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Hipotiroidismo na gestação: cuidados médicos e gravidez tranquila

A causa principal do distúrbio é a tireoidite de Hashimoto, que afeta 10% das mulheres acima dos 30
Por Bruna Vieira • 19 de março de 2019

(Hipotiroidismo requer cuidados especiais na gestação. Foto: Pixabay)

 

Gravidez e doenças crônicas são uma combinação que requer cuidados especiais, mas, com acompanhamento médico, é possível ter uma gestação tranquila. Causado principalmente pela tireoidite de Hashimoto, que afeta 10% das mulheres acima dos 30 anos, o hipotireoidismo é um distúrbio comum entre mulheres na fase reprodutiva. Nesse período ocorrem milhares de alterações hormonais no corpo para preparar o organismo materno para a manutenção do feto durante o ciclo gestacional. O tratamento não deve ser interrompido e o pré-natal precisa ser iniciado o mais breve possível.

O endocrinologista Walter Carvalho explica que a mulher diagnosticada com hipotireoidismo/hipotiroidismo antes da gestação precisa ajustar a medicação (levotiroxina sódica), na maioria das vezes aumentando a dose de 20 a 30% (em média 25 mcg a mais da dose inicial). “Sobretudo, em função da maior necessidade fisiológica, pois, a tiroide do feto tem maturação tardia, por volta do final do terceiro mês. E também de várias respostas adaptativas do organismo materno, como aumento da produção da proteína transportadora dos hormônios tiroidianos (TBG) e das enzimas metabolizadoras destes hormônios (as deiodinases placentárias). Do contrário, os sintomas podem tornar-se mais intensos”, esclareceu.

Ser acompanhada pelo médico especialista e realizar os exames laboratoriais mensalmente (TSH e T4 livre) para avaliar se o alvo do TSH foi obtido fazem parte dos cuidados da gestante hipotiroidiana. Recomenda-se manter níveis sanguíneos de TSH abaixo de 2,5 mUI/L. “Nas mulheres não hipotiroideias, com função tiroidiana preservada, manter uma ingestão de iodo de 250 microgramas diariamente. Tal suplementação, muitas vezes é obtida com alimentação rica em peixe de águas salgadas, frutos do mar, carne vermelha, leite, derivados e polivitamínicos, comumente administrados durante o período gestacional”, destacou Walter.

Sem esses cuidados, o bebê corre risco de abortamento precoce ou comprometimento do desenvolvimento do sistema nervoso central. O alerta do especialista não é para assustar, mas, para enfatizar a importância de seguir as orientações do profissional de saúde. “Há evidências inclusive, que até mesmo o hipotiroidismo leve, subclínico, com o TSH discretamente elevado e com níveis de T4 livre normais, podem levar ao retardo cognitivo da criança”, alertou o médico.

 

Alterações hormonais

O endocrinologista ressalta que a modificação hormonal mais significativa é a elevação da gonadotrofina coriônica específica (beta-HCG), ferramenta diagnóstica da gravidez. “Este hormônio torna-se presente em média, cinco dias após o início da gestação, quando ocorre a implantação do óvulo fecundado no endométrio uterino, alcançando o auge de sua produção entre a oitava e décima semana gestacional. Também possui a função de preservar o corpo lúteo ovariano nas primeiras semanas. Há o aumento ainda da demanda metabólica do organismo materno, gerando um aumento de 10% no volume da glândula tiroidiana nas áreas geográficas onde não há deficiência do iodo e um aumento na ordem de 20 a 40% nas áreas com deficiência do iodo”, elencou.

