Artigos

Meu gênero pertence ao seu? O encontro com o primeiro transhomem do Brasil

Por Redação Cariri • 28 de fevereiro de 2019

Por João Leandro & Tayronne de Almeida.

 

Foi em uma dessas palestras que quando universitários frequentamos. Passando pelos corredores da então universidade que fazia parte, na parede, estampado estava o convite para naquele dia, no auditório daquela instituição, o lançamento do livro do primeiro transhomem brasileiro. Extremamente assustado por não estar tão inserido naquela relação de informação, fiquei curioso e fui para o auditório. Fiquei bastante nervoso e então meu coração palpitava, a boca ficou seca e as mãos geladas… que sensação estranha! Me levantei antes do então convidado chegar e fui beber água, quando do meu lado um senhor de bengala, meio corcunda e com uma voz tremula fala em seu telefone. Entendi que ele falava com sua esposa e compartilhava que aquele dia era um momento único porque estava pela primeira vez no Nordeste e que aqueles “meninos”, universitários iriam aprender coisas que nunca tinham visto antes.

Dentro das salas trancadas e cheias de teorias aprendemos que o conceito de gênero denota uma diferenciação. É exposta todos os dias que a lógica ocidental tradicional funciona como uma divisão binária, ou seja, que se divide em dois opostos: masculino x feminino, macho x fêmea ou homem x mulher.

Mas todo o processo de construção, de pertencimento expõe que o sexo não determina por si só a identidade de gênero ou a orientação sexual de uma pessoa, deixando claro que a experiência humana nos mostra que um indivíduo pode ter outras identidades que refletem diferentes representações de gênero (como os transexuais e transgêneros) e que não se encaixam nas categorias padrões. Um dos grandes destaques dessa real mudança cosmopolita é o Facebook que passou a oferecer mais de cinquenta opções de termos para classificar gêneros. É possível ainda escolher por qual pronome você deseja ser chamado, “ele”, “ela” ou “neutro”.

Psicólogo e escritor transexual João W. Nery, primeiro transgênero masculino a ser operado no Brasil, em redesignação sexual feita no ano de 1977, enfrentou câncer cerebral estágio 3 aos 68 anos. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Então o orador do evento chama o convidado daquela noite, que para me deixar mais nervoso, era o então senhor que estava ao meu lado no bebedouro, nesse momento fico mais perplexo, pois foi ali, exatamente, que todas as teorias que meus pais, meus colegas, meus professores, jornais, revistas, meios de comunicação em geral caíram por terra, imediatamente pensei e percebi: o mundo mudou e eu preciso mudar! Quando o convidado fala: “O gênero refere-se à identidade com a qual uma pessoa se identifica ou se autodetermina; independe do sexo e está mais relacionado ao papel que o indivíduo tem na sociedade e como ele se reconhece, e eu me reconheço como transhomem”. Mais um choque de conceitos e filosofias acontece naquele dito minuto e um filme começa a passar no meu pensamento e me questiono:  passei a vida toda achando que tudo que mudava de sexo era transexual, como pode aquele homem, que era mulher, hoje um senhor, se autodeclarar TRANSHOMEM?

Sua palestra demorou uma hora e meia, uma aula, uma história, uma lição de vida. Ao término comprei seu livro, ele o autografou e eu passei noites e noites lendo o que tinha escrito ali. Após a primeira leitura, fiz outras e outras e percebi muita coisa que não tinha percebido mesmo com pós-graduações, cursos e palestras infinitas que já tinha assistido. A primeira coisa que aprendi é que gênero, tem muito a ver com respeito e, se como Ser Humano eu compreendesse a simbologia por completo desta palavra eu entenderia tudo o que ainda estaria por vir.

João Nery mostra os livros “Viagem Solitária” e “Vidas Trans – a coragem de existir”. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil).

“Não sou nada místico. Não fui criado em religião nenhuma. Eu não tinha essa noção de pecado, então, nunca senti culpa pelo que eu sou. Mas também não tive as bengalas místicas que às vezes fazem falta”. O nome do livro é Viagem solitária, o primeiro transhomem do Brasil, é João Nery e em sua última mensagem nas suas redes sociais, continua a me tocar, ele diz:“Não se acovardem. Ser o que somos não tem preço. Viver uma mentira nos enlouquece”.

Às vezes a teoria enjaulada nos torna refém, refém de crenças malditas e inexistentes, e uma delas é a da burrice.

_______________________________________________________________________________
Esta é uma coluna de opinião. As informações e ideias expressas neste espaço são de responsabilidade única do autor.

 

 

 

CATEGORIA:

Redação Cariri