Arte e Cultura

Mulheres que ousam: empoderamento e luta pela equidade de gênero

Para finalizar o mês de homenagem às mulheres, trazemos hoje o último capítulo da série especial “Mulheres que Ousam”, onde apresentamos a história da delegada Déborah Gurgel. Dedicamos esse último capítulo à todas as mulheres que ousam lutar e ocupar o espaço que desejarem na sociedade!
Por Márcio Silvestre • 30 de março de 2020

Chegamos ao quarto episódio da série de reportagens sobre mulheres em profissões ainda hoje atribuídas aos homens. O termo “ainda hoje” relaciona-se ao fato de que historicamente às mulheres foi negada a profissionalização e mesmo uma formação acadêmica. Durante muito tempo, a sociedade lhes atribuiu as funções de cuidar da casa, do marido e dos filhos. Apenas em 1887 o Brasil teve a sua primeira mulher graduada no ensino superior, ano em que Rita Lobato Velho Lopes tornou-se médica pela Faculdade de Medicina da Bahia.

A equidade de gênero no mercado de trabalho ainda é uma questão que precisa ser mais discutida e exercida. Em 2018, o relatório publicado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF), estipula que no ritmo atual, as desigualdades entre homens e mulheres na maioria das áreas (política, educação e saúde) não serão eliminadas antes de pelo menos 108 anos. E também levará 202 anos para reduzir a diferença no mercado de trabalho.

A nossa entrevistada desta semana foi a Delegada Déborah Gurgel. Formada em Direito, aos 22 anos, pela Universidade Regional do Cariri (URCA), ela buscou através do estudo o crescimento profissional e a consolidação de uma carreira. A partir daqui, Déborah nos conta sua árdua trajetória até chegar à Delegacia de Defesa da Mulher de Juazeiro do Norte, a maior Delegacia da Mulher do interior do estado:

“Estudar para ter liberdade”

Dentre os diversos ensinamentos valiosos da minha mãe, um deles foi estudar para ter liberdade e independência financeira, e é o que eu desejo a todas as mulheres e a todas as pessoas, pois no nosso caso, somente através da educação poderíamos vencer. Minha mãe venceu, saiu do sertão, foi professora e funcionária pública federal. Ela investiu nos nossos estudos. Formou as quatro filhas, todas aprovadas em concursos públicos dentro de suas áreas de atuação.

Delegada Déborah Gurgel em seu gabinete na DDM de Juazeiro do Norte. Foto: Márcio Silvestre.

Aos 16 anos passei no vestibular para cursar Fisioterapia na Universidade Federal da Paraíba. Mesmo com uma vontade imensa de sair da dependência dos meus pais, conhecer outros lugares, pessoas e culturas, optei por ficar na minha terra natal e cursar a Faculdade de Direito, o que poderia me proporcionar mais segurança em longo prazo.

Ainda na universidade, depois de realmente me apaixonar pelo curso de Direito, passei a conciliar os estudos da graduação com os estudos para concurso público, pela segurança e estabilidade que o cargo público nos proporciona. Fui aprovada em 1º lugar para o cargo de Oficial de Justiça Avaliador na Comarca de Crato, onde trabalhei por seis anos no Juizado Especial Cível e Criminal. O cargo também contava com a presença preponderante do sexo masculino, mas onde fui muito bem recebida e acolhida pelos magistrados, promotores de justiça, serventuários e por todos os amigos oficiais de justiça.

Após alguns anos, senti a necessidade de fazer mais pelas pessoas e voltei a estudar para concursos. Entrei na Academia de Polícia Civil do Estado do Ceará, que funciona como uma etapa do concurso; eliminatória e classificatória. Todas as fases do concurso exigiram muito estudo, preparação, foco e disciplina. Fiquei na 13ª colocação final e pude escolher a cidade que pretendia trabalhar. Optei pela cidade de Crato, cidade encantadora, que tenho lembranças especiais do tempo da faculdade e do trabalho como Oficial de Justiça.

