Arte e Cultura

Leoni e George Israel se apresentaram em Juazeiro do Norte e falaram sobre arte e política em bate-papo no Sesc

Os artistas que seguem carreira solo se reencontraram no palco e relembraram sucessos do Kid Abelha
Por Bruna Vieira • 2 de dezembro de 2018

Foto: Bruna Vieira

Leoni e George Israel, ex-integrantes do Kid Abelha se reencontraram no Estacionamento da Música, em Juazeiro do Norte, na noite do último sábado, 01. A cada três meses, o projeto do Serviço Social do Comércio, Sesc, traz artistas de destaque no cenário da música brasileira a preços acessíveis. Os cantores que seguem carreira solo têm um repertório especial quando sobem ao palco juntos. Em bate-papo antes da apresentação, os artistas falaram sobre a situação política do país e os reflexos na arte. Um show que teve de tudo, do romantismo ao dancing.

O show foi aberto por Leoni que cantou músicas novas, além dos clássicos de sua carreira e um repertório especial de Cazuza. Em seguida, cedeu o palco para George Israel que abusou em performances com sua guitarra e o indispensável saxofone, levando o público ao êxtase. A festa foi encerrada com os dois juntos.

Primeira vez no Cariri

Bruna Vieira

Pela primeira vez em Juazeiro do Norte, Leoni encantou o público que cantou junto as baladas românticas que dominaram seu repertório. A cadência de “As cartas que eu não mando” deram o tom inicial da noite. Leoni fez o show apenas com seu violão. Continuando com os clássicos de sua carreira, o coro seguiu “Educação sentimental”. Em meio às selfies, como se dublassem retratos, os caririenses acompanharam “Dublê de corpo”, sucesso de Leoni com a banda Heróis da Resistência.

A emoção tomou conta quando os versos de “Os outros” ecoaram no espaço, armadilha da memória que recordou aos presentes as tantas noites em restaurantes e os melhores namorados. Centenas de estranhos de todas as idades e gêneros reunidos pela força inspiradora da música, uma das expressões artísticas mais democráticas. Rompendo a barreira entre o artista e o público, Leoni interagia com os caririenses que acompanharam a apresentação de forma descontraída, levando-os ao riso, intercalado com as emoções que foram ao ápice com “Temporada das flores”, letra que fala de saudade.

Os entusiastas do Pop Rock brasileiro foram ao delírio com a canção “Quase sem querer”, de Renato Russo, que antecedeu “50 receitas”, composição de Leoni em parceria com Frejat, outro ícone da música nacional. Nesse momento, os olhares mais atentos eram os de quem já tentou esquecer um grande amor das mais diversas maneiras. Em meio a esses sofridos corações, Leoni brinca que Juazeiro do Norte é quase a cidade do amor e cantou “Melhor pra mim” para os apaixonados, seguindo o movimento do espaço. As luzes do espetáculo confundem-se com o brilho das estrelas na noite que abriu o último mês do ano.

Encerrando o primeiro momento do show, não poderia faltar olhos, olhares e tentações com “Garotos”, uma das canções mais conhecidas do cantor. Leoni chama a banda e o parceiro de palco George Israel. Antes de sair, cantam juntos “Só pro meu prazer” e “Por que não eu”, em acordes refinados que lembram o blues e deixam os fãs entorpecidos com o som possante do sax de George.

“Que final romântico morrer de amor”

Bruna Vieira

Foi com esse refrão que George Israel agitou a plateia no início de sua apresentação solo. Contagiado pela energia das pessoas que pulavam a cada verso de “Sonífera ilha”, o artista desceu do palco sem parar de tocar o saxofone e atravessou a agitada multidão. Uma sequência de sucessos consagrados com o Kid Abelha arrancou aplausos intensos da multidão: “Rádio Blá”, “Na rua, na chuva, na fazenda” e “Eu tive um sonho”.

Imagens e registro não foram práticas exclusivas de quem assistia ao show, George Israel fez um vídeo enquanto cantava. Guitarra, baixo, bateria, sax e vocal atordoam o público que não queria que a brincadeira tivesse hora para acabar com a música “Puro êcstasy” mesclada com “País tropical”. Em seguida, “Solidão que nada”, primeira composição de George com Cazuza.

