Arte e Cultura

Memórias do meu Cariri: Praça da Sé e o nascimento de uma cidade

A CARIRI Revista inicia hoje a série Memórias do meu Cariri, contando um pouco da história de um importante espaço tido como embrião da cidade de Crato, o Jardim Frei Carlos Maria de Ferrara, popularmente chamado de Praça da Sé.
Por Márcio Silvestre • 7 de fevereiro de 2019

(Praça da Sé. Foto: Mário Santos)

Tema de música no Festival da Canção do Cariri de 1973, a Praça da Sé carrega memórias e constitui a alma da cidade, sendo cenário da catequização dos índios, revoltas republicanas, surgimento do primeiro cinema do interior do Ceará e ponto de encontro de diversas gerações. Aos olhos dos apressados, pode parecer apenas um lugar agradável, sombreado por oitizeiros antigos e onde se encontra o melhor filhóis da cidade. Para o compositor Luiz Vieira é a eterna praça das ilusões, para nós da CARIRI Revista foi o berço do Crato e marco importante para a região do Cariri.

Foto antiga da Igreja da Sé (Reprodução)

A cidade do Crato teve início com a Missão do Miranda, movimento missionário dos frades Capuchinhos de Recife, cujo objetivo era catequizar e civilizar os povos indígenas da tribo Cariri. O Frei Carlos Maria de Ferrara , foi um dos frades que participaram da missão, ele esteve à frente da construção do primeiro templo católico, erguido em 1745. A área foi cedida pelo Capitão-Mor Domingos Alvares de Matos e sua esposa Maria Ferreira da Silva e a igreja dedicada a Nossa Senha da Penha de França, atual Padroeira. Foi nessa igreja, hoje catedral, que em 1871 Padre Cícero Romão Batista, recém-ordenado, celebrou sua primeira missa.

Outro importante equipamento, erguido na praça durante o segundo império, foi a Casa de Câmara e Cadeia, construção típica da época, encomendada por Dom Pedro II e que funcionava, de acordo com o Historiador Rick Seabra, como um programa de aceleração e desenvolvimento. “Foram construções espalhadas pelo Nordeste, constituídas pela cadeia, com paredes bem grossas, no piso inferior e em cima a sala dos juízes, Assembléia Legislativa e posteriormente Prefeitura. Esse prédio deixou de ser cadeia mais ou menos em 1969, ou seja, muita gente ainda hoje tem recordações dos presos pedindo esmolas e cachaça pelas janelas do piso inferior”, informa Rick.

Cartaz do Museu de Arte Vicente Leite, em Crato (Reprodução)

Hoje o prédio abriga o museu de arte Vicente Leite, fundado em 1972. O museu foi idealizado pelos jovens Bruno Pedrosa e Edilma Saraiva, contando com a ajuda de artistas como a pintora Sinhá D’Amora e a escultora Celita Vaccani, que foram as primeiras benfeitoras do museu, doando parte importante do acervo. Leia mais sobre o Museu de Arte Vicente Leite, no Link.

 

Revolução Pernambucana

Ao lado esquerdo da igreja, em frente à praça, se encontra o busto de Bárbara de Alencar, situado exatamente onde existiu, no século XIX, sua casa. Junta com os filhos José Martiniano de Alencar e Tristão Gonçalves, Bárbara lutou pela independência do Brasil, na Revolução Pernambucana e Confederação do Equador. Segundo o Historiador e Radialista, Humberto Cabral, ela foi a primeira presa política do Brasil.

“Foi em um domingo, no dia 03 de maio 1817 que a Revolução Pernambucana chegou ao Crato. Após a missa, José Martiniano de Alencar, pai do Romancista José de Alencar, proclamou a independência e a república do Brasil, na Praça da Sé. O Crato foi pioneiro por que proclamou a independência, 5 anos antes de Dom Pedro e 72 anos antes do Marechal Deodoro da Fonseca”, destaca Humberto Cabral.

A empreitada, no entanto, não passou do dia 11 daquele mês, como explica a Professora Icleide Viana, no livro “200 anos da República da Família Alencar na Cidade do Crato”. A autora aponta a falta de apoio das demais vilas da província, como o responsável pela destruição do movimento. Para Icleide, a história da região ainda precisa ser mais divulgada e pesquisada, pois o Cariri tem uma fonte extensa de memória histórica e cultura pulsante.

Fachada da antiga fachada da casa de Bárbara de Alencar (Acervo Antonio Vicelmo)

Primeiro Cinema do Interior

Hoje algumas lojas de diferentes segmentos do comércio, ocupam a pequena galeria ao lado dos quiosques de lanche da Praça da Sé. Neste local foi inaugurado, em 03 de junho de 1911, o Cinema Paraíso, o primeiro do interior do Ceará, segundo o Cineasta Jackson Bantim (Bola). “A cidade, na época, só tinha o hábito de ver as projeções de Luiz Gonzaga de Oliveira, aos sábados no Clube Romeiros do Porvir. Aqui foi a primeira experiência de cinema comercial”, explica Bola, sobre o local, que também sediou a Biblioteca Municipal do Crato, anos mais tarde .

O bem-estar e a importância da praça pública vão além do aspecto paisagístico e ambiental. É de fato um lugar de memória social, encontros, convivência e manifestação popular. Esse foi o primeiro Memórias do meu Cariri, um lugar para apresentar a história e ampliar os olhares para os centros urbanos e turísticos da região.

Praça da Sé. Foto: Mário Santos

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Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".