Cariri Sustentável

Nossa realidade é maior que a catástrofe

Por Redação Cariri • 21 de agosto de 2020
Por: Gilmar de Carvalho
Foto: Otavio Nogueira

Os relatos das primeiras secas, datados do século XVII, são sempre carregados de dramaticidade e não poderia ser de outro modo. Pode-se tirar daí uma primeira lição: as condições da nossa terra podem ter-se agravado com o desmatamento, a poluição e o desequilíbrio ecológico, mas as questões são mais complexas e se inscrevem no nosso DNA. Não como castigo, karma ou destino, mas como uma confluência de fatores, uma resultante de  localização geográfica, proximidade com o Equador, tipo de vegetação, correntes marítimas, aquecimento dos
oceanos, regime dos rios. A outros, cabem tempestades de areias, furacões, terremotos, maremotos, nevascas, a nós coube a seca. Uma questão que leva em conta de como a Terra deve ter-se formado, de como se organizou e/ou desorganizou, ao longo do tempo. Tudo isso pode ser visto sem determinismos, sem que sejamos vítimas da sanha dos deuses ou artífices de nosso próprio sofrimento, mas essa é outra história.

Foram tantos anos de casas abandonadas, êxodo por estradas poeirentas que não levavam a lugar nenhum, tanta gente faminta, tanta carcaça de rês, que isso tudo se incorporou ao que pode ser chamado de vidas secas. Nada disso é mentira. Tudo isso é verdade. Mas nossa realidade é maior que a catástrofe.

A narrativa do menino Manoel Graciano, fugindo com a família, de Santana do Cariri para Juazeiro do Norte, na seca de 1932, dentro de um caçuá, no lombo de um jumento, poderia ser o capítulo de romance social ou um plano sequência do cinema novo. Poderia ser o motivo de uma canção de Luiz Gonzaga, um cordel politizado do Expedito Sebastião da Silva ou um álbum de xilogravuras do Stênio Diniz e Mariza.

No final do século XIX, a economia cearense ia bem, o algodão em alta sinalizava novos tempos. Entre 1846 e 1876, tivemos o maior período sem estiagens de que se tem notícias na história do Ceará. Elas recrudesceram, para valer, com a seca de 1877 a 1879, quando um quarto da população cearense teria morrido de fome, e voltaram entre 1888
e 1889. A seca rendeu gestos teatrais e promessas retóricas, como a da venda dos brilhantes da coroa, que permanece intacta no Museu Imperial, em Petrópolis.

No início dos anos 1970, auge da ditadura militar, implantada em 1964, Emílio Médici veio a Crateús, em um ano de seca, e teria se comovido com o que viu. Uma das mais longas e deletérias estiagens foi a que nos afetou de 1979 a 1983, considerada como genocídio, pelo Cardeal Arcebispo de Fortaleza, Dom Aloísio Lorscheider. Provocou
comoção a foto de uma criança, divulgada exaustivamente pela mídia, brincando com ossinhos de animais. Era a vitória de Tânatos. Não havia espaço para Eros.

A seca foi responsável pelo apartheid social ao qual estamos condenados. A perda da importância política e econômica do Norte, que então englobava o Nordeste, foi percebida faz muito tempo. Franklin Távora, no prefácio de “O Cabeleira”, falava em “literatura feita no norte e literatura feita no sul”. Não como possibilidades criativas, mas como antagonismo, posições distintas no front da batalha pela expressão.

Fizemos nossa parte, mas com demasiada insistência nos motivos, nas figuras da retórica e o tópico da vida seca se acentuava cada vez mais. A denúncia era importante, como um dos diversos registros, a possibilidade de ver e dizer o que se sente, de denunciar e de sonhar com um futuro mais promissor. Não foi o que fizemos. A denúncia se tornou uma espécie de mão estendida. Partia das camadas médias e das elites, como uma compaixão pelo sofrimento dos outros. Os chamados intelectuais orgânicos talvez tenham sido melhor sucedidos, porque sofriam e não escreviam sobre o que ouviam contar. Patativa fez poemas como “A morte de Nanã”, outros cordelistas com seus folhetos de feira, chamavam a atenção para a seca do Ceará, cujo ápice foi em 1915, data limite, símbolo e título do romance de
estreia de Rachel de Queiroz.

Não se trata de negar a importância do romance social, mas não se pode ficar apenas na emoção, por mais legítima que seja, e a ideia de irmos em frente, independentemente do que se passara, e do que haveria de vir, era mais forte. Por mais que nos comova, a morte da cadela Baleia é um pequeno drama diante de um drama maior. A fome das pessoas talvez não nos comova tanto e só passou a ser enfrentada, tempos depois, pelo Governo Lula, entre 2003 e 2010.

O estigma de região problema criou e reforçou outros clichês, dando margem à permanência das oligarquias e ao império dos coronéis, tão desastrosos no Nordeste quanto políticos corruptos e populistas do Sudeste. Mas disso poucos falam. Passamos a ser cúmplices de nossa própria depreciação. Éramos vistos como território do banditismo, do fanatismo, do conservadorismo e do atraso. Mesmo assim, nossas elites ganharam depois o Banco do Nordeste e a Sudene, que seriam agências do desenvolvimento regional.

O clientelismo ganhou força nesse contexto, com a apadrinhamento, a formação dos colégios ou currais eleitorais, a importância de aprender a desenhar o nome para se ter o título de eleitor e poder votar. A democracia, o melhor e mais perfeito dos regimes, tem seu preço, e pode ser alto, dependendo das circunstâncias.

