CARIRI Natureza

Geopark Araripe: território flutuante em um mar de riquezas

A Coluna CARIRI Natureza de hoje, relembra uma reportagem publicada na 4ª edição de nossa revista impressa sobre as belezas e peculiaridades do Geopark Araripe.
Por Redação Cariri • 28 de outubro de 2019
Foto: Geopark Araripe

Por Raquel Arraes.

Passa um pouco das 13h quando a professora Neuma Galvão chega à Escola Municipal 18 de Maio, periferia da cidade do Crato. Na biblioteca, oito meninos e seis meninas, entre nove e treze anos, esperam pacientemente. Depois de cumprimentar a todos, a professora pede que se abra uma roda para os exercícios de sensibilização. E então explica: “Pessoal, hoje vamos falar sobre a importância do Geopark. Para isso vamos confeccionar bonecos de garrafa pet pra montar um teatro com eles”. E dispara a primeira pergunta: “Quem sabe me dizer onde ficam os geossítios?”. Bracinhos se levantam e, um a um, os nomes vão surgindo atropelados: Missão Velha, Nova Olinda, Crato, Barbalha, Juazeiro, Santana do Cariri… Mais uma pergunta: “E quem sabe o que é o Geopark?”.

As catorze crianças ali presentes poderiam passar a tarde inteira no jogo de perguntas e respostas sem se atrapalhar. Há meses elas vêm recebendo capacitação de professores da Universidade Regional do Cariri, todos pertencentes ao quadro de funcionários do Geopark Araripe. Não é qualquer capacitação. Ministradas por mestres e doutores, as oficinas têm o intuito de transformar as crianças em “guardiães ambientais”, cