Arte e Cultura

Histórias marcadas no ferro

A nossa retrospectiva de hoje relembra uma matéria especial sobre um legado da Linard Máquinas e Construções Técnicas SA, publicada na 20ª edição de nossa revista impressa.
Por Pedro Philippe • 8 de novembro de 2019

Em 1912, após anos penosos de trabalho duro, foi inaugurada a estrada de ferro que percorria as margens dos rios Mamoré, na Bolívia e Madeira, em Rondônia. Construída para importar borracha dos nossos vizinhos, a estrada Madeira-Mamoré ficaria conhecida como a Ferrovia da Morte. Nela, pereceram quase 6 mil homens, vítimas de doenças tropicais e de condições inadequadas de trabalho.  Operários de mais de 50 nacionalidades fizeram parte dessa saga: italianos, gregos, ingleses, franceses, irlandeses, indianos… Entre os muitos imigrantes, encontrava-se o francês Serafim Estevão Linard, que veio ao Brasil para trabalhar com o que mais tinha habilidade: o ferro.

Finalizada a construção da Madeira-Mamoré, Serafim procurou por uma região em que fervessem os caldeirões dos engenhos de rapadura, clientes certeiros de quem lida com ferro. Assim, ele chegou ao Ceará, indo instalar-se com a família em Santana do Cariri. Antônio Linard, filho do segundo casamento do francês, se sentiu na responsabilidade de sustentar a família quando o pai veio a falecer. No começo do século XX, quando Antônio era um jovem em busca de pôr em prática os ensinamentos do pai sobre a arte do ferro, Missão Velha era a cidade onde mais se plantava cana-de-açúcar – cerca de 300 engenhos produziam sem parar e, claro, não faltavam máquinas precisando de reparo.

A população de Missão Velha, hoje, é de pouco mais de 35 mil habitantes. Em 1933, quando Antônio abriu a primeira oficina mecânica para manutenção das máquinas dos quase mil engenhos do Cariri, a cidade era ainda menor e ele, então com 29 anos, pôde praticar tudo o que sabia sobre o funcionamento das moendas ­– habilidade que desenvolveu apenas vendo-as girar, além de ter observado o pai em ação e de ter lido os livros de mecânica em francês e inglês que herdou dele.

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Três anos depois, o jovem engenheiro autodidata construiu uma máquina a vapor que, segundo se conta, foi a primeira a ser feita inteiramente no Brasil. Ainda de pé na Linard Máquinas e Construções Técnicas SA, o motor não é mais utilizado, mas, no dia em que precisar, é só colocar água e carvão para que a criação de Antônio funcione sem dar erro. Nos primeiros anos de sua oficina, produzindo caldeiras e maquinários para os engenhos de cana-de-açúcar, ele economizava como podia para conseguir comprar um torno mecânico, aparelho que possibilitaria a construção e o acabamento dos instrumentos que até então ele não podia fazer.

A família conta que, de passagem pelo Cariri, Lampião e seus homens iam à oficina de Linard para que o mecânico consertasse as armas da tropa. No fim de uma série de encomendas, o cangaceiro perguntou o que Antônio iria comprar com o dinheiro que recebesse pelos serviços. A resposta veio tão rápida quanto o pagamento: ele queria comprar um torno.

DOS CANAVIAIS AO CORAÇÃO DAS FÁBRICAS

Assim como o pai, Antônio se foi de repente, deixando um legado para Maragton Linard, que assumiu o controle da fábrica em 1983. Quando a CARIRI visitou o local, Maragton parecia ter acabado de chegar e resolveu dar uma explicação, sorrindo: “Não tô chegando agora não, viu? Tô aqui desde às 5h da manhã”. Hoje com 73 anos, ele passou o bastão para os três filhos – Alônion, Amélia e Mona Alice, responsáveis pela produção e a administração da empresa –, mas ainda mantém os olhos sobre cada setor da fábrica, enquanto anda de uma ponta a outra em cima de uma Honda Biz, feito um personagem excêntrico de Bill Murray.