A seca passou a ser tratada pelo jargão bélico. Falava-se do combate. Assim, foi criada, em 1909, a Inspetoria de Obras Contra as Secas, depois Departamento Nacional, hoje, absolutamente esvaziado de sua função. Foram construídos muitos açudes, mas é preciso se levar em conta a evaporação da água represada nos reservatórios, e estamos diante de um problema tão grave quanto a salinização das terras irrigadas.

A transposição das águas do São Francisco, por mais bem intencionada que seja, esbarra na crise deste curso d’água maravilhoso, com nome de santo, chamado de rio da integração nacional. Alguns técnicos aconselham o desvio de parte da vazão do Tocantins, como uma alternativa confiável.

Os açudes existem, mas a irrigação é pequena, e o risco da salinização não é desprezível. No meio disso tudo, temos a redução dos investimentos na agricultura familiar e a aposta no agronegócio. Foi uma escolha política de quem tanto defendeu a reforma agrária, quando ainda aspirava o poder. A política é dinâmica, dizia um ex-governador do Ceará. Dinâmica demais, pode-se acrescentar. Para completar o quadro, a agricultura é responsável por uma parcela ínfima, cerca de 6% do PIB cearense. Não temos terras agricultáveis que interessem ao agronegócio, como o sul do Piauí onde é cultivada a soja. Cenário de terra devastada, o Ceará pode se reencontrar, nada está perdido, brilham luzes, tênues, no fim dos túneis.

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As secas foram períodos para grandes obras, como a construção de açudes, a abertura de estradas, os seringais do Norte, com os Soldados da Borracha, a edificação de Brasília ou a construção civil do Rio de Janeiro e de São Paulo. O povo que se deslocava, em busca de trabalho e de comida, era levado para os chamados campos de concentração. Falavam, depreciativamente, nos cassacos, a mão-de-obra escravizada pelas cobranças dos fornecimentos. Depois,
vieram as frentes de serviços. Hoje, a questão se diluiu, nos desvãos da mídia, e sumiu da retórica governamental.

A ideia do combate foi substituída pela convivência com o semi-árido, em tempos mais recentes, a partir dos anos 1990. Não é uma questão apenas linguística, mas ideológica. Trata-se de propor uma relação amistosa e respeitosa entre o homem e a natureza. Tudo passa por aí, apesar da insensibilidade dos governos que elegem outras prioridades e esquecem o campo.

Têm sido feitas experiências com algodão agroecológico, com acompanhamento do Esplar, escritório que completará 40 anos de atividades em 2014. Este algodão tem aceitação no mercado mais exigente e faz o caminho de volta das riquezas cearenses, depois da praga do bicudo, que acabou por dizimar nossos cultivos, em sintonia com a rejeição deste modelo de geração de riquezas, também nos meados dos anos 1980. Esta experiência está sendo feito em dez municípios cearenses, sendo a safra adquirida por uma cooperativa francesa. Afinal de contas, nem todo mundo concorda com trabalho escravo, com defensivos agrícolas, com práticas que agridem o ambiente, e o mundo não se reduz às lojas chinesas de bugigangas.

Teve início a era das cisternas. A água acumulada é benfazeja e pode render muito, se utilizada com parcimônia, planejamento e bom senso. Trata-se de uma ideia que melhora a qualidade de vida de muita gente. As cisternas de placa passaram a ser substituídas por outras de polietileno. Fala-se, com muita insistência, na desertificação de partes do nosso território. Solo pobre, anos de queimadas, falta d’água, plantios inadequados, tudo conduz a este quadro que parece irreversível.

Uma visita ao nosso interior vai mostrar a importância de uma instituição que sobrevive a duras penas, quando poderia servir de exemplo a outras iniciativas do mesmo porte: Escola Família Agrícola Dom Fragoso, de Independência. O Governo do Estado que, em boa hora, investe nas escolas profissionalizantes, bem que poderia se voltar para este modelo que prepara a juventude para continuar no campo. A informática é importante, o turismo também, mas a opção pela agricultura é algo que comove, quando a gente conhece as dificuldades que o Ceará rural enfrenta.

Neste sentido, pode-se falar em seca, como um problema, não como o apocalipse, quando se tem um projeto sustentável de verdade e não como slogan de campanhas publicitárias. O novo agricultor recorre às mandalas, ao cultivo associado, ao gotejamento, evita os produtos tóxicos e estabelece uma relação harmoniosa com a Terra. Este futuro é promissor.

Curioso que o contexto aponte para uma valorização dos produtos chamados orgânicos, bem mais caros e ainda não tão presentes nas gôndolas e prateleiras. Muitas vezes, o comprador quer pagar mais caro pelo produto que não tem agrotóxico, mas esbarra nas dificuldades de abastecimento das redes de supermercados. Não daria para tornar compatíveis a nova agricultura, o pessoal que sai das Escolas Agrícolas e o desejo do consumidor consciente?

Vale pensar que o Cariri continua a ser um oásis em meio a um Ceará alquebrado, a água ainda brota da Chapada do Araripe, ainda se cultiva cana-de-açúcar, numa deslocada zona da mata, e o fato destes problemas serem menores no sul do Ceará, não inibe uma reflexão mais consequente, envolvendo todo o Estado. Vale relembrar os mandamentos ecológicos do Padre Cícero, este homem visionário, cuja força se presentifica em todo este Vale.

O ARTIGO FOI PUBLICADO NA EDIÇÃO #11 DA CARIRI REVISTA, EM JULHO DE 2013

 

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