Luta em defesa da Mulher

Passei dois anos como Delegada Municipal de Crato, onde iniciei uma nova jornada, árdua e desafiadora, passei a trabalhar com violência doméstica e familiar contra a mulher. Essa experiência me despertou surpresa, já que felizmente não fazia parte da minha realidade pessoal, e indignação ao ver tantas mulheres sofrendo os mais diversos abusos e violências dentro de seus lares pelas pessoas que prometeram amá-las.

Em 2019, Déborah completa 10 anos como Delegada de Polícia. Foto: Arquivo Pessoal

Em seguida, fui convidada para assumir a Titularidade da Delegacia de Defesa da Mulher na minha cidade natal, Juazeiro do Norte. Estou desempenhando as minhas funções, com muito amor, há oito anos. Em 2019, estou completando dez anos como Delegada de Polícia. Sou uma mulher realizada, feliz por todas as batalhas que vencemos, mas também ciente da longa estrada que temos pela frente, dos diversos obstáculos que temos para enfrentar e superar.

Nossa luta pela desconstrução da desigualdade de gênero e pelo fim da violência contra a Mulher é diuturna e começa na nossa casa, no tratamento igualitário dos nossos filhos e no convívio respeitoso com o parceiro; assim como nas escolas com educação para todos sobre valores como empatia, igualdade, respeito e fraternidade.

Empatia e Dedicação para transformar a realidade de muitas mulheres

Muitas são as nossas conquistas, de todos os Policiais e profissionais que passaram pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Juazeiro do Norte: a diminuição dos casos de feminicídios, a responsabilização criminal dos agressores, orientações e encaminhamento das vítimas para os diversos órgãos que compõem a rede de enfrentamento à violência contra a Mulher. Contamos ainda com atendimento especializado das vítimas especialmente realizado por Policiais do gênero feminino, escrivãs e inspetoras, inclusive a Chefia de Cartório e da Inspetoria é feita por grandes mulheres que muito nos auxiliam no desenvolvimento do nosso trabalho.

“Nossa luta pela desconstrução da desigualdade de gênero e pelo fim da violência contra a Mulher começa na nossa casa”, Déborah Gurgel. Foto: Arquivo Pessoal.

O trabalho em uma Delegacia Especializada de atendimento a pessoas vulneráveis como crianças, idosos e mulheres não se restringe à atividade policial. É necessário todo o rigor na investigação dos crimes e na responsabilização do agressor. Trabalhamos também e sobretudo com questões emocionais e sociais que demandam a atuação do Estado com a implementação de políticas públicas, e dos seus agentes requer também sensibilidade e empatia, escuta ativa e a força necessária para não chorarmos junto com a vítima, ao contrário disso, precisamos auxiliá-la na retomada de sua autoestima e na reconstrução de sua nova vida.

É revigorante darmos uma resposta à sociedade, às famílias e às mulheres com o nosso trabalho, com a prisão do agressor, com a devolução de bens subtraídos da vítima, com a entrega de um filho, o afastamento do agressor da residência com o retorno da vítima e de seus filhos, isso lhes devolve a esperança, a encorajam a romperem o ciclo da violência, lhes proporcionam condições para reestruturarem suas vidas e reconstruí-las com dignidade, serem de fato donas de seus destinos.

Lugar de mulher é onde ela quiser!

Treinamento de tiro. Foto: Arquivo Pessoal.

A mulher ocupa cada vez mais o seu espaço, conquistando cargos e posições onde antes predominava a atuação dos homens, mostrando que independente de condição de gênero, possui capacidade para atuar aonde desejar. Na estrutura da Polícia Civil no Ceará temos exemplos de grandes mulheres sendo Delegadas Regionais e à frente de várias delegacias especializadas e diretoras de departamentos. Mas sabemos que os cargos de liderança, os altos cargos, ainda são ocupados em sua maioria por homens, e que na iniciativa privada a mulher ainda recebe salários menores mesmo realizando as mesmas funções que os homens.

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Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".