De sua mesa, onde ainda desenha projetos de máquinas, ele conta que a Linard resolveu produzir equipamentos para outras indústrias a partir do momento em que o setor canavieiro do Cariri começou a esfriar. Assim, fizeram aparelhos e engrenagens para fábricas de doces, borracha, refrigerantes, biscoitos, e por aí vai. Atualmente há caldeiras da Linard em todos os estados do Brasil e a variedade de peças criadas deu à família o know-how necessário para participar da construção de diversas fábricas. Quando as marcas colombianas Eternit e Corona se juntaram para montar uma filial em Fortaleza, foi a Linard que cuidou da execução de diversos processos, da plataforma à esteira.

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O interior da Linard é limpo como um escritório e é até difícil acreditar que naquele ambiente funciona mesmo uma oficina de proporções descomunais. Entre as muitas mudanças às quais Maragton resiste, está a de abrir mão da metodologia de trabalho instituída por seu pai, que gostava de ver tudo no lugar, de preferência impecavelmente limpo. Na parede, onde há espaço certamente haverá ditados que Antônio não queria que ninguém esquecesse: “Menor a nau, menor o tormento”, “Ver uma vez é melhor do que ouvir dez”, “É melhor esperar pelo mal do que pelo bem”, entre outros.

Ainda existem as plaquinhas de madeira que o fundador usava para marcar uma planilha na parede, apontando os responsáveis de cada setor e as atividades que precisavam ser desenvolvidas – era uma espécie de Excel arcaico. Por lá já passaram três gerações de Missão Velha, conferindo à empresa um ar de confiabilidade e solidez entre os moradores. Ao lado da oficina que instalou no começo da década de 30, Antônio também foi construindo as casas da família, onde até hoje moram parte de seus herdeiros. Com uma grande área externa verde, a fábrica evoca certo saudosismo que parece se refletir nos olhos de Maragton sempre que ele fala do pai.

Um saudosismo que não impediu que os negócios da família avançassem, acolhendo novidades como o VLT, sigla para Veículo Leve Sobre Trilhos, um primo do metrô com fama de ser mais lento, menor e não agressivo ao meio ambiente. Durante a construção do VLT do Cariri, que recuperou uma malha ferroviária já existente e foi o primeiro do Brasil, a empresa mineira responsável pela montagem das estações se viu impossibilitada de transportar todo o equipamento de Belo Horizonte para o Ceará. A Linard ficou então responsável pela construção das nove estações ao longo dos 13,6 km de trilhos. O sucesso da empreitada aproximou a fábrica e a Bom Sinal, montadora dos VLTs atualmente em construção. Inicialmente, a Linard produzia os vagões dos trens, mas aos poucos foi assumindo projetos maiores e mais complexos. Hoje, o galpão onde são produzidas as peças para a Bom Sinal já tem encomendas para os próximos dois anos.

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CONSERVE A MÁQUINA E A FORÇA

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), há 243.000 pessoas empregadas no setor, que tem mostrado um desempenho oscilante: em relação ao mesmo período de 2014, não vai nada bem, mas não tão pior quanto já esteve em meses anteriores. O faturamento bruto no ano passado foi de 71,19 bilhões de reais, uma diminuição de 13,7%. Mona Alice, uma das herdeiras de Maragton, não nega a recessão: “Com a crise, nem todo mundo quer construir fábricas e, como fornecemos para elas, fica mais difícil”. A paralisação de obras públicas também tem sido um entrave para a produção de VLTs, já que o principal cliente é o Governo, que atualmente tem cortado gastos.  Em um dos pilares da Linard, próximo ao primeiro torno feito pelo próprio fundador, lê-se um dos ditados que ele costumava repetir e que hoje serve de inspiração para os descendentes: “Conserve a máquina. Ela conserva sua força”.

Fotos: Hélio Filho

 

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