As mudanças não param por aí. A ingestão de iodo dietético e a produção dos hormônios tiroidianos aumentam em 50%. “Este aumento fisiológico da produção dos hormônios tiroidianos maternos têm um valor vital para o embrião, que só apresenta evidência de produção do hormônio tiroidiano fetal por volta da 10ª à 12ª semanas gestacionais. Há aumento significativo de outros hormônios, um deles produzido pela placenta, o hPL (hormônio lactogênico placentário), que por sua vez, induz uma maior resistência à ação da insulina. Havendo um aumento da produção hormonal do hPL no final da vigésima quarta semana gestacional, período no qual deve iniciar-se a investigação das curvas glicêmicas naquelas mulheres com suspeita de diabetes gestacional”, apontou.

 

“A mãe produz tais hormônios da tiroide por ela e pelo bebê. Há ainda elevação significativa da prolactina, hormônio hipofisário indispensável ao preparo das mamas femininas para a lactação logo após o parto. Estas seriam as modificações hormonais mais importantes a serem frisadas” – Walter Carvalho, endocrinologista.

 

Tireoidite de Hashimoto

É o distúrbio mais comum que leva ao hipotireoidismo. A incidência nas mulheres é 10 vezes maior que nos homens. Doença autoimune, na qual o sistema imunológico ataca seu próprio tecido saudável. “Afeta 10 milhões de pessoas apenas nos Estados Unidos e aproximadamente 10% das mulheres com mais de 30 anos. A tireoidite de Hashimoto é caracterizada por inflamação da tireoide, devido aos ataques do próprio sistema imunológico do corpo sobre a glândula. Isso faz com que o tecido da tireoide diminua gradualmente, afetando diretamente sua capacidade de produzir hormônios. Isso acabará por resultar em hipotireoidismo, quando a tireoide torna-se incapaz de produzir tais hormônios”, afirmou o especialista.

 

Outras causas do hipotiroidismo:

Remoção cirúrgica da tiroide

Agenesia tireoidiana congênita: nascer sem a tireoide.

Destruição da tireoide por iodo radioativo: a terapia com iodo radioativo é um tratamento comum para pacientes com câncer de tireoide e pacientes com hipertireoidismo.

Medicamentos: amiodarona, lítio, interferon Alfa, interleucina-2.

Doenças granulomatosas: como a sarcoidose.

Distúrbios hipofisários: onde haja comprometimento do hormônio estimulador da tiroide (TSH).

Enfermidades genéticas e raras: os hormônios tiroidianos produzidos não atuam de maneira satisfatória por falhas no receptor onde ele virá atuar, seja nos tecidos periféricos, seja na hipófise.

 

Sintomas do hipotiroidismo

Letargia

Alopecia

Síndrome do Túnel do Carpo

Edemas

 

Hipotiroidismo gestacional

Mulheres que nunca foram diagnosticadas com hipotireoidismo, mas, com histórico familiar de tireoidite de Hashimoto em primeiro grau (mãe, irmã, tia, prima) podem desenvolver a doença durante a gestação. Outros fatores que podem desencadear o distúrbio são a presença de bócio, do anticorpo anti-peroxidase (anti-TPQ), histórico pessoal de diabetes tipo 1 ou abortos precoces, radioterapia da região cervical ou cefálica para tratamento de algum tumor maligno e enfermidades autoimunes, como o lúpus.

 

Funções da tireoide

O hormônio tireoidiano tem vários efeitos diferentes. Em geral, a tireoide pode ser considerada como controladora do metabolismo do corpo. O hormônio tireoidiano aumenta a frequência cardíaca e a força com que o coração contrai-se, participa do controle do ciclo sono-vigília, afeta a rapidez com que o alimento passa pelo trato gastrointestinal, a perda óssea e a velocidade com que o açúcar é produzido e utilizado pelo corpo.

 

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Bruna Vieira

Bruna Vieira

Bruna Vieira é mestra em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou como repórter, produtora, editora e âncora em Rádio, TV, Impresso e Online. Vencedora dos prêmios SBR Pfizer 2017 e 2016, Fenacor 2016 e Criança PB 2015. "Recontar histórias de vida, com sensibilidade e humanismo, porque o jornalismo também é feito de afetos".