Mostra Sesc 2018

Lua Luiz Gonzaga: uma celebração de sons e cores ao rei do baião

Espetáculo reúne memórias de nordestinos e desperta saudosismo no público
Por Bruna Vieira • 20 de novembro de 2018

A sanfona dá o tom na nota que puxa a zabumba, o triângulo e os demais instrumentos que sonorizaram a Praça da Estação, em Juazeiro do Norte na tarde da última segunda-feira, 19. Lua Luiz Gonzaga mistura artes cênicas com musical em uma linguagem lúdica para todas as idades. Uma festa de cores embalada pela trilha sonora comum a todos que assistiam ao espetáculo. As músicas do Gonzagão marcavam cada ato da apresentação intercaladas de forma instrumental, nas falas das próprias personagens ou mesmo em coro, na voz dos atores e do público, envolvido na narrativa da qual participava.

A sonoplastia trazia a narração de trechos de falas do próprio Luiz Gonzaga para dentro do roteiro da peça. O cenário, o enredo, todos minimamente produzidos para rememorar expressões do Nordeste: o chocalho do gado, o gibão, a sandália de couro, saias coloridas, a bacia de alumínio, os cestos de palha, o milho debulhado, as imagens de santos. Ecos de um passado que refletiam as lembranças de quem apreciava as histórias contadas ao vivo pelos artistas pernambucanos.

Foto: Anderson Duarte

O que todas as histórias tinham em comum é que todas as personagens viviam a espera da chuva e o retorno do rei, figura mística. Todas essas narrativas homenageavam de uma ou outra forma, o rei do baião. As formas de narrar eram múltiplas, perpassadas pela mesma linguagem poética. O “Velho Chico” era uma linha azul de areia colorida disposta no instante em que o público interagia com a atuação. Cenário montado em tempo real, mudando conforme cada cena. “Ai, ai, ai, o povo alegre. Mais alegre a natureza”, anuncia os versos de “A volta da Asa Branca”. Ao final, a chuva chegou naquele fim de tarde em que os termômetros marcavam 36º na terra do padre Cícero. Chuva provocada pelos borrifadores, que nem de longe, aliviaram o calor de novembro.

Histórias do interior, o São João da Roça, perda, vida e morte. Recontados com o humor e a sensibilidade do grupo Magiluth arrancavam risos gerais que transpunham os olhares encantados de pessoas como a dona Maria da Conceição “Impressionante, ainda não tinha visto um espetáculo igual a esse. É a primeira vez que assisti a Mostra do Sesc. É muito bom ver Luiz Gonzaga refletido dessa forma e dá muita saudade. Lembrei muito as quadrilhas da minha infância, as comidas típicas do São João”, rememorou a artesã.

Foto: Anderson Duarte

“O Cheiro da Carolina” era a alfazema que batizou a todos que estavam presentes e permitia a frequente utilização de trocadilhos com referências contemporâneas, como a “Carol Conká” e a “Karolina com K” de Luiz. “Foi uma das coisas mais lindas que já assisti nessa Mostra. É mágico, todo o processo traz uma beleza poética que é muito importante para todos, quem é de teatro e quem não é de teatro”, apontou o estudante de Teatro, Camilo Danilo.

Foto: Anderson Duarte

Olhares atentos e sorrisos abertos antecediam os aplausos aos oito artistas que montaram os fragmentos da dramaturgia que em sua primeira vinda ao Cariri, também foi prestigiado pelo público de Crato e Barbalha. O ator Fagner Fernandes, estava do lado da plateia buscando inspiração para quando subir ao palco. “Faço teatro na vida e não na graduação e estou me aproximando cada vez mais dessa arte. A Mostra traz muitos espetáculos para se inspirar. Este me recomendaram. Sabia que ia ser poético pela sinopse, e, também vim pela temática Luiz Gonzaga. É lindo, acontece na praça, envolve todo mundo que está passando, que nem sabe o que está acontecendo, mas vai participando de uma forma tão natural. Bonito de ver e sentir, gostoso, causa sensações. Mostra muito nossa cultura rica”, destacou.

O roteiro é do ator e dramaturgo Giordano Castro, de Recife. Ele explicou a gênese da peça. “O espetáculo nasce nas comemorações do Centenário do Luiz Gonzaga. Nossa ideia era falar dele a partir do imaginário que permeia toda a cultura nordestina. Luiz Gonzaga além da obra e do homem começa a fazer parte de cada uma das pessoas que nascem e vivem a cultura dessa região. Percebemos que ele fazia parte das memórias de cada história ligada ao interior, como paisagens sonoras. Misturamos várias linguagens com a maior quantidade de elementos que fazem parte da cultura daqui. O boneco parte da ideia do mamulengo, as músicas na forma original, com o trio. E metaforizamos algumas coisas, o liquido é areia. Uma licença poética para trabalhar a ideia da seca”, justificou.

Foto: Anderson Duarte

“Pense N’eu”, “Asa Branca”, “Assum Preto”, “Último Pau de Arara”, “A Morte do Vaqueiro”, “Olha Pro Céu Meu Amor”. Para Giordano, a parte mais difícil foi a escolha do repertório, que auxilia a contar a história. “Luiz Gonzaga faz parte de um patrimônio. Acho que ele não tinha ideia de como ia fazer parte da vida das pessoas, fortalecer e dar uma identidade a esse povo. O Cariri é uma região bem afastada das capitais, mas, tem muito a dizer a todo o Brasil, guarda riqueza cultural que não deixa a dever a nenhum outro centro, com artistas populares, reisado e Patativa, que é um dos  mais incríveis poetas do país”, concluiu.

 

 

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Bruna Vieira

Bruna Vieira

Bruna Vieira é mestra em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou como repórter, produtora, editora e âncora em Rádio, TV, Impresso e Online. Vencedora dos prêmios SBR Pfizer 2017 e 2016, Fenacor 2016 e Criança PB 2015. "Recontar histórias de vida, com sensibilidade e humanismo, porque o jornalismo também é feito de afetos".