Arte e Cultura

No Cariri, artistas reinventam espaços de diálogo e produção cultural durante a pandemia. 

Por Carolina Barros • 20 de abril de 2020

A pandemia do novo coronavírus veio como um sobressalto na vida e no cotidiano das pessoas do mundo inteiro, acompanhada de uma crescente situação de caos. Isso porque a propagação acelerada da Covid 19  trouxe consigo uma sequência de acontecimentos estarrecedores que mais lembram os enredos das histórias de ficção científica.

Os impactos foram sentidos na saúde, na economia, em diversos setores, impondo aos indivíduos uma mudança de comportamento sob a ameaça de um colapso no atendimento da saúde somado a inúmeros riscos. O isolamento social, estratégia adotada pelas autoridades de governo para conter a disseminação do vírus Sars- CoV – 2, causador da enfermidade, tem sido uma realidade a qual muitos ainda tentam se acostumar, uma vez que o alastramento da doença já vítimou milhares de pessoas em todo o mundo, trazendo um misto de medo e incerteza junto a desafiante necessidade de enfrentamento e sobrevivência.

Com a quarentena, o fechamento de estabelecimentos comerciais, restaurantes, bares e demais espaços públicos acarretou perdas. Para os profissionais da classe artística, por exemplo, significou contratos rompidos, cancelamento de shows, adiamento de agendas, prejuízos.

No entanto, embora a necessidade de confinamento tenha restringido o espaço físico de trabalho, não anulou a capacidade humana de inventar, criar e produzir. O distanciamento provocado pelo isolamento social surtiu até, de certo modo, um efeito contrário, a medida que as pessoas se valem de outras formas de proximidade e contato.

A internet com seus recursos e ferramentas tem sido aliada neste contexto. No fazer artístico a relação com o público mudou. O ambiente doméstico substituiu os palcos e as aglomerações passaram a acontecer no meio virtual. Com a reconfiguração do cenário,  iniciativas de fomento no âmbito digital ganharam notoriedade e força, trazendo a proposta de levar entretenimento à população e o sustento à arte, durante o confinamento.

No Ceará, o edital Festival Cultura Dendicasa: Arte de Casa para o Mundo, abriu uma janela ampla aos profissionais nesta área. Publicado no final de março o edital está selecionando 400 projetos culturais e artísticos, com investimento total de um milhão de reais do Fundo Estadual de Cultura. Outras instituições públicas e também privadas aderiram à iniciativas semelhantes, como a campanha Tudo em Casa, lançada pelo Sistema Fecomércio, que através de entidades como o Sesc e Senac está ofertando entretenimento e conteúdo educativo para interação à distância.

A artista plástica Helaine Mendonça.

Atentos às novas perspectivas no Cariri, os artistas também estão se mobilizando e reinventando um jeito de lidar com a crise e conseguir fazer seu trabalho chegar até o público. A artista plástica juazeirense Helaine Mendonça diz estar produzindo mais neste período, experimentando novas técnicas e aproveitando para se reciclar com concursos na internet. Helaine conta ainda que tem investido em alternativas do comércio virtual e dialogado com outros artistas para viabilizar sites de vendas online, além de disponibilizar o acesso às peças que produz nas redes sociais, por meio do Instagram,  facebook e Whatsapp. A série Gonzagão e o Forró retratada em telas com pintura acrílica é seu mais recente trabalho. “Toda crise transforma. O primeiro momento é cheio de incertezas, mas aos poucos vamos assimilando a situação e buscando alternativas. Sou otimista e acredito na lei da sobrevivência, que nos impulsiona a lutar” enfatiza.

Renato Dantas

A ideia de adentrar e ocupar o cyber espaço vem sendo cada vez mais aceita entre a classe artística. O escritor e historiador Renato Dantas é mais um a experimentar a alternativa. No último dia 05 de abril ele adaptou um espetáculo teatral para exibição nas redes. Em uma live realizada da sala de casa interpretou  Recortes Poéticos e Históricos do espetáculo Cajuína.” Foi um desafio encaixar a obra em outro formato. Mas conseguimos fazer com que a apresentação chegasse aos lares e aos corações das pessoas. Neste momento de recolhimento a arte tem um papel fundamental de integrar, de irmanar e conectar a todos, trazendo mais leveza ao nosso cotidiano” destacou.

Os representantes da música tem se aperfeiçoado no uso da internet e com isso  aproveitado e explorado ao máximo as suas possibilidades. O produtor audiovisual e compositor da Green Valleys, Bruno Rass programou uma semana intensa de atividades artísticas diárias no seu perfil.

Na última semana de março, uma agenda  especial de eventos foi dedicada aos internautas. Com ensaios e gravações paralisados, a estratégia do grupo foi elaborar novas atividades. Cinco lives  reuniram rappers, DJs, MCs, produtores e músicos numa maratona de encontros virtuais, onde tiveram oportunidade de dialogar com o público sobre dicas de técnica vocal, informações sobre a história do RAP e sua relação com as questões sociais, além de  relatos sobre a origem e atuação da banda.

“Nossa proposta é não  parar de produzir. Estamos trabalhando para lançar a cada semana um novo material “explica o produtor.

Quando o assunto é usar a criatividade e driblar as dificuldades em época de quarentena o trabalho da musicista Maria Gomide é inspirador. Além de atuar como arte-educadora terapeuta, atriz, produtora entre tantas outras atividades, Maria está agora empenhada em seu mais recente projeto: o programa Utilidade Lúdica, exibido semanalmente na plataforma do YouTube,  através do canal da Carroça de Mamulengos, companhia parceira junto ao estudo Laborato. A proposta foi criar um espaço de interação e  divulgação para abordar temas de relevância na saúde de forma divertida. Em cena as apresentadoras são brincantes, doutoras em palhaçada, questionam e trazem ensinamentos sobre a importância de permanecer em casa durante a pandemia ou os cuidados para o fortalecimento do sistema imunológico através da alimentação.

“Acredito que a saúde perpassa pela arte. E as pessoas mais do que nunca precisam cuidar da saúde. Entendo que a arte seja fundamental neste processo” ressalta.

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