Grandes Caririenses

Marquise Branca, a Vedette do Juazeiro

Para muitos juazeirenses, Marquise Branca é apenas o nome de um teatro da cidade. Poucos sabem a história dessa atriz da terra, que brilhou como vedete para todo o país.
Por Redação Cariri • 11 de fevereiro de 2019

Foto: Acervo Família Brasileiro

 

Por Roberto Júnior

Eu nasci e cresci próximo à linha férrea, por onde eu fazia um longo trajeto até a escola. Três coi- sas me chamavam a atenção: a Cariri Indus- trial de Óleos — na época já desativada —, as locomotivas da CFN — que passavam “cuspindo fogo”, tracionando aquela imensidão de vagões —, e um prédio rosa que durante longos meses foi uma grande incógnita para mim, até que um dia “aprumei a vista” e consegui ler: “Teatro Marquise Branca”. Os anos passaram e a dúvida persistiu. Quem foi Marquise Branca? É uma pergunta que muita gente na região ainda hoje se faz.

Nascida em 6 de dezembro de 1910, em Triunfo, Pernambuco, Albertina Brasileiro, filha de Henrique e Olegária Brasileiro, traria ao Brasil grandes contribui- ções na área artística e, para a cidade de Juazeiro do Norte, grandes referenciais.

A família, que teria chegado aqui por volta de 1915, era conhecida na cidade por manter uma pensão no centro, situada na Rua do Cruzeiro, no meio do quar- teirão entre as ruas São Pedro e Padre Cícero, mais ou menos onde, hoje, temos as Lojas Americanas.

Desde criança, Marquise demonstrava talento para as artes cênicas, talvez uma herança de família, pois o pai, Henrique Brasileiro, ainda na década de 1940, aparecia nos periódicos da cidade, os quais exaltavam seu senso aguçado para composições de rimas e poemas. Em 1925, a caminho de completar 15 anos, Marquise participou do Bloco das Bananas, no primeiro carnaval de Juazeiro, organizado por Floro Bartolomeu da Costa.

Em 1927, a região inteira festejou a chegada da Companhia de Teatro Conceição Ferreira, que teria entre seus membros nomes já afamados no país e também na América do Sul, como Conceição Ferreira, Affonso Moreira e Aloísio Campelo, que se casaria com Irma Brasileiro, irmã de Albertina.

Uma vez terminada a temporada na região, era a hora de a companhia partir. Irma acompanhou o marido e a irmã Albertina também seguiu viagem. Do cunhado receberia o nome de Marquise Branca, e a partir daí teve seu debut em Iguatu e uma noticiada turnê em Fortaleza — a serviço da Emprezza Cine-Theatro Glória —, seguin- do para Sobral. Lá, na edição de 7 de janeiro de 1928, o periódico A Ordem noticiou: “A tarde hontem chegou, nesta cidade, a applaudida Companhia Conceição Fer- reira”, que já teria Marquise escalada entre os artistas que encenariam mais tarde a comédia Pella Gatos e a revista É Canja, ornada em 12 números de música, tudo isso no Theatro São João.

Cartaz preservado na Biblioteca Nacional

Essa passagem seria importante para a jovem atriz, pois esta foi a primeira crítica jornalística sobre Marqui- se de que se tem conhecimento. Nela o autor expressa encantamento com o nome e a beleza da moça, porém ressaltava que a ela faltavam ainda os “segredinhos de palco”, que, segundo ele, seriam responsáveis por fazer a fama dos bons atores e atrizes.

Como resposta, Marquise daria a qualidade no palco. Foi vertiginoso seu crescimento profissional, tanto é que, após o casamento com o espanhol e companheiro de palco, Affonso Moreira, ocorrido em 6 de setembro de 1928, a atriz fundou, em 1929, ao lado do esposo e de Carlita Moreira, o Trio Marquise Branca, o qual foi bem recebido no Maranhão e em outros tan- tos estados do “Norte”, como era chamada toda essa porção do território brasileiro que hoje compreende as regiões Norte e Nordeste.

Porém, engana-se quem pensar que o sucesso da “maior sambista do Brasil” (como passaria a ser anunciada em jornais na década de 1930) se restringia somente às “partes altas” do país. O trio — que depois se tornaria uma companhia — fez diversas apresenta- ções por todos os estados do Brasil e excursionou pela América do Sul, tendo se estabelecido por algum tempo em Buenos Aires.

Passados os maus momentos, a década de 1950 seria marcante para a sua carreira. Na Rádio Tamandaré, do Recife, ela galgou espaço entre as atrizes de rádio e reacendeu seu nome. Era a época de receber home- nagens de novas companhias de teatro e de artistas em começo de carreira, que tinham Marquise como re- ferencial. Além disso, ela faria participações especiais em peças de sucesso e veria seu nome veiculado na recém-criada, mas muito badalada, Revista do Rádio. Seria também a fase de estabelecimento da Companhia Wilson Valença-Marquise Branca, a qual, segundo rela- tos da época, durou pouco tempo.

Foto: Acervo Família Brasileiro

Em 1957, teríamos as últimas peças com presença de Marquise anunciadas em rádios e jornais. Os anos seguintes de sua vida foram nebulosos. Pelo levan- tamento que pude fazer, a mesma revezava sua vida entre o Nordeste e o Sul, até cair no ostracismo e nos deixar em 22 de maio de 1965, no Rio de Janeiro, onde seria sepultada no Cemitério São João Batista. Segun- do Norma Brasileiro, única filha ainda viva, e alguns amigos que escreveram crônicas em sua memória, seus últimos anos foram difíceis.

Como legado, deixou os nomes da família Brasileiro e o da cidade de Juazeiro do Norte marcados no “hall da fama” nacional — e não somente ela, mas também alguns de seus irmãos e irmãs, como José Brasileiro, Irma Campelo, Leda Maura e Alberto Brasileiro.

Marquise foi, ainda, um exemplo de resistência, uma vez que o contexto social brasileiro, principalmente o caririense, era extremamente desfavorável à carreira artística — especialmente para as mulheres, que sofriam grandes pressões das famílias, que protestavam contra a escolha de se tornarem artistas.

Não sabemos se a esfera familiar de Albertina seguiu a regra, mas os julgamentos e até mesmo es- tatutos sociais de outrora eram inevitáveis aos nossos representantes na ribalta e em outras áreas. Eles eram aplaudidos nos palcos, mas vítimas de especulações em suas vidas privadas. A trajetória de nossos artistas, em especial os pioneiros, foi e é de muita luta por reco- nhecimento e respeito à profissão, envolvendo grandes vultos de nossa música, cinema, teatro, circo etc.

Para mim, a história de Marquise Branca traz gran- des exemplos, dentre os quais posso elencar o triste panorama da preservação de nossa memória. Muitas vezes me perguntei como alguém que fez tanto su- cesso e representou tanto para uma região possuía tão poucas fontes em sua terra, tendo eu recorrido a arquivos no Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Maranhão para enfim conseguir, junto a depoimentos de familiares e outros pesquisadores, sistematizar um discurso que passa ao largo do real reconhecimento que ela e outros tantos merecem. É tempo de resgate e preservação!

* Agradecimentos especiais a Zarly Alencar, Regi Belisario, Renato Dantas, Norma Brasileiro e todos que, direta ou indiretamente, tornaram possível esse princípio de pesquisa.

 

Redação Cariri