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O Cariri na Sapucaí: duas escolas de samba desfilam com enredos da região

São quase três horas de samba com temas do Ceará no carnaval carioca
Por Bruna Vieira • 4 de março de 2019

(Foto: Ewerton Pereira/ Paraíso do Tuiuti)

 

Se a Sapucaí não vem ao Cariri, o Cariri vai à Sapucaí nesta segunda-feira, 04. Da literatura à artesania, três escolas de samba cariocas enaltecem o Ceará em seu enredo, duas delas com temáticas caririenses. A União da Ilha se ornamentará de 15 mil peças de artesãos cearenses, entre eles, Espedito Seleiro, de Nova Olinda, que também desfilará. Já a Mangueira entrará com uma ala sobre os índios kariris. Paraíso do Tuiuti também abordará o estado, com a história do bode Ioiô, de Fortaleza.

As lendas, arte, culinária, belezas naturais e moda definem a poética do enredo. O diretor do Grêmio Recreativo Escola de Samba (Gres) União da Ilha do Governador, Dudu Azevedo, explicou a escolha das personagens que compõe o samba-enredo “A peleja poética entre Rachel e Alencar no Avarandado do Céu”. “Foi uma ideia do carnavalesco Severo Luzardo. A gente queria falar do Ceará, mas, de uma maneira mais poética, mais original. E aí ele se inspirou nas poesias, nos contos, nas passagens dos livros de Rachel e Alencar para descrever o Ceará na avenida”, revelou.

Além dos homenageados, cearenses de diversos municípios desfilaram na escola. “Vai ter bastante gente, as pessoas procuraram a escola, se encantaram com o enredo, foram comprando fantasia e agregando com a gente nos ensaios, muito cearense que mora no Rio de Janeiro também. São 1h15 de desfile do Ceará sendo transmitido para o mundo todo. As peças produzidas no próprio estado deixam o carnaval original. O padim Ciço vem representado numa ala, num setor que a gente fala das crenças, festas do interior, sincretismo. Queremos retratar um Ceará alegre, o sangue nordestino, Ceará que fala com a alma”, destacou Dudu.

 

Um desfile por mãos cearenses

A produção do desfile movimentou todo o estado, tanto do ponto de vista artístico, quanto econômico. O Ceará se apresenta não apenas no enredo. A maior parte das peças que compõem as fantasias e carros alegóricos foram produzidas aqui e enviadas ao Rio de Janeiro. Isso deu visibilidade aos artesãos, ampliando os negócios. O carnavalesco Severo Luzardo narrou a trajetória que começou em 2018. “Eu viajei Litoral, Sertão e Interior fazendo contatos. Rede é com Jaguaruana, bordados de filé com Jaguaribe, a palha e alguns objetos fechei com a Feirinha de Artesanato de Fortaleza. E a grande palha que cobre o carro abre-alas foi feita por 12 cooperativas através do Memorial da Carnaúba”, elencou.

O artesão do couro Espedito Seleiro será homenageado como personalidade do design brasileiro e desfilará em carro aberto com seis familiares na ala que o prestigia. O Memorial da Carnaúba, em Jaguaruana, na região do Vale do Jaguaribe, está produzindo um documentário sobre o manejo e participação do vegetal no desfile. “Para mostrar como foi feita a colheita da palha, a secagem, o beneficiamento, o tingimento, o envio para o Rio de Janeiro, a colocação no carro alegórico e o desfile”, descreveu Severo.

 

Ceará forte retratado

“Ouvindo poesias de Rachel, suspiro nas histórias de Alencar”. Ito Melodia interpreta o samba-enredo da União da Ilha do Governador, composto por Myngal, Marcelão da Ilha, Roger Linhares, Marinho, Capitão Barreto, Eli Doutor, Fernando Nicola e Marco Moreno. Revela o Ceará forte retratado pelos sambistas. Cordel, lendas, viola, sanfona, padim Ciço, amor, esperança que não seca na terra seca, tudo isso será levado à avenida do samba. O chapéu de couro e gibão é a moda da estação. “O enredo é o Ceará, a maneira como Rachel e Alencar descreveram sua gente, seus costumes, sua comida”, concluiu Severo.

Esta semana a agremiação completa 66 anos de história. Em 1975 chegou ao Grupo Principal. Em 2001 foi rebaixada e em 2009 ganhou o acesso à elite do carnaval carioca novamente. Em 2011 um incêndio destruiu o barracão e ela ressurgiu das cinzas. Artistas famosos integram a equipe, como a atriz Cacau Protásio e a rainha de bateria, Gracyanne Barbosa.

Divulgação.