O cantor rememora de improviso “Grand’ hotel”, feita em parceria com Paula Toller e leva ao palco cinco pessoas da plateia para dançar “Te amo pra sempre”. “Do seu lado”, eternizada pelo grupo Jota Quest aqueceu a alma dos presentes quando os termômetros já estavam acima de 34º.

Sessenta anos de Cazuza

Márcio Silvestre

Leoni volta ao palco para a parte final do show, o dueto com George Israel. Viajando entre o presente e o passado, após “Fórmula do amor”, os artistas cantam “Noite perfeita”, parceria dos dois no período pós-Kid e voltam às antigas com “Alice (Não me escreva aquela carta de amor)”.

O momento mais aguardado pelo advogado Edson Ferreira era ouvir as músicas de Cazuza, que culminou com “Exagerado”. “Vim a convite de amigos, pelo repertório de Leoni e as músicas de Cazuza, que faria 60 anos se estivesse vivo. Suas poesias me remetem às épocas boas da vida e amores do passado. Esse projeto do Sesc é uma possibilidade em uma região com predomínio do forró, de experimentarmos a diversidade da boa música sem precisar viajar para outros lugares”, ressaltou.

Com o apelo do público, todos voltam ao palco. Leoni fala de sua parceria com Léo Jaime em “Uniformes” e o lançamento de “A fórmula do amor 2”. George comenta o trabalho “Flores e pedras”, com seu filho Fred Israel. E se despedem do público com “Brasil”, de Cazuza e “Fazer amor de madrugada”, a mais pedida. Leoni também desceu, causando euforia na plateia.

Ao final da apresentação, os comentários do público demonstravam satisfação com o show. Para a empresária Jéssica Lemos, que decidiu prestigiar o evento de última hora, as expectativas foram superadas. “Não me arrependi de ter vindo, gosto muito do Leoni e sempre acompanhei o Kid Abelha. O legado deles ultrapassou a minha geração. Foi muito bom”, apontou.

A arte da resistência

Bruna Vieira

Em bate-papo com a imprensa antes do show, Leoni falou sobre o papel do artista com a atual situação política do país. “É um papel de resistência. A gente está passando no mundo todo por um certo descrédito do conhecimento, da informação, da cultura. Essa ascensão da direita tem um pouco isso, o que importa é a produção, o trabalho, certa coisa moral que meio que criminalizou a gente. Os artistas nessa eleição eram considerados os vagabundos que mamam na Lei Rouanet, mesmo os que nunca usaram. As pessoas não sabem o quanto é importante a rede da cultura em termos de emprego. A música dá mais emprego que a indústria automobilística e ninguém vê problema em dar auxílios à indústria automobilística e são incentivos realmente grandes, a Rouanet é desse tamanhinho. Os artistas são importantes em termos de cultura, valor e de empregos.  Ninguém fez tanto pela língua brasileira quanto a música popular”, destacou.

George Israel avaliou o cenário musical brasileiro na contemporaneidade. “A gravadora tinha um papel importante, uma curadoria artística e hoje é só de dinheiro. As pessoas investem em shows que levam muita gente, é um círculo vicioso. Se for mais fundo sempre tem gente nova fazendo música e a internet não consegue ser uma coisa que chega a todo mundo. As pessoas buscam coisas que já conhecem, para conhecer algo novo precisa um espaço no rádio e televisão. A riqueza cultural nacional empobreceu um pouco”, elencou.

“Por outro lado na internet a cena é riquíssima, muita gente fazendo coisas diferentes e muitos acabam desistindo no meio do caminho, grandes talentos se perdendo. Você acaba escondido ao ar livre, lançou pra ninguém, está concorrendo com o mundo. O último CD que lancei foi em 2016. Você não tem um desafio de compor 10 músicas e gravar um CD, porque as pessoas não ouvem um CD inteiro. Eu não tenho onde tocar CD em casa, escuto na internet” – Leoni.

Assista um trecho do show:

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Bruna Vieira

Bruna Vieira

Bruna Vieira é mestra em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou como repórter, produtora, editora e âncora em Rádio, TV, Impresso e Online. Vencedora dos prêmios SBR Pfizer 2017 e 2016, Fenacor 2016 e Criança PB 2015. "Recontar histórias de vida, com sensibilidade e humanismo, porque o jornalismo também é feito de afetos".