Arte e Cultura

João Pedro do Juazeiro e do Mundo

Por Redação Cariri • 13 de maio de 2019

Por: Gilmar de Carvalho.
Reportagem publicada na edição 07 da CARIRI Revista.

 

A trajetória de João Pedro de Carvalho Neto é curiosa. Nascido em Ipaumirim (CE), em 1964, é um dos oito filhos de pai romeiro, pernambucano de Belo Jardim, e de mãe afilhada do Padre Cícero. A família migrou para Juazeiro do Norte, em busca de melhorias de vida e o trabalho passou a se apresentar como a única saída.

Em 1988, quando começou a cortar xilogravuras, ele já havia publicado alguns cordéis, e dialogava com o poeta Zé Mutuca, então vendedor de temperos na loja do Zé de Amélia, Beco da Cebola, no Mercado Central do Juazeiro do Norte. Na mesma loja, Mestre Antonio Batista, da geração pioneira da xilogravura, mantinha sua “banca” de relojoeiro.

Ele vendia panelas, de porta em porta, e fabricava, com a ajuda da mulher Célia, com a qual teve três filhos, a “Pomada Padre Cícero”, comercializada, principalmente, nas romarias, a qual nunca seria aprovada pelas inspeções das autoridades farmacêuticas. A família se virava como podia, dentro da lei, com escapadelas picarescas, sem maiores consequências.

João Pedro decidiu enveredar pela xilogravura ao ver a animação em torno da “Lira Nordestina”, a gráfica de cordel fundada, na década de 1920, pelo romeiro alagoano José Bernardo da Silva (1901 / 1970).

João Pedro: “um gravador quando começa a criar, deixa sua própria marca”. (Foto: Rafael Vilarouca)

Era um momento especial, de mobilização de muitas pessoas e de muitos esforços, na busca das possibilidades para abrir aquele tesouro de tacos, de capas de folhetos, de rótulos, e, principalmente, de álbuns.

A voracidade com a qual João Pedro se aproximava das toras de umburana, nas instalações da gráfica, então localizada na Estação Ferroviária, era impressionante. Todo pedaço de madeira que chegada às mãos dele se tornava suporte para sulcos, escavações e escrita. Ganhou dos colegas o apelido, carinhoso e depreciativo, de “pinica-pau”.

João Pedro dorme pouco, fuma feito uma caipora, toma café de garrafa e trabalha feito um condenado. Tanto empenho lhe custou um enfarto, aos quarenta anos e algumas pontes de safenas e mamárias, mas a Previdência não o aposentou. Ele já estava em Fortaleza, e foi socorrido pelo Renato Casimiro, também do Juazeiro, professor da UFC, que anteviu as possibilidades do artista, e tem sido o amigo próximo e generoso, que encomendou muitos álbuns, voltados para personagens, episódios e manifestações culturais da terra do “Padim”.

João Pedro estreou com a série “Os Sete Sacramentos”, cortada na umburana e produziu os álbuns “Meninos de Rua” e “Mitos do Nordeste”, reunidos para sua primeira individual, na 4ª SR do IPHAN, em Fortaleza, aberta dia 1° de junho de 1998.

Vieram outros álbuns como “Sete Fazendas”, “A Festa do Pau da Bandeira de Barbalha” e a participação na proposta coletiva “Senhoras Sertanejas”.

A partir daí, melhor será esquecer a listagem dos álbuns que produziu, das exposições das quais participou e ajustar o foco sobre o processo de crescimento dele. João Pedro se fez, com muita determinação, trabalho e com a superação das deficiências do próprio desenho, o ajuste do corte e o acabamento refinado das xilogravuras.

A mudança para Fortaleza, em 1999, veio da constatação dolorosa de que não poderia viver do que fazia no Juazeiro. O medo dos amigos era de que a família saísse da linha da pobreza e fosse vítima da violência da cidade grande, com tudo o que isso acarreta de perda de autoestima e da dignidade.

Padre Cícero os ajudou e eles não se deixaram contaminar pelo que a metrópole tem de pior. Ele incorporou o Juazeiro ao seu nome artístico e passou a ser João Pedro do Juazeiro, numa atitude de quem traz um repertório, pertence a um lugar e tem orgulho de dizer de onde veio.

Ganhou o prêmio Norman Rockwell (1999), na categoria gravura, em um salão do IBEU-CE, então em plena atividade. A cidade era grande, mas as chances de viver de xilogravuras continuavam pequenas. Foi quando ele encontrou Aléxia Brasil, arquiteta, designer, artista plástica e professora da UFC.

Aléxia recorreu ao João Pedro para montar a animação interativa de sua dissertação de mestrado “Cordel Digital” (PUC – São Paulo, 2002) e ele ganhou mais uma referência de amizade e generosidade.

Era comum vê-lo pelo Benfica, carregado de gravuras, oferecendo-as aos professores do Centro de Humanidades e da Arquitetura. O trabalho era de formiguinha. João Pedro varava as noites e saia à luz do sol para vender sua produção. À medida que cortava e escavava, ia se afirmando como o grande gravador que é hoje, na maturidade.

Foi acolhido pelo Museu de Arte da UFC (Mauc) e, sempre recebeu muita atenção do Pedro Eymar, diretor da Instituição. O Museu do Ceará, na gestão Régis Lopes, abriu as portas para ele e elas continuam abertas pela atual diretora, Cristina Holanda. Lá, ele tem exposto muitas vezes e ilustrou uma edição de “Iracema” em cordel. Recebeu encomendas da professora Adelaide Gonçalves, da História da UFC. Expôs no Centro Cultural Banco do Nordeste (Fortaleza, Cariri e Sousa -PB). Ganhou editais que possibilitaram a edição de “xilocordéis”, poemas entremeados por vinhetas de gravuras. Ocupou, com frequência, espaços do SESC-CE, que o convidou para uma viagem a Coimbra. Expôs, mais de uma vez, no Sobrado do Dr. José Lourenço. A Secult o levou para a Feira do Livro, em Cabo Verde, onde ele mostrou gravuras e ministrou oficina.

