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O CHÁ DOS CHÁS

Por Redação Cariri • 22 de fevereiro de 2019

Por Giovanna Duarte

 

a última vez que trabalhou vendendo bebida em uma barraca na Expocrato, “em 1900 e bolinha”, Blandino Lobo percebeu que a cerveja estava para acabar. Foi preciso correr em

casa, encher uma grade de cachaça e pôr uma rudia na cabeça. “Olha, eu atravessei esse dancing com 19 litros de cachaça na cabeça dançando mais o povo.” Sem datas exatas, mas com a memória perfeita para descrever os acontecimentos, Blandino Lobo criou, viveu e amou a lendária cachaça Chá de Flor.

Se tivesse nas escolas da região uma matéria chamada História do Cariri, essa faria parte do capítulo “Contracultura”. Foi assim: lá pelos anos 1970, João do Crato cantava com a banda Chá de Flor em Fortaleza. Ao mesmo tempo em que ajudava na produção dos shows, Blandino estudava sobre ervas. Dessa alquimia, surgiu a cachaça Chá de Flor, que saiu dos experimentos direto para a cabeça da galera fortalezense.

De volta ao Crato, a bebida começou a ser produzida em casa. Ao longo de 25 anos, Blandino e sua “trupe”, como chama os amigos que o acompanhavam, comercializaram a Chá de Flor entre festas como Expocrato, Pau da Bandeira, São João e a Festa de Nossa Senhora da Penha, padroeira do Crato. Ao todo, são 26 sabores de cachaças feitas de frutos e ervas.

Homem de família, ele explica: “Cachaça é o lado de papai. Papai nasceu e se criou em alambique; erva é o lado de mamãe, piauiense camponesa dali de perto de Picos”. Fazer a cachaça Chá de Flor era um ritual: “Primeiro que eu não faço sem vontade”. A produção no laboratório, como chamavam o lugar da casa onde era produzida a bebida, começava com a limpeza dos recipientes. Depois de lavados com água e sabão, eram banhados novamente, dessa vez com cachaça. Com tantas fórmulas passando pela boca, o paladar precisava ser depurado com cerveja e churrasco. E como era trabalhar depois de dias assim? “Era só alegria”, ele conta.

O sucesso foi tanto que a cachaça “ficou a preço de cerveja”. Só que nem tudo eram flores. Blandino conta que foi muito perseguido. A coisa toda de mexer com ervas e ser cabeludo fazia a polícia acreditar que tinha droga no meio da história e que ele estava desvirtuando a juventude cratense, quando, na verdade, “era um trabalho natural, essência de ervas misturada com aguardente. Só depois de um ano conservando a gente misturava com suco de frutas, mel de abelha e gelo. E bebia”.

A bebida virou bar. E pelo palco do bar Chá de Flor passaram nomes como Cássia Eller: “Foi no Cariri que ela se lançou pro mundo”, conta. Era lá que rolavam as melhores apresentações das melhores bandas. “E todo lançamento do mundo chegava lá primeiro. Rolava muito rock and roll e ópera. Forró era uma vez por ano.” Quando indagado sobre o que havia de melhor, responde saudoso: “Naquela época você ouvia as pessoas assobiando Alceu Valença do meio da rua”.

Ora Blandino conta que ninguém se embriagava, “já que era tudo muito dançante e a bebida saia pelos poros”, ora diz que quem caía bêbado era colocado para dentro do bar, ficava com a chave e ia embora no outro dia de manhã. Em todo caso, “rolavam todas as loucuras, mas era uma loucura ‘sem atropelo’, diferente de hoje”.

 

Ingredientes do Chá de Flor:

Mel de abelha
Sucos concentrados
Pó de madeira
Matrizes de essências de cravo, canela, catuaba, imburana, anis estrelado
Cachaça do brejo

Perto de completar 60 anos, o criador da bebida mais famosa do Cariri não curte muito a dinâmica urbana. Diz que é bicho do mato e que “vai chegar o tempo de botar a barba nos peitos” e voltar para o mato. Ele não é bom de celular, “mas se der uma pane no sistema, sei acender um fogo rapidinho”, afirma. Blandino conta que colecionou bons amigos, viveu muita coisa boa e aprendeu com tudo, mas não sente saudades. Para ele, o Chá de Flor foi maravilhoso porque aconteceu na época certa. O fim também chegou na hora certa, enquanto tudo aquilo ainda tinha significado.

Ano passado, para ajudar um amigo com a construção de uma casa, Blandino abriu matrizes de essências guardadas há anos eproduziu algumas garrafas. A lendária cachaça Chá de Flor foi vendida na Expocrato, numa barraquinha, como tudo começou. Mas não por ele: “hoje em dia, eu não boto uma cachaça, a não ser que seja pra mim”.

E a receita do Chá de Flor, Blandino? “A receita é acreditar.”

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* Texto originalmente publicado no Sertão Transviado, jornal criado e produzido por alunos e alunas do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Cariri.

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