos para o futuro profissional, tanto como modelo quanto na sua formação?

SP: Desde que decidi que quero tirar do papel o projeto MULHERES de Luz, eu tenho buscado me capacitar, além do curso de enfermagem que já me ajuda muito com a parte de saber lidar com outras vidas, tenho formação em coaching, participo de palestras voltadas para o empoderamento feminino, tanto como palestrante, como ouvinte. Isso tem me ajudando a entender mais profundamente como a cabeça e a vida dessas mulheres podem ser impulsionadas.

CR: Você já viveu momentos de não aceitação do próprio peso? Que lições isso te deixou que você possa compartilhar com jovens que passam por essa situação?

SP: Eu costumo dizer que vim na contramão. Eu sempre me aceitei e o universo Plus Size me encanta. Mas, eu sei que para quem não viveu ou vive esse momento como eu, a aceitação é um caminho difícil e de muitos conflitos. O que eu posso dizer a elas é que acreditem menos no que vêem no Instagram. A ditadura da beleza obriga essas meninas a usarem Facetune, Photoshop para deixar o bumbum maior, o dente mais branco, a cintura mais fina, os seios maiores. Isso não existe. Nós somos pessoas normais, reais, e todos, sem exceção têm algo que não gostam ou queriam mudar no seu corpo. Mas, bem mais importante que o exterior é o seu interior. O amor tem que começar de você para você mesma, antes de esperar isso do outro. Porque se você se amar meu bem, não existe nada de ruim lá fora que vá conseguir entrar no seu coração. E se entrar, bloqueia, elimina mesmo as palavras ruins, ofensas e qualquer coisa que não te acrescente. Nós somos lindas gordinhas, magrinhas, altas, baixas. Enfim, a beleza é relativa e não é uma forma onde todo mundo é igual. Cada um tem sua individualidade.

CR: Estar bem e saudável tem mais a ver com a alimentação do que com os quilos na balança. Você tem alguma restrição alimentar ou dieta?

SP: Graças a Deus não. Como de tudo um pouco, mas não me privo de absolutamente nada. Sou saudável e também pratico exercícios diariamente. Afinal, sou gordinha, mas não sedentária. Outras duas coisas que não tem nenhuma relação. Já fui bailarina de bandas no passado e isso também me ajuda muito no meu condicionamento físico.

CR: O que mudou na sua vida com esse reconhecimento no universo da beleza?

SP: Poxa, muitas coisas mesmo. Primeiro, a mudança começou por mim, comecei a aprender bastante. Além da oportunidade de conhecer lugares novos, pessoas e viver momentos de muita emoção. Aqui na região o reconhecimento ainda é pouco, até porque nosso segmento ainda não é tão vislumbrado e reconhecido. Mas eu quero justamente mudar isso e já que sou a pioneira, quero ser também a propulsora do movimento Plus Size da nossa região. Quero gordinhas ocupando todos os espaços aqui dentro.

CR: É a primeira vez que o Cariri tem uma representante no Miss Brasil Plus Size?

SP: Sim, sim, como disse anteriormente, sou pioneira aqui na região.  Mas, na expectativa que depois de mim venham várias outras. Quero ser a ponte delas até esse universo.

É a primeira vez que o Cariri terá representante no Miss Brasil Plus Size. Foto: Assessoria Sanucia Pereira.

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Bruna Vieira

Bruna Vieira

Bruna Vieira é mestra em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou como repórter, produtora, editora e âncora em Rádio, TV, Impresso e Online. Vencedora dos prêmios SBR Pfizer 2017 e 2016, Fenacor 2016 e Criança PB 2015. "Recontar histórias de vida, com sensibilidade e humanismo, porque o jornalismo também é feito de afetos".