 

“Bastante gente conhecida endossou o enredo. Gonçalo Ferreira, presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Mailson que ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura, a Morgana Camila que vai representar os bordados de Maranguape. A escola está linda, essas peças feitas no Ceará deram muita autenticidade. E sobretudo, são muitas mãos que fizeram, trabalharam, apoiaram. Eu acho que vai estar todo o Ceará conectado na televisão na hora que a União da Ilha entrar para desfilar” – Severo Luzardo, carnavalesco.

 

Cearenses homenageados

Espedito Seleiro (artesão do couro) – Nova Olinda

Assis Filho (escultor) – Caucaia

Zé Tarcísio (artista plástico) – Fortaleza

Dim Briquedim (artesão de brinquedos) – Camocim

Ivanildo Nunes (estilista) – Fortaleza

Lindembergue Fernandes (estilista) – Fortaleza

Rebeca Sampaio (figurinista) – Fortaleza

Morgana Camila (blogueira) – Maranguape

Patrícia Leite (ex-BBB) – Icó

Mailson Furtado (poeta) – Varjota

Gonçalo Ferreira (cordelista) – Ipu

Padre Cícero (líder religioso) – Crato

 

Obras de José de Alencar que inspiraram o enredo:

  • O nosso cancioneiro;
  • Iracema;
  • Ao correr da pena;
  • Como e porque sou romancista;
  • O Sertanejo;
  • O Guarani.

 

Obras de Rachel de Queiroz que inspiraram o enredo:

  • As três Marias;
  • O quinze;
  • O não me deixes: suas histórias e sua cozinha;
  • Memorial de Maria Moura;
  • O nosso Ceará.

 

Uma história com o Padre Cícero

Patrícia Leitte, cearense de Icó, ficou conhecida no Brasil após participar do reality show Big Brother Brasil (BBB), mas, o que pouca gente sabe é a sua história familiar. Sua bisavó teria sido dada como morta ao nascer. A mãe fez então uma promessa: se a menina sobrevivesse seria dada aos cuidados do padre Cícero. A promessa foi cumprida e dona Preta foi criada pelo líder religioso do Cariri. É no carro abre-alas que Paty irá desfilar na Apoteose do Samba.

Patrícia Leitte, cearense que desfilará no carro abre-alas da Escola de Samba União da Ilha do Governador. Foto: Divulgação.

 

Conheça o samba-enredo da União da Ilha do Governador:

 

Mangueira e os Kariris

A Estação Primeira de Mangueira utilizou o segredo como ferramenta para manter a magia do desfile e divulgou poucas informações sobre o processo criativo. Prevista para entrar na avenida às 2h40, a escola levará uma ala sobre os índios kariris e sua resistência, ressaltando que os povos indígenas foram os primeiros habitantes do Brasil. É a penúltima a desfilar, na sequência de União da Ilha e Paraíso do Tuiuti.

 

Veja o samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira:

 

Tuiuti e o bode Ioiô

A Paraíso do Tuiuti, vice-campeã do carnaval carioca em 2018 também tem o Ceará no samba-enredo. E não é a primeira vez. Em 2016, trouxe a história do boi Mansinho, que pertenceu ao beato José Lourenço. Considerado boi milagreiro, que trazia chuva ao sertão, os moradores do Caldeirão chegaram a ser acusados pelas autoridades da época, de idolatria e fanatismo.

Este ano, o samba-enredo feito à dez mãos por Cláudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal traz a história do bode Ioiô, que ganhou fama em Fortaleza. Interpretado por Grazzi Brasil e Celsinho Mody narra a vida do animal que viveu na década de 1920 na capital, fugido da seca no interior. Conta-se que o bode teria sido até eleito vereador, quando o voto ainda era escrito no papel.

O carnavalesco Jack Vasconcelos conseguiu levar o mascote da capital cearense à avenida. Fundada em 1952, desde 2001 está no Grupo Especial. A escola também tem em seu staff celebridades nacionais, como a musa Lívia Andrade e a campeã do último Big Brother Brasil (BBB), Gleici Damasceno. Desde 2014, realiza desfiles culturais e históricos, emplacando bons resultados. No ano passado, questionou os 130 anos da abolição da escravatura em seu enredo.

 

Confira o samba-enredo da Paraíso do Tuiuti:

 

Cariri sempre lembrado no RJ

O Cariri volta e meia é destaque em escolas de samba. Em 2010, a Samba e Tradição homenageou os 100 anos de Juazeiro do Norte e o milagre da hóstia, protagonizado pela beata Maria de Araújo e o Padre Cícero.

 

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Bruna Vieira

Bruna Vieira

Bruna Vieira é mestra em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou como repórter, produtora, editora e âncora em Rádio, TV, Impresso e Online. Vencedora dos prêmios SBR Pfizer 2017 e 2016, Fenacor 2016 e Criança PB 2015. "Recontar histórias de vida, com sensibilidade e humanismo, porque o jornalismo também é feito de afetos".