Arte e Cultura

O cheiro do melaço volta ao Cariri

Por Redação Cariri • 10 de fevereiro de 2020

O doce dos engenhos no Cariri por décadas fez girar a roda da fortuna e fazer do setor canavieiro o mais importante da economia local. Nas últimas décadas deixou de ser uma força motriz importante, mas o verde esperançoso dos canaviais poderá voltar a ter lugar nas terras caririenses. A notícia da criação da Usina Cariri, formalizada há pouco mais de dois meses, reacende a esperança de pequenos produtores e empresários do segmento para reativação da maquinaria abandonada há mais de 10 anos na Usina Manoel Costa Filho, em Barbalha. Fica para traz uma história de decadência na produtividade.

Por Elizangela Santos

Há mais de um ano, havia a expectativa da parte do Governo do Estado de repassar o empreendimento agroindustrial, que havia sido adquirido em leilão pela Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece) por R$ 15,4 milhões. O que ocorreu com a assinatura de cláusula que estabelece para os primeiros meses, o regime de comodato aos novos empreendedores.

Em lugar dos verdes canaviais, a cultura da banana irrigada atualmente toma espaço nos campos. Poucos são os produtores que ainda acreditam no setor, apesar do ânimo com a compra da usina, que carregava em seu histórico um amontoado de dívidas trabalhistas ainda hoje sendo quitadas, na justiça. O empreendimento continua com as velhas máquinas e novos técnicos e os antigos funcionários deverão auxiliar na recuperação do que for preciso para dar continuidade a um processo que estancou e deixou na desesperança muita gente, junto com a decadência de um dos segmentos mais promissores nas primeiras décadas do século passado, antes mesmo da usina ser criada e trazer tecnologia para o sertão. Os engenhos começam junto com esse momento, uma fase de decadência. A modernidade trazia o açúcar invertido e mudava a rota de um processo secularmente estabelecido, desde os engenhos de madeira, movidos à tração animal.

O historiador José de Figueiredo Filho faz um registro histórico desse potencial, quando em meados dos anos 50 contabilizou o funcionamento de 284 engenhos a força motriz, 12 movidos a bois e seus engenhos d’água, nos municípios de Crato, Barbalha, Missão Velha, Juazeiro do Norte e Jardim. Barbalha assumia a dianteira na produção de mais de 8,5 toneladas de rapadura. Em 1785, segundo registro do Padre Antônio Gomes de Araújo, com citação de J. de Figueiredo Filho, o Crato teve o primeiro engenho movido à água. Eram tempos de glória, para uma região que sentia no ar o aroma do melaço fervente das caldeiras.

Hoje, donos de engenhos da região e produtores da cultura canavieira amargam a decadência de uma trajetória que fez a curva inversa na região, principalmente com o fechamento da Usina Manoel Costa Filho, que já apontava, em anos subsequentes, queda na produtividade. O leilão para a compra da usina reacendeu ideias de inovação no cultivo, com maquinário moderno e que somasse em favor da produtividade, além de novas cultivares com avanços genéticos que vicejem em solo caririense, com maior produtividade em menos tempo para colheita. A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce) fez um levantamento de viabilidade de área disponíveis para o plantio de 8.500 hectares na região. Há a expectativa de compra de produção de outras localidades para reativação do parque agroindustrial a partir de 2016.

DSC_3832

Para que isso aconteça há a necessidade de mobilização já. Mas até o momento, o grupo de investidores de São Paulo, que pretende criar uma sociedade anônima de capital fechado para os próximos meses, após os quatro meses de contrato de comodato fechado com o Estado, tem realizado pesquisas para verificar as melhores formas de cultivo e o tipo de cana-de-açúcar mais apropriado para se plantar em solo caririense. Na cláusula do contrato, após a criação da sociedade, a agência estadual entra como acionista, por conta da produção agrícola, conforme explica o presidente da Adece, Roberto Smith.

