Arte e Cultura

João Lope e a experiência de um vaqueiro centenário

Por Márcio Silvestre • 9 de janeiro de 2019

No dia 03 de janeiro de 2019, o vaqueiro João Pereira da Silva, mais conhecido por João Lope, comemorou 100 anos de vida, ao lado de amigos e familiares, em uma cerimônia realizada na Casa Grande, em Nova Olinda. João Lope já foi capa da CARIRI Revista na edição 21, intitulada “A Civilização do Couro”, como homenagem ao vaqueiro centenário publicaremos o texto da revista feito pela jornalista Cláudia Albuquerque em 2015, que relata um pouco sobre sua história.

João Lope (Foto: Samuel Macedo)

REZA PARA AMANSAR TOURO BRABO

Por Cláudia Albuquerque

Numa casinha acolhedora da localidade de Triunfo de Baixo, zona rural de Nova Olinda, vive um homem magro, elegante e cheio de encantos: João Pereira da Silva, mais conhecido por João Lope (assim mesmo, sem “s” no final). Ele nasceu no sopé da Chapada do Araripe, no dia 03 de janeiro de 1919, quando o Brasil ainda vivia a República Velha, preparando-se para escolher como presidente Epitácio Pessoa ou Ruy Barbosa. Não que isso fizesse qualquer diferença para o menino, terceiro entre os cinco filhos de Noé e Ana Maria, pequenos agricultores da região.

O trabalho na roça e a lida com o gado traçaram a formação de João Lope desde a mais tenra infância. Hoje, aos 96 anos – 42 deles dedicados à arte de ser vaqueiro -, ele relembra aventuras dos tempos em que cortava a caatinga em busca do boi fujão e perde a conta das léguas percorridas ao raiar do dia ou no sereno da noite. Conhece tudo pras bandas de Pernambuco, pros rincões dos Inhamuns, pras planuras dos cariris e de suas chapadas intermináveis. Vida de vaqueiro é labuta sem horário certo, batalha árdua sob o sol abrasador, faina contínua e muitas vezes perigosa. Não que ele reclame.

João Lope é um homem satisfeito com a vida que viveu. Em respeito à tradição da época, teve 15 filhos, um seguidinho do outro, sendo três do primeiro casamento e 12 do segundo enlace, com dona Terezinha, que agora nos serve essa mesa adoçada de fartura: tapioca (com e sem amendoim), cuscuz bafejando fumaça, bolo de fubá feito no dia, suco de acerola do pé, café preto coado no pano. Seu João – que recebeu a equipe da CARIRI vestindo calça social, camisa de manga comprida e sapatos lustrosos –, pouco come, mas adora saborear histórias.

Diz que no seu tempo os terrenos não tinham cercas ou arames, e que as divisas eram marcadas por pedras. Ao longo de quatro décadas como vaqueiro, trabalhou em quatro boas fazendas. Campeando pelas bandas do Araripe, passava até duas semanas fora de casa, a tanger o gado pelos caminhos que cruzam a chapada. Depois de anos vivendo em Santana do Cariri e no Exu, mudou-se com a filharada para Nova Olinda, onde continuou trabalhando como vaqueiro, mas já em sua pequena propriedade, da qual até hoje tira o leite que alimenta toda a família. Netos, bisnetos e tataranetos animam os dias do avô.

Como certos hábitos não mudam, aos primeiros raios de sol Seu João já está de pé. A paixão pela vida de vaqueiro, por mais difícil que tenha sido, se perpetua nos cuidados com seus bois e vacas, que o reconhecem pela voz. “Entre eles há convivência e conversa”, considera a neta Fabiana, que está anotando as “rezas fortes” do avô para que elas não se percam. São orações como as de Santo Amâncio, transmitidas oralmente pelos mais velhos, com pequenas variações ocasionais, e que o menino João aprendeu com a avó materna. De tão poderosa, serve para amansar boi brabo, mas também acalma pessoas enfezadas.

Seu João ensina, com prazer: “Ah, meu Santo Amâncio, meu santo amansador, vós não disse que é amansador de todo bicho bravo? Abrandai o coração de (fala-se o nome da pessoa ou do animal), que está brabo pro meu lado, está com todos os diabos. Teu sangue eu te bebo, teu coração eu te parto. Debaixo do meu pé esquerdo eu te encarco”. Isso feito, bate-se o pé esquerdo três vezes no chão. E pronto. “Tá curado”. Palavra de João Lope.

CATEGORIA:

Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".