Arte e Cultura

Memória Seletiva

Nossa Coluna Retrospectiva desta semana relembra uma crônica escrita pela atriz Virginia Cavendish, contando algumas lembranças do período em que atuou em O Auto da Compadecida, experiências na região do Cariri e no sertão nordestino. O texto foi publicado na 22ª edição de nossa revista impressa.
Por Redação Cariri • 29 de novembro de 2019

Por Virginia Cavendish.

Já se passaram muitos anos que vivi o Sertão… e esse convite da CARIRI Revista para escrever algo sobre minha experiência na época do Auto da Compadecida me fez passar a semana relembrando tudo que vivi naquele período.

Confesso que minha memória é bastante seletiva e quase sempre esqueço das coisas vividas. Acho que é uma forma de proteção. Mas não esqueço de tudo. Sobram os momentos que se impõem por sua força e natureza. Um deles foi essa viagem que fizemos de carro em busca de locações para o Auto da Compadecida.

Começamos no Crato, onde ficamos alguns dias conhecendo a região. Nossa saída da van foi na casa de Violeta Arraes, que também nos acompanhou nessa viagem. Violeta Arraes nessa época era reitora da Universidade Regional do Cariri. Fomos eu, Guel Arraes, nossa filha Luisa, Violeta e Lia Renha, que fez  a direção de arte do filme.

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Na casa de Violeta Arraes e Pierre Gervaiseau, no Crato, Virginia Cavendish, Guel Arraes, Luisa e a diretora Lia Renha se preparam para sair em busca de locação para O Auto da Compadecida

Nosso destino seria ir do Crato a Recife, passando por diversas cidades e tendo como ponto de descanso a fazenda de Ariano Suassuna em Taperoá. Passamos por Barbalha, Nova Olinda, Juazeiro do Norte. O Cariri nessa ocasião me pareceu uma terra de fantasia. Eu achava incrível e surpreendente aquele Oásis no meio do Sertão. Quando fui ao museu de Paleontologia de Santana do Cariri e fui informada que o dinossauro do filme do Spilberg tinha sido descoberto lá, o mais feroz de todos os dinossauros, do qual quase morri de medo assistindo no cinema, daí tive a certeza que estava no mundo da fantasia. Achei muito surpreendente. Também quando, andando no meio das pedras e da terra, encontrava fósseis de peixes. Eram abundantes, não eram poucos. E não foi uma única vez. As pessoas lá usam como peso de portas!

Não lembro de forma alguma a ordem das cidades que percorremos nem de todas onde fomos. Sei que ficamos no Crato uns dias conhecendo as cidades em torno da região. Conhecemos Cabaceiras, que por fim foi a cidade escolhida para representar Taperoá no filme. De Taperoá lembro da sua igreja e um cachorro que atravessava a rua. Mais ninguém. Uma cidade vazia.  Mas acho que era feriado no dia em que estávamos lá. Foi muito importante ter conhecido a cidade que o Ariano Suassuna escolheu para situar a sua peça.

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Na fazenda do Ariano chegamos tarde e muito cansados. Comemos uma ceia, conversamos um pouco e fomos deitar. Na manhã seguinte seguiríamos para Recife. Porém, antes de chegar na fazenda, no final do primeiro dia de viagem, a noite já estava alta no céu e nós não chegávamos NUNCA.  Nessa época não lembro da existência de celular, se existia, não pegava e nós ficamos assim perdidos por um bom tempo. Lembro do silêncio dessa noite, desse momento. A Luisa dormia, cada qual no seu mundo. Cansados já de tantos lugares vistos. E aquele céu deslumbrante em cima de nós.  Leve. Imenso. Silencioso. Paramos alguns instantes só para olhar aquilo.

E aquele céu, naquela noite no meio do Sertão, aquela grandiosidade, eu trago comigo. Inesquecível dentro de mim.

Fotos: Arquivo pessoal/Virgínia Cavendish

 

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