Em meio aos escombros de alguns engenhos do Cariri, há sobreviventes. Na cidade de Barbalha, que até poucos anos atrás recebia o simpático título de “Terra dos Verdes Canaviais”, hoje caminha à sombra de um passado, que possibilitou o desenvolvimento local. Mas a vida pretérita ainda é creditada na perspectiva de produção. Para o Secretário de Agricultura e Recursos Hídricos do Município, Elismar Vasconcelos, mesmo sem grandes novidades e nenhuma reunião realizada até o momento com os produtores agrícola, a notícia da compra e posterior formalização, em novembro, já se soma à esperança quase inexistente de que um dia algo pudesse ser feito em torno da usina.

Tradição secular se sustenta por um fio

No livro “Engenhos de Rapadura do Cariri”, J. de Figueiredo Filho traça um perfil da atividade agrícola que tinha um papel relevante na economia do Cariri. E a região nesse tempo vendia rapadura para o Nordeste. Hoje, os romeiros ainda fazem filas para comprar esses poucos produtos que são comercializados pelos proprietários, um engenho que sustenta por um fio uma tradição de mais de 300 anos, combalida pelo tempo.

A tradição da usina, mesmo criada no início ainda dos anos 70, começou a ser ameaçada principalmente nos anos 90 e foi apenas em 2004 que chegou a fechar suas portas, acumulando dívidas trabalhistas, com milhares de pessoas desempregadas. Até hoje, trabalhadores rurais que viviam da cultura canavieira se arriscam em lavouras de estados nordestinos como a Bahia e também nas regiões Norte, Sul e Sudeste. São milhares de pais de famílias que saem da cidade todos os anos, e passam boa parte do ano fora de casa para manter o sustento da casa.

DSC_3486

O proprietário de engenho, Antônio Sampaio, é um dos poucos que ainda arrisca plantar pequena área de cana irrigada ou até comprar para suprir o movimento do seu engenho, no sítio Venha Ver, em Barbalha. O local se tornou ao longo do tempo um atrativo turístico para os romeiros, mesmo em instalações modestas. Há dias mais movimentados que aportam no seu engenho até mais de 2 mil pessoas advindas de diversos estados do Nordeste. No último mês de dezembro, eram mais de 30 ônibus a cada dia. No local ainda pode ser vista a forma artesanal de preparo da ‘batida’ da cana, de forma orgânica, sem adição de açúcar, além dos temperos para dar o sabor especial ao doce.

Mas a realidade é bem restrita ainda. São pelo menos três estabelecimentos que ainda insistem com as engenhocas a girar, para retirar do aperto a garapa. Barbalha resiste como um dos municípios onde mais se produziu a rapadura e se contava com plantios de cana, junto com Crato e Missão Velha.

Alguns lamentam a mudança dos tempos e outros compreendem o momento que o Cariri passa. Para Antônio Sampaio, que já chegou a vender um engenho centenário e colocar o gado dentro de boa parte das terras onde era cultivada a cana, ainda falta muito incentivo para dar impulso ao setor. Ele considera que, neste momento, o auxílio com as novas tecnologias é de fundamental importância para se acreditar num novo ciclo, que teve tanta representatividade no passado.

Desde que a Usina Manoel Costa Filho foi leiloada para o Estado, que houve quem duvidasse do potencial de produtividade do Cariri. Um dos aspectos cruciais está relacionado ao manancial aquífero que existe para manter a irrigação da cana. Mas a esperança renasce, segundo o presidente da Adece, com o Cinturão das Águas, que prevê para o início de 2014 as levas de água do ‘Velho Chico’ para a garantia de plantio na região.

Quem poderia imaginar que o doce da rapadura sustentou e fez desenvolver economicamente o Cariri? O progresso teve um passado adocicado, mas o futuro não reservava moleza com a decadência ao longo dos anos. As prateleiras de supermercados foram tomadas de produtos industrializados. O açúcar da usina começa a tomar espaço juntamente com o álcool produzido na região. Os anos 80 e início dos anos 90 teve o grande auge na comercialização. Os novos empreendedores acreditam que o processo de retomada do setor esteja voltado principalmente para a gestão na nova agroindústria. Nos últimos dois meses, eles buscam aliar o conhecimento dos antigos técnicos que operavam as máquinas, muitas delas ainda tomadas por abelhas em busca do doce perdido, e os avanços tecnológicos. Ver, afinal, o que pode ou não ser aproveitado para os novos rumos da Usina Cariri, que até teve o primeiro nome sondado de Golden Nordeste.

