Grandes Caririenses

O Avesso da Lenda

Seu Joaquim está aborrecido. As histórias que se atribuem a ele alimentam há anos a imaginação popular. Respostas abrutalhadas para perguntas descabidas fizeram deste homem simples um verdadeiro mito no anedotário nordestino. O cidadão real, porém, nega a lenda inventada. Despindo a capa de “ignorante” e zangado, quer ser visto apenas como bom vizinho e poeta inspirado.
Por Redação Cariri • 8 de abril de 2019

Por Raquel Paris

Sentado em uma velha cadeira de rodinhas para escritório, o senhor de barba tosada, óculos escuros e chapéu de massa observa  tranquilamente a rua. Ao seu redor, uma variedade impressionante de objetos novos e usados estão expostos ao sol e ao gosto do freguês. Atrás dele uma loja se estende apinhada de bugigangas, algumas tão velhas que levantam dúvidas sobre seu uso e utilidade. Porém, para quem passa pela Rua Santa Luzia, centro comercial da cidade de Juazeiro do Norte, o senhor de ar monótono e impávido é um ícone quase tão famoso quanto o Padre Cícero, com o adicional óbvio: está vivinho da silva. De nome ninguém o conhece. Há muito que passou ao estágio de ser descorporificado, habitante fantástico de histórias que percorrem todo o Nordeste e além.

Há até quem diga que ele simplesmente não existe. E os que sabem de sua existência preferem desconsiderar sua vida real. Joaquim Santos Rodrigues, ou para ser mais claro seu Lunga, segue vivendo assim uma vida dupla: a de ser homem e lenda ao mesmo tempo.

O HOMEM

O homem nasceu em 1927, em Caririaçu, cidade fronteiriça a Juazeiro. Seus pais eram alagoanos, viviam da agricultura e assim criaram todos os oito  filhos. A chegada de Joaquim em Juazeiro se deu em 1947, quando ele tinha 20 anos e a ourivesaria reinava soberana na terra do Padre Cícero. O recém-chegado passou a fabricar joias, para logo negociar cereais no mercado público da cidade. Casado desde 1951, em 60 anos de casamento Joaquim estendeu a família em 13 filhos e 12 netos. A loja de ferragens, que existe até hoje, foi montada em 1960. Dessa época para cá ele abre suas portas às oito da manhã, fecha ao meio-dia, reabre às duas da tarde e fecha novamente às 18h. Todo dia, religiosamente.

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O MITO

A data exata em que nasceu a lenda é difícil precisar. O certo é que o cordelista Abraão Bezerra Batista foi pioneiro ao publicar, em 1983, um folheto de cordel intitulado “As Histórias de Seu Lunga, o Homem mais Zangado do Mundo”. A partir daí surgiram outros 78 títulos de cordel, de 39 cordelistas diferentes, que podem ser encontrados em feiras, bancas e livrarias em todo Nordeste. De seu Lunga, o mito, pouco se sabe. Nascido em Juazeiro do Norte, ele é tido como o homem mais malhumorado do mundo. Sua fama se deve precisamente às respostas grosseiras que dirige a quem fizer uma pergunta “besta”. Impaciente, ignorante, brabo, cabra da peste: são adjetivos costumeiramente associados ao personagem fictício. As histórias são passadas oralmente, geração após geração, fazendo de seu Lunga um ser sem idade exata e definida. A rabugice, logo associada à velhice, tornou-o idoso pela vida inteira.

A VINGANÇA

O homem, cansado da lenda, resolveu então se vingar. Moveu uma ação contra o cordelista Abraão Batista, alegando que este se utiliza de seu nome indevidamente, o que consolidaria uma imagem negativa. Joaquim Santos Rodrigues teve ganho de causa e Abraão Batista não poderá mais usar o nome “Seu Lunga” em seus escritos. “Na minha opinião, no meu pensamento, na minha lógica, isso só acontece por falta de justiça. São 157 histórias sobre a minha pessoa e nenhuma é verdade. Esse cabra que escreveu isso nunca me deu um bom-dia. Dizer o que você não é, é ruim. Me diga uma coisa, como é que o camarada vai escrever sobre essa personagem que você pensa da minha pessoa e não pesquisa pra saber se isso é verdade? Eu sou comerciante desde 1950 e tenho um só preço”, esbraveja seu Joaquim. A mágoa é contra o que o mito esconde. “Esse camarada Abraão botou no folheto que eu sou o homem mais ignorante do mundo, aí tem gente que chega aqui pensando que eu sou um homem ignorante e vem com perguntas imbecil, vem com proposta desagradável. Mas olhe, eu sei ler, sei escrever, sei as operações de conta, e além disso eu crio discursos, eu faço discurso político e tenho várias poesias que é
de minha autoria. Eu sei dialogar e nunca recebi uma reclamação, eu sei onde eu me meto”, afirma.

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O OCULTO

O que o povo desconhece é que Joaquim Santos Rodrigues, quando assim o deseja e a verve está afiada, é um poeta atilado, de criações espontâneas e firmes. Dedo em riste, sorriso nos lábios, declama em alto e bom som: “Quem não mora muito longe, morando perto é vizinho. Encostado a essa mata, mata que tem espim. Cada pau tem o seu galho, cada galho tem um nim. Não vou morar nessa mata por causa dos Passarim.” E muito de repente, o “homem mais ignorante do mundo”, o senhor de respostas ferinas, nordestino brabo transformado em piada nacional, se converte em um cidadão tranquilo e vaidoso. “Como essas eu tenho umas outras tantas!”. E seu Joaquim se revela um anfitrião conversador, prático e honesto, embora intransigente, como os diversos Joaquins que existem
em todo o sertão Nordestino. “Quem me conhece não me interessa. Mas quem me conhece me preza”, afirma ele, categórico. E de sorriso no rosto, aperto forte na mão direita, se despede em verso com a gentileza típica do sertanejo:

 “Adeus amante querido,
Meu amor sempre livrado,
Aceite lembranças minhas,
E recordações do passado.”

 

Fotos: Rafael Vilarouca
{Publicado na edição 3 da CARIRI Revista}

Redação Cariri