Arte e Cultura

O causo de Maria Ventinha

Por Redação Cariri • 17 de junho de 2020
Foto: Augusto Pessoa

 

Por Pedro Walisson

O Sol ainda dormia e em Juazeiro do Padim Ciço já fazia o calor agoniante de setembro. Foi quando Maria Ventinha acordou pra Jesus. Rezou o ofício das almas, um rosário ligeiro e levantou para enfrentar o dia. Nascera para enfrentar, tolerar e resistir sem se dar conta disso. Não tivera muitas opções na vida. Mas tinha a certeza e a fé na compaixão de Nossa Senhora e todos os santos, de viver a romaria do Juazeiro e de pedir uma graça ao Padim.

Nesse dia ela levantou para cumprir uma promessa recente. Um dia desses teve uma pilôra na quentura da rua são Pedro em tempo de romaria e a carregaram para o hospital regional. Era um fuá tão grande de gente que Maria Ventinha só conseguia aceitar que a levassem pra onde tivessem de levar, como sempre o foi na sua vida. Agora não tinha mais a mãe para dizê-la onde pisar, mas aprendera bem a ouvir e seguir o que fosse melhor, para os outros.

A internaram para tomar um soro nas veia, disseram que desidratou. Mas o curioso fato foi que Maria Ventinha se viu cercada por uns cinquenta dotô. Era tanta gente, tanta gente que parecia o povo na Expocrato olhando os bichos nas gaiolas. Pelo menos foi assim que ela se sentiu. O fato que chamava atenção era um detalhe que lhe rendeu uma vida inteira de brincadeiras não consentidas e piadas sem graça: seu nariz. Aquele órgão da face, menor que o da maioria das pessoas. Maria Ventinha. Os doutô chamavam de coisa diferente, um nome que não entendia bem, coisa feia, com certeza isso era. Doença ruim que não teria cura nem com tratamento. Era coisa de apelar a santo milagroso do Juazeiro. Chamaram de nariz em sela.

Valei-me meu Padim Padre Cícero Romão Batista do Juazeiro. Minha Nossa Senhora das Candeias. Frei Damião e todos os Santos. Que ia morrer disso já tinha certeza. Não tinha o que fazer. Saiu do regional, desceu a rua Padre Cícero num pé só. Pegou um moto táxi na praça e desceu na igreja matriz. Agora sabia o que fazer. Tinha que apelar pra força superior. Coisa lá de cima. Não poderia perder tempo com remédio do povo. Cura mesmo era santa.

Ajoelhou-se logo na escadaria. Era pleno meio dia em ponto. O sol tinindo nos couros. No rosto um óculos de vidro, com armação grossa amarela desbotada, que a fazia enxergar. A saia marrom de oxford, a blusa preta de mangas compridas rendadas. A currulepe de couro comprada na rua Alencar Peixoto. O chapéu de palha do mercado central. Três fitinhas no braço, rosa, azul e branca, da última ida ao horto, que lhe renderam nove pedidos ao Padim Ciço. Rezou um pai nosso e uma avemaria para começar a conversa com o divino. Foi a saudação ao santíssimo que a ensinaram. Agora estava preparada.

“Meu santíssimo coração de Jesus, minha mãe das candeias, meu padim Pade Ciço, interceda por mim, livrai-me desse mal, renova minha saúde e minha vida, pela graça de jesus e nossa senhora, que prometo que vou subir o horto descalça, com a bata do meu padim e o cordão de são Francisco tirando o rosário, e subir os degrau do meu padim de joelhos. Só o senhor pode me livrar desse mal, nariz em selva, uma coisa nas minhas venta que vai me matar, mas meu padim vai me salvar e eu vou pagar essa graça, porque o sangue de cristo tem poder, amém.”

Se levantou, respirou fundo, o ar não era muito agradável em Juazeiro de uns tempos pra cá. Os esgotos e bueiros exalavam odor pela cidade. Era o que ela pensava. Mas não pensou mais. Achava melhor não pensar. As coisas ficam mais fáceis pra quem não pensa muito. Foi o que tirou da vida até agora. Mas conversar com o padim a fez perceber uma coisa. Ela era Maria Ventinha. Nascera, crescera e havia de morrer, Maria Ventinha. Não é que gostasse, mas é quem era, é quem deveria ser, seja por causa de Deus, de Nossa Senhora das Candeias, do Padim, ou do Exu de comadre Côca do João Cabral. Que ia morrer, era certo. Mas quem não vai? Côca vai morrer, Dolores vai morrer, até Lula vai morrer um dia. Por que Maria Ventinha não haveria de morrer também? Quando tivesse de ser, estaria pronta. Seja pelo nariz em sela, por uma pilôra em setembro, por uma moto doida sem placa. E enquanto não acontecesse, havia de rezar pro padim, pedindo paz pro mundo e pro Juazeiro, subindo o horto e rindo. Rindo de ser Maria Ventinha.

Atravessou a rua. A chinela torou. Caiu em cima do esgoto no tropicão. Levantou. Não enxergava bem. Seu óculos ficara no chão, quebrado, lentes e pernas. Botar no rosto a fez enxergar vários mundos que não faziam sentido. Jogou fora. Deixou também as currulepes para trás. E seguiu nas ruas do Juazeiro. Porque era isso que sabia fazer. Seguir sozinha. E seguiu.

Sobre o Autor

Pedro Walisson Gomes Feitosa. Pesquisador em Saúde e humanidades, cordelista e cronista Caririense. Nasceu em Caririaçu, aparado por parteira, e vive no Barbalha anotando e rimando causos da vida. É membro do Observatório Caririense de práticas populares em saúde, registrando os saberes de parteiras e benzedeiras do Cariri.

 

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