Arte e Cultura

Lirinha: a chama acesa da criação

Comemorando 20 anos de carreira, nova turnê do Cordel do Fogo Encantado chega a Juazeiro do Norte
Por Bruna Vieira • 6 de fevereiro de 2019

Lirinha e o Fogo Encantado. Foto: Divulgação

 

Há exatamente 20 anos, Cordel do Fogo Encantado se revelou no Carnaval de Recife. Em nova turnê, após dez anos de pausa entre um disco e outro, o grupo traz seu show ao Cariri em fevereiro. O espetáculo “Viagem ao Coração do Sol”, uma jornada em busca da liberdade. O público caririense pode esperar muita poética metafórica numa produção com diversas participações de cearenses, como Fernando Catatau e Manassés. Elementos da cultura indígena e africana, a presença de entidades femininas e homenagens, como à vereadora Marielle Franco.

No próximo dia 23, a banda pernambucana de Arcoverde se apresenta na 3ª edição do Projeto Tem Disso Sim, promovido pela Betha Produções. O novo álbum, quinto da carreira de José Paes de Lira (Lirinha), Clayton Barros, Emerson Calado, Nego Henrique e Rafael Almeida traz pela primeira vez, composição de artista que não faz parte da banda.

Em entrevista exclusiva à CARIRI Revista, Lirinha, vocalista do grupo, revela o caminho percorrido após o despertar do profundo sono (oito anos longe dos palcos), mas, com o fogo aceso na criação de novas canções.  Cordel do Fogo Encantado nasce com a linguagem da literatura, porém, transita em diversas artes, como o cinema. Presentes nos filmes “Deus é brasileiro” e “O homem que engarrafava nuvens”, o grupo se prepara para uma nova produção em audiovisual.

Lirinha, radicado em São Paulo, mas, na ponte aérea com Recife e Arcoverde, fala sobre o papel da arte e ao final você confere uma playlist especial que a CARIRI preparou. “O mundo agora é esse, o mundo que encontramos, precisamos falar com a filha do vento, a que chamam liberdade”.

Cordel do Fogo Encantado fará show no Cariri no dia 23 de fevereiro. Foto: Jonas Tucci/Divulgação.

CARIRI Revista: O que motivou o Cordel do Fogo Encantado a lançar um novo álbum após um hiato de quase dez anos (o grupo suspendeu suas atividades em fevereiro de 2010 e retomou sua criação em meados de 2017)?

Lirinha: Nós começamos a pensar sobre um retorno, uma volta do Cordel para alguns shows especiais que estávamos sendo convidados e aí decidimos que esse retorno seria fortalecido, seria mais nossa cara, nossa forma como trabalhamos se acontecesse com um novo trabalho, com uma nova mensagem. E foi muito importante esse tipo de decisão porque nos motivou, nos colocou numa poética do agora, das mensagens que precisávamos compartilhar com as pessoas que vivem esse momento do mundo. Acho que corresponde à palavra “fogo encantado” essa coisa de sempre estar aceso na criação e não fazer um retorno apenas na memória. Embora nós sabemos que a memória, a história da nossa banda também tem uma força enorme, uma força imensa. Os shows aconteceriam se fossem apenas voltados aos discos fases da banda, mas, de fato, vindo com esse trabalho novo nós nos colocamos de novo na atividade da criação e participamos da construção desse momento que vivemos como sociedade.

CR: Fernando Catatau, músico e compositor cearense, integrante do Cidadão Instigado, é o produtor do novo disco de vocês, “Viagem ao Coração do Sol”. Como surgiu essa parceria?

L: Era uma parceria que a gente sonhava em fazer. Todos os discos da banda foram produzidos por pessoas especiais pra gente. O primeiro, que a banda surgiu foi Naná Vasconcelos. O segundo foi produzido pela própria banda com seus técnicos, no caso Buguinha Dub e Ricardo Bolognine. O terceiro foi Carlos Eduardo Miranda que nós já tínhamos convidado para produzir também esse retorno, mas, devido a um desejo antigo da banda de trabalhar com o Catatau na produção e uma situação em que Catatau estava próximo de Recife nesse momento, porque estava em Fortaleza, nós decidimos fazer esse disco com o Catatau. E ficamos muito felizes e era tudo o que a gente sonhava em fazer. Teve um trabalho voltado para o violão de Clayton, por exemplo, que foi um grande aprendizado pra todos nós. E também construir esse trabalho junto com a sensibilidade dele, sem dúvida é um dos maiores produtores do país e uma pessoa que gosta muito de música. Então, o tempo que a gente passa juntos é de muito aprendizado. E Ceará participou bastante desse disco, porque Catatau produziu, Kalil mixou o disco e gravamos uma parte dele no estúdio em Fortaleza, de Kalil. Saímos de Recife, fomos pra Fortaleza, passamos uns dias a banda toda na cidade, foi ótimo. Ainda estávamos no sigilo, ninguém sabia e foi muito bom. E também participação de Manassés numa das faixas com instrumental com Clayton. Nós fizemos várias ligações com a arte de Fortaleza e do Ceará. Natali Rocha que fez comigo a poesia Eternal Viagem, é uma atriz aí de Fortaleza.