João Pedro consegue se impor por conta do trabalho vigoroso. Ele tem essa capacidade de chegar, como quem não quer nada, ficar ali, “curubijando”, no melhor modelo dos estereótipos que cristalizamos dos índios, até ganhar nossa confiança e nossa afetividade.

Esmero nos detalhes, técnicas diversificadas e matrizes de variados tamanhos. (Foto: Rafael Vilarouca)

A afro-descendência dele é forte e é expressa pelo maracatu, folguedo que ele brinca, com orgulho e ginga (já fez uma série e cartões postais com essa temática). Nunca deixou — e nunca deixará de ser — o devoto do Padre Cícero, mas, por via das dúvidas, não tem nada contra os orixás, tendo assinado uma série que foi exposta na Galeria Antonio Bandeira, da Prefeitura de Fortaleza e no Shopping Benfica.

João Pedro está atento a todas as possibilidades de mostrar seu trabalho e de manter a família com dignidade e decência.

O crescimento dele foi proporcional ao desejo de ministrar oficinas, atividade que ele desenvolve com competência. É didático, sem inibir os alunos. Sabe fazer e sabe ensinar a fazer. Publicou a plaqueta “Xilogravando”, que distribui aos alunos no primeiro contato. As oficinas não formam o (a) artista, mas chamam a atenção para a importância do fazer à mão, nesses tempos de velocidade, tecnologias de ponta e muitas mídias. A xilogravura “escaneada” pode ser ponto de partida para outros trabalhos, abrindo muitas possibilidades criativas.

Dodora Guimarães, em uma das Bienais de Arte do Cariri, levou o gravador pernambucano J. Borges para uma oficina sobre aplicação de cor, em Juazeiro, uma iniciativa louvável, com expectativa de poucos frutos. José Lourenço, Stênio e Francorli já usavam pigmentos coloridos, com timidez e parcimônia. A cor explodiu, depois, na xilogravura do João Pedro. A série das gravuras que marcaram os cem anos de nascimento de Patativa do Assaré (2009), encomendadas pela Assessoria de Marketing Institucional da UFC (leia-se Paulo Mamede) é exemplo de cor bem aplicada. O mesmo se pode dizer das pranchas sobre o sertão, que ele mostrou na Caixa Cultural, na Praça da Sé (SP), em 2010, ou dos trabalhos sobre Luiz Gonzaga, para os livros de Bené Fonteles e Elba Braga Ramalho.

João Pedro foi aprovado no preto e branco, barroco, que faz o jogo de luz e sombra; também no recurso, alegre ou dramático, às cores. Pode ser considerado autor de gravuras de grandes formatos (a série Patativa); de iluminuras, como as de Iracema e das miniaturas de seus xilocordéis.

Ele vai além e aplica a gravura, a partir da matriz de seda, em cerâmicas, azulejos, e mosaicos. Também imprime camisetas, gravuras em estandartes e panos, e faz o que pode para alardear seu trabalho e faturar mais com as vendas.

João Pedro montou uma tipografia barulhenta, na casa em que vivia em Jacarecanga, e recebeu ameaças de um vizinho incomodado com o funcionamento da “quebra-pedras”. A folhetaria foi desativada, mas ele manteve as caixas de tipos, os prelos e a impressora. Comprou outras máquinas obsoletas, as adaptou, e tem hoje um museu das artes gráficas, para deleite de professores de design e dos que nostálgicos das tipografias de antigamente.

Difícil falar de uma pessoa tão amiga e tão próxima. Mais difícil ainda quando se trata de alguém tão inquieto e criativo. Sabe-se o que ele é capaz de fazer, mas não se tem ideia de onde possa chegar, ao fazer do trabalho uma atividade lúdica e prazerosa. Monta estratégias de sobrevivência, que atualiza no dia-a-dia, com lisura e competência. João Pedro é capaz de nos deixar tontos, de tantas coisas que propõe e desenvolve. Seu currículo é de causar inveja, aos artistas que cultuam os modismos, aos que se voltam para os próprios umbigos e aos que fazem uma arte que se sustenta na explicação. O que ele faz pulsa, vibra, se sustenta e se insere na história das artes cearenses, com a força da tradição que não rejeita o enfrentamento das questões, das técnicas, e dos materiais de hoje em dia.

João Pedro é do Juazeiro. Traz a fé que vem do Padre Cícero, dos caminhões dos romeiros, dos benditos “bodejados” pelos devotos, dos rosários, dos lumes que ardem e da acumulação de referências nas paredes votivas. Traz a força das pequenas oficinas, e das corporações medievais atualizadas.

Incorpora a alegria dos reisados de caretas, das bandas cabaçais, dos cocos, do maneiro-pau e das lapinhas. Assimila a multiculturalidade, responsável pelo vigor das manifestações do Cariri, com referências vindas de outros Estados, como os guerreiros das Alagoas, os índios Pankararu e os penitentes de Santa Brígida.

Lança mão dos brinquedos de madeira, de folha de flandres, das capelinhas de vidro, dos bonecos de barro e dos trabalhos de couro.

João Pedro é do mundo. Um artista da grandeza dele ultrapassa tempos e espaços, supera limites, vai além das convenções demarcatórias de municípios, estados, países ou continentes. O mundo é pequeno para a ambição e o desvario de João Pedro. “Benza Deus”.

João Pedro. (Foto: Rafael Vilarouca)

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