DSC_3811

Não apenas a questão econômica foi enfatizada por J. Figueiredo Filho. Tinha mais a ser contado em torno de uma cultura. A vida estava diante de uma realidade que fazia parte do cotidiano de milhares de pessoas na região, a exemplo dos cânticos dos tangedores de bois usados na condução da cana à moenda, além dos cambiteiros, pessoa do transporte em lombos de burros. A tradição cultural se fortalecia e deixou uma herança para a formação futura.

As tecnologias trouxeram uma nova realidade com a vinda da usina. Possivelmente, nesse momento, poderá essa mesma condição tecnológica dar espaço à reativação de espaços para a produção, mesmo que em menor escala, da rapadura, hoje fabricada também em forma de drops. É o que foi iniciado em julho do ano passado pela Fábrica-Escola de Cana-de-açúcar, que este ano passará a ser administrada pelo Centec, em Barbalha. A meta é formar novos técnicos para atuar na área.  Os primeiros a produzirem desde a rapadura, álcool e cachaça foram representantes de comunidades de Barbalha, em parceria com a Secretaria de Agricultura e Recursos Hídricos local.

Mais e R$ 170 milhões de investimentos futuros e 3.700 empregos

A criação da Usina Cariri traz junto a formalidade de início de uma jornada para a agroindústria na região, num processo diferenciado, a partir de agora, com as novas perspectivas que apontam. A meta de investimentos para os próximos anos está em torno de R$ 176 milhões, envolvendo desde a recuperação do parque industrial com a compra também de novo maquinário. Serão cinco anos de injeção financeira em todo o ciclo de produção e uma meta de gerar mais de3.700 novos empregos, 2.500 diretos na região.

O grupo atual, formado por empresários de um consórcio de seis empresas, com atuação na Ásia, América Latina e Europa, foi o que mais avançou em termos de negociações, fechando um contrato em regime de comodato por quatro meses com a Adece.

E para funcionar, a matéria-prima essencial deverá ser cultivada a partir de maio deste ano. Pelo menos é o que admite o engenheiro responsável pela recuperação da agroindústria, Jader Bezerra, da OTS. O cultivo será em larga escala.  Isso tudo para chegar ao prazo estabelecido de funcionamento em 2016.

Com mão-de-obra basicamente de Barbalha, desde já os demais setores produtivos e da economia da cidade já comemoram, a exemplo das entidades lojistas, que relembram o período áureo de desenvolvimento. A presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Suzete Luna, destaca os grandes avanços, principalmente no setor lojista. Já o prefeito local, José Leite, disse que a grande importância se dá principalmente com o retorno na produção de segmentos de larga importância para a economia, com a reativação da agroindústria e fortalecimento do setor agrícola, proporcionando geração de renda e novos empregos.

A reativação das máquinas ainda é projeto. Pelo menos até o momento. A efetivação da compra da Usina Manoel Costa Filho e a conquista da Usina Cariri deixou de ser um sonho: é realidade. Mas o resultado de todo esse processo ainda soa como uma promessa para milhares de pessoas que mudaram suas vidas em função de uma empresa que movimentava consideravelmente a economia de uma cidade. Atividade canavieira sempre foi importante para o Cariri, e quando a usina estava em atividade, no auge da produção, chegou a representar 4% do Produto Interno Bruto (PIB) no Ceará. Um dos objetivos dos novos empreendedores é tratar de dar um novo direcionamento à cultura canavieira. Da rapadura ao açúcar cristalizado. O sonho da produção ainda é doce.

CATEGORIA:

Redação Cariri