CR: “Viagem Ao Coração Do Sol” fala sobre vivermos acorrentados por todos os lados. Que correntes são essas?

L: As correntes que encontramos na nossa existência e que são o outro lado do que mais desejamos como ser humano, que é o exercício da liberdade. A liberdade dos nossos sonhos, dos nossos poderes, do nosso conhecimento,  das nossas artes, mas, de alguma forma essa liberdade que é possível ser conquistada individualmente, já conhecemos esse caminho, ela quando colocada numa sociedade, num coletivo, nós experimentamos várias formas de escravidão, várias formas de opressão e várias formas de correntes que dificultam a nossa evolução nesse caminho da liberdade.

CR: O álbum é apresentado sob muitas metáforas poéticas. O que elas representam?

L: É uma característica da poesia da banda, é um caminho que buscamos desde nosso primeiro álbum, a criação de imagens, através das palavras criar novos mundos das dimensões da imaginação, então foi essa decisão. A palavra “encantado” do título do grupo traduz essa nossa intenção desse lugar do mistério, da palavra metafórica.

Metáforas poéticas são a marca da banda pernambucana. Foto: Divulgação.

CR: Renascimento, revolução, dança nova, esperança. São referências ao próprio Cordel ou ao país?

L: Tem essa relação com o retorno da banda, tem esse jogo que a poesia possibilita que é falar sobre temas que podem ser também um depoimento dos nossos sentimentos. E tem essa relação total com o mundo que encontramos depois de oito anos de pausa. Então voltamos num mundo muito alterado pelas tecnologias, pelas redes sociais. O que a gente trabalha, música, como novas formas de distribuição, de compartilhamento. É isso, voltamos e desde a primeira faixa do disco que usamos uma imagem, uma ficção que estávamos no fundo da terra num profundo sono e quando saímos dissemos “o mundo agora é esse, o mundo que encontramos, precisamos falar com a filha do vento, a que chamam liberdade”. E a partir desse personagem, a filha do vento, nós fazemos todas as canções e segue uma tradição da banda, que é de contar uma história e nesse caso é a história dessa caminhada em direção ao coração do sol.

CR: O Cordel veio do teatro e usa a linguagem da literatura. A faixa “Força encantada ou Largou as botas e mergulhou no céu” foi composta para o filme “Largou as Botas e Mergulhou no Céu”. Vocês já tinham feito trabalhos para o cinema antes? Como foi entrelaçar esses dois tipos de arte?

L: Nós fizemos trabalho para um filme chamado “Deus é brasileiro” de Cacá Diegues, compusemos uma música especial para esse filme, chamada de “Anjos caídos”. A nossa música participou de algumas trilhas, fizemos o documentário “O homem que engarrafava nuvens” sobre Humberto Teixeira, documentário de Lírio Ferreira. E cada integrante tem de alguma forma uma vida ativa nessa relação com o cinema, é uma característica do cinema geralmente cruzar com os compositores da época em que esse cinema está sendo feito, com as bandas. Então, é um casamento que sempre aconteceu e que cada geração vive seus filmes com a trilha daquele momento.

CR: O disco traz elementos musicais africanos em “Conceição ou Do Tambor Que Se Chama Esperança” e indígenas, como as “maracas” na trilha “No Compasso Da Mãe Natureza ou O Amor, A Pureza e A Verdade”. Seria um mergulho em nossa ancestralidade e na própria origem do grupo?

L: Sim, isso é muito importante pra banda, buscamos uma música dos nossos profundos segredos, de cada integrante, cada um vive suas descobertas de ancestralidade e isso se reflete no nosso trabalho. Nós incentivamos na composição que se venham esses encontros pessoais com uma música que cada um tem, que cada um traz. Os músicos que compõem o grupo, todos eles têm uma história antiga, uma história forte com elementos da percussão que estão presentes nisso aí. Nego Henrique e Rafael Almeida são ogãs e são do terreiro do Morro da Conceição, cresceram num terreiro de umbanda da avó deles, dona Mira. E Emerson cada vez mais descobre sua historia sucuru, cada vez mais penetra nesse conhecimento de uma música muito antiga que chamamos indígena, mas que é muito ampla. A minha tradição por exemplo é ligada à poesia. Foi assim que eu comecei, declamando a poesia dos repentistas. É algo que a gente traz pra banda e acho que a força da banda tem muito a ver com isso.

CR: Ainda em Conceição, temos um coral de mulheres e o trabalho como um todo faz referência à figura feminina. Isso é proposital?

L: É, assim, uma das coisas que vivemos agora nesse retorno é o tema, uma denúncia que vem sendo feita a respeito da cultura do machismo que se mantém na nossa sociedade como estrutura de relação. E que de qualquer forma não podíamos retornar sem a observação disso né, uma banda composta por homens. Convidamos uma cantora de Pernambuco, Isadora Melo, ela representa uma nova geração que começou a cantar quando o Cordel parou. Então pra gente era muito importante isso. Ela praticamente nos conduz, inclusive ela abre o espetáculo, viaja com a gente. E os elementos femininos, tentamos mergulhar no nosso passado, na nossa estrutura de poesia da banda e trouxemos as entidades importantes. A Conceição que é em homenagem aos nossos dois percussionistas, que são do Morro da Conceição, uma homenagem também à avó deles. E que terminou por uma triste coincidência, lançamos no impacto da morte de Marielle. Desde então, dedicamos essa música à Marielle, a vereadora do Rio, assassinada. Esses elementos foram importantes na construção dessa turnê, eles nos guiam. E essa presença de entidades femininas na nossa poesia desse novo trabalho.

O encanto feminino nos palcos em “Viagem ao Coração do Sol”. Foto: Divulgação.

CR: Por que o single “Liberdade, a filha do vento” foi escolhida para abrir o álbum?

L: Porque é a personagem principal de todas as construções das canções, ela traduzia essa atmosfera do disco, foi por esse motivo.

CR: O que Naná Vasconcelos, homenageado postumamente no álbum em “Primeira Paisagem ou A Flor Molhada”, representa para a musicalidade brasileira?

L: Naná é um dos músicos mais importantes do mundo pela construção que ele fez no universo da percussão. A liberdade que ele se deu pra fazer uma música original, uma música própria e a força dele como potência artística. Um dos maiores, talvez um dos mais importantes nomes da música percussiva e também uma pessoa que quebrou as barreiras, construiu essa música percussiva com outros gêneros e transformou o trabalho dele num trabalho universal.

CR: Gostaria que você falasse um pouco sobre “Destilações”, que foi a primeira música de outros autores contemporâneos gravada pelo grupo.

L: Destilações é uma música que quando a gente estava pra voltar a banda, esse novo show, que a gente ainda não tinha anunciado, eu fui para um encontro de poesia em Petrolina e escutei um cantor chamado Maviael Melo cantando num almoço, numa mesa em que a gente estava. E eu achei que ela deveria fazer parte do que a gente estava construindo, estávamos procurando uma música de outro compositor pra também vir com o trabalho de alguém que não fosse do Cordel. Ele é um compositor do interior e a origem da banda é no interior. Então, a gente achou interessante, interior do sertão, do Nordeste. Aí eu levei pra banda a música, a versão dele e todo mundo curtiu. E a gente gravou a nossa versão que é bem diferente da dele.

CR: Já se vão quase 15 anos do único DVD gravado, o “MTV apresenta: Cordel do Fogo Encantado”. O grupo tem projetos para uma nova gravação em vídeo nesse formato?

L: Temos, a ideia é que essa turnê seja finalizada com uma gravação de vídeo também.

CR: Qual é o papel da arte em nossa atual sociedade, tão marcada por manifestações de intolerância?

L: O papel da arte sempre é o exercício do nosso sonho, a construção do impossível, de outras possibilidades, de novos mundos. É também, além disso, o testemunho, o depoimento, a memória e onde depositamos os nossos profundos segredos como sociedade e como cidadãos.

CR: Quais são os projetos do Cordel do Fogo Encantado para os próximos anos?

L: Vamos fazer essa turnê até agora o meio do ano, aí faremos algumas apresentações especias de comemoração dos 20 anos do surgimento da banda, que foi em 99. E aí vamos novamente fazer uma parada, não tão longa como aquela (risos), mas, para confecção de outro espetáculo, aí não temos uma previsão de retorno.

O novo show do grupo é permeado de homenagens. Foto: Divulgação.

CR: Em 2008, o grupo Cordel do Fogo Encantado esteve no Cariri realizando apresentação na Mostra Sesc. Você tem alguma lembrança desse show? Vocês já conheciam a região?

L: Tenho lembrança sim, é uma região presente na nossa história, tem uma ligação forte com um dos integrantes, Clayton. E também toda a história, um dos capítulos mais fortes da história da literatura de cordel se faz nessa região. Não só isso, como ainda hoje é um lugar especial, que guarda conhecimentos especiais sobre a nossa arte, a arte do nosso povo. Eu lembro da relação com Juazeiro, com Crato, com Barbalha, que fomos também uma vez um show numa festa na praça. E todas foram passagens inesquecíveis que fizeram a nossa historia e que a gente carrega.

José Paes de Lira (Lirinha), vocalista do Cordel do Fogo Encantado. Foto: Jonas Tucci/Divulgação.

Para entrar no clima do show, a CARIRI Revista preparou uma playlist especial no spotify, com o novo álbum do Cordel do Fogo Encantado. A playlist pode ser encontrada pelo nome “Viagem ao Coração do Sol, uma jornada em busca de liberdade” ou através do link.

https://open.spotify.com/user/s69epjgpt00445q64v8sffdhb/playlist/3qpoRn7RsDe1M7j81XgTTM?si=MCeMYH6CQzCYPa-lAFwo8g

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Bruna Vieira

Bruna Vieira

Bruna Vieira é mestra em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou como repórter, produtora, editora e âncora em Rádio, TV, Impresso e Online. Vencedora dos prêmios SBR Pfizer 2017 e 2016, Fenacor 2016 e Criança PB 2015. "Recontar histórias de vida, com sensibilidade e humanismo, porque o jornalismo também é feito de afetos".