Arte e Cultura

Mãe: reflexo sem espelho

Pensar nessa série é pensar nas novas formas de enxergarmos as famílias. As mães e suas formas constituintes de serem como são. A sociedade está se transformando e isso também reflete na formação e manutenção das famílias. Neste sentido chegamos ao texto final da nossa série #ParaSempreMãe, com exemplos de mulheres que fazem da maternidade uma realização e missão divina. Boa leitura!
Por Redação Cariri • 29 de maio de 2019

Por Monike Feitosa.

Mãe solo

Muitas mulheres são “mãe solo”. Esse foi um assunto muito pedido pelos leitores e leitoras da nossa série “Para sempre mãe”. Entre tantas mulheres que precisam chefiar a família, trabalhar fora de casa, estudar e cuidar dos filhos, a pedagoga Iana Camila é a nossa homenageada.

Iana é mãe de Lucas Izael, hoje com oito anos. Passou por várias crises no casamento até que o ex-marido foi embora para o estado do Pará. A grande ajuda que tem na educação e nos cuidados do dia a dia com o único filho vem dos pais dela. A madrinha e alguns familiares do pai ajudam sempre que podem, mas a responsabilidade de ser “pai e mãe” presente é dela.

 

Iana Camila com o filho Lucas Izael. Foto: Arquivo Pessoal.

“Tento dar tudo que posso a ele. Escola, passeio, cuidados com a saúde, entretenimento, já que o pai mora longe. Eles ficam muito tempo sem se ver, mas se falam por telefone. Sei que Izael tem muitas carências de atenção e da presença do pai. É difícil demais criar filho sozinha. Não é impossível, mas é complicado suprir todas as necessidades e ter que trabalhar e estudar, já que também não posso ficar fora do mercado e tenho que estudar e me especializar”, afirma Iana Camila.

Família Monoparental

A Coordenadora do Instituto Brasileiro de Direito de Família no Cariri – IBDFAM, Mariana Pedrosa, relata que “no Brasil, uma significativa parcela da nossa população é constituída de famílias monoparentais, tendo como responsável, principalmente, a mulher”, destaca.

O termo Família Monoparental tem previsão constitucional (art. 226, § 4º, CF/88) e é aquela formada pelo pai ou pela mãe e seus descendentes. Ocorre quando os filhos vivem em companhia de apenas um dos pais, em razão de viuvez, adoção unilateral, produção independente, mães ou pais solteiros ou guarda unilateral no caso de pais divorciados.

A Coordenadora do Instituto Brasileiro de Direito de Família no Cariri – IBDFAM, Mariana Pedrosa. Foto: Arquivo Pessoal.

Dados do IBGE mostram que no Brasil, 13,9% do total de famílias brasileiras são Monoparentais. Se olharmos para dez anos compreendidos entre 1995 e 2005, o número de mulheres chefes de famílias monoparentais, cresceu de 17,4% para 20,1% no Nordeste e no Sudeste de 15,9% para 18,3%. Já as que são chefiadas por homens, o percentual é muito baixo; em 2004, o total de 17,7% de famílias monoparentais eram chefiadas por homens em oposição às 82,3% das famílias monoparentais chefiadas pelas mulheres.

“Entre 2005 e 2015, ou seja, passados 10 anos, o Brasil ganhou 1,1 milhão de famílias monoparentais, sendo a mãe com a sua prole. Em 2005 eram 10,5 milhões de famílias monoparentais, mulheres sem cônjuge e com filhos, e em 2015, apontam 11,6 milhões de famílias monoparentais”, conclui a Coordenadora do IBDFAM Cariri.

Mãe: reflexo sem espelho

Na última reportagem da nossa série, um desabafo engasgado há 34 anos. Conheça a história real e emocionante da minha mãe: Marli Ferreira, uma vendedora de loja que sozinha, criou dois filhos e cuidou de um terceiro. Ela é uma mãezona e vó exemplar!

A minha mãe não teve mãe presente. Aos dois anos de idade, ficou órfã e foi morar com parentes, madrinha, avô, madrasta. Sempre me perguntei como uma mulher tão forte e guerreira foi e é a melhor mãe do mundo sem ter tido espelho que servisse de reflexo?

Viagem em família Marli com a filha Monike e as netas Nicole e Manuela, em Campos do Jordão, SP.

Às vezes penso que minha mãe tem dois corações, um de cada lado do peito para caber tanta dedicação, amor, generosidade e altruísmo. Não conheço ninguém mais solidário com o próximo. Se ela puder, tira a roupa do corpo e veste não só os filhos, mas quem precisa.

Dedicação e Amor

Ela não teve tempo de fazer faculdade porque casou, se mudou para Recife com meu pai e lá me teve. Meu pai tinha um bom emprego, mas com o tempo passou a agir com irresponsabilidade, o que a decepcionou muito. Ele foi se entregando ao alcoolismo e minha mãe decidiu voltar para Juazeiro do Norte, no Ceará. Em meio às crises do casamento ganhei um irmão, o Pablo. Quando eu tinha quatro anos e meu mano dois nossos pais se divorciaram de verdade, “de papel passado” como se dizia popularmente.

Ela adiou o sonho da faculdade e se dedicou à nossa criação e ao trabalho de vendedora numa loja de calçados, que virou nossa segunda casa. Como nem sempre tinha alguém para ajudar, muitas vezes eu tive que ser levada pro trabalho dela e assim, já gostando de trabalhar meu irmão e eu crescemos nesse universo.

A vida inteira a nossa mãe disse “Vão estudar, não quero ver vocês se matando no comércio”. De fato, sempre gostamos de estudar e trabalhar. Com 12 anos, eu já ajudava na oficina da antiga loja Suel Baby. Costurava laços na borda de vestidos uma vez por semana. Depois me tornei ajudante das professoras da educação infantil, no contra turno da escola onde eu cursava a sétima série. O meio salário que eu ganhava pagava minha mensalidade escolar e assim, minha mãe pagava apenas a quinta série do meu irmão.

O incentivo materno foi fundamental para nossa formação

O ensino médio nós cursamos na rede pública, no colégio Polivalente. De lá, ingressamos em faculdades públicas, minha mãe morria de orgulho ao dizer que seríamos os primeiros da família dela a ter “faculdade”. Porém, eu estudando Letras, na URCA Crato e meu irmão, Engenharia Civil no IFCE, mas ainda não era o que queríamos. Meu sonho sempre foi estudar Jornalismo. Até que fui embora pra Campina Grande, na Paraíba, após passar no vestibular e morei lá por cinco anos.

Trabalhei em farmácia, plano de saúde, cyber, vendia trufas na faculdade, até ter a oportunidade de estagiar com remuneração na área de Jornalismo (depois de vários estágios voluntários conciliando com os trabalhos que me sustentavam financeiramente). Como meus pais eram divorciados e não podiam me sustentar fora, era eu quem mandava de vez em quando uma ajuda para mamãe. Ela sempre fazia rifas com ajuda do nosso grande amigo dessa época, Cicero Galvão. Devo muito mesmo ao suporte que ele nos deu nessa fase difícil.

Quando as coisas melhoraram me formei e levei meu irmão para fazer cursinho na Paraíba, pois ele queria mesmo era a área de saúde. Nossa mãe concordou e não ficou só, trouxe o sobrinho neto para morar com ela, Leonardo (meu afilhado) que hoje está casado, é pai e mora em São Paulo.

Marli Ferreira com os filhos Monike e Pablo e a pequena Nicole, sua neta.

Deus preparou uma surpresa para minha festa de formatura. O reencontro dos nossos pais. Eles se viram, se olharam e se reaproximaram. Em menos de um mês, meu pai que estava divorciado por 20 anos e morando em Recife, veio embora para Juazeiro do Norte e minha mãe o recebeu de volta na nossa casa. Pena que as complicações renais fragilizaram tanto a saúde dele, a ponto de uma dengue no carnaval de 2010 o tirar de nós. Eu me revoltei com Deus até entender que tínhamos motivos para agradecer “os dois últimos anos de vida do meu pai foi com a família”.

Dificuldade e esforços 

Meu irmão biológico, Pablo, logo conseguiu emprego e assim como eu trabalhou em farmácia e óticas, até chegar ao melhor cursinho de Campina Grande: Colégio Motiva. Com ajuda de um amigo que trabalha lá, meu irmão foi empregado na biblioteca. Nos intervalos ele sempre estuda para o vestibular. Passou para Engenharia de Petróleo, mas queria cursos da Saúde. Até que em dois anos conseguiu entrar em Odontologia.

Minha mãe e eu ajudávamos a pagar as despesas do meu irmão. Quando passou no concurso da Guarda Civil, buscando ganhar mais e ter estabilidade, o curso de formação de três meses atrasou a faculdade dele por dois anos. Em vez de se formar em cinco anos, se formou em sete, mas conseguiu. Não pôde ter festa de formatura, mas participou do ato ecumênico.

Agenda cheia na melhor idade

A minha mãe é incrível e não para. Após a morte de meu pai ela nunca mais casou e decidiu que era hora de cuidar dela já que os três filhos estavam encaminhados na vida. Eu era professora da Unileão e descobri que lá tem o projeto da Melhor Idade. A minha mãe ingressou na faculdade e dois anos depois teve baile de formatura com direito a diploma e valsa.

Hoje ela tem uma agenda cheia, faz parte do projeto TSI do Sesc, e está na hidroginástica, pratica dança, canta no coral e ainda me ajuda com as minhas princesas Nicole e Manuela, nas horas “vagas”.  Sou grata a Deus pela mãe presente que tenho.

Marli Ferreira não para! Sua alegria e amor pela vida são reflexos na vida dos filhos e netos.

A maternidade em minha vida

Agora, é hora de contar um pouco da minha história que se mistura com a da minha mãe!

Como eu tive esse espelho e queria que fosse reflexo para nossa geração continuar, casei e dois anos depois, o marido e eu decidimos sermos pais. Quando fomos ao médico fiz bateria de exames pré-gestacionais e descobrimos que eu teria dificuldade para engravidar devido a um problema de saúde. Foi um ano tratando uma anemia, fiz promessa para Nossa Senhora, orei a Deus que me desse a oportunidade de gerar vidas e almas para Ele. No dia de Nossa Senhora Aparecida descobri que estava grávida de Nicole.

A maternidade em minha vida.

Antes de Nicole completar quatro anos, sem esforço ou planejamento nosso, nos planos de Deus, estava grávida de Manuela, a reconciliação da nossa crise anterior no casamento. Não entendíamos como tinha sido tão difícil “engravidar” de Nicole e tão fácil de Manuela. São propósitos de Deus que só o tempo é capaz de nos mostrar.

Minhas filhas nasceram e mudaram nossas vidas. Que experiência incrível, porém nada fácil para mães que precisam e gostam de trabalhar. Ainda mais eu que estava jornalista/repórter na TV Verdes Mares Cariri. Foram nove anos dedicados a esse emprego, sou grata. Os ciclos da vida estão vivos e mudam. Com quase oito meses da segunda filha eu pedi demissão da TV, abri uma empresa de Comunicação, Assessoria de Imprensa e Marketing e continuei ensinando nas faculdades onde já trabalhava.

Para Sempre Mãe

Gratidão a cada personagem, a cada mulher que nos mostrou um pouco da sua história para partilharmos nesse espaço. E não fica por aqui, a maternidade é entrega, doação, sofrimento, alegria, aprendizado diariamente! Não consigo mais imaginar minha vida sem essa experiência, porém, respeitemos a opção de homens e mulheres que não sonham e não pretendem ter filhos biológicos ou adotivos. O importante é buscarmos a paz e a felicidade para deixarmos nossa semente de alguma forma nesse mundo, às vezes doce, outras vezes cruel e preconceituoso. Qualquer que seja a sua vontade, sonho, projeto, lute de verdade pelo que você acredita!

O sucesso, na vida pessoal ou profissional, não vem sem dedicação e esforço! Se você acredita em Deus, entregue sua vida, seu caminho, suas dúvidas e vontades. Ele é o melhor guia espiritual.

Abraços e até a próxima!

Fotos: arquivo pessoal.
Sobre a autora:

Monike Feitosa é jornalista, assessora de imprensa, empreendedora, professora de Jornalismo (UFCA) e de Marketing (FAP). Atualmente atende no estado do Ceará e trabalha com a produção de conteúdo para imprensa. No mês de maio ela está assinando a série especial “Para sempre #MÂE”, na Cariri Revista. Monike é filha, esposa e Mãe de duas princesas (Nicole e Manuela), a maternidade transformou sua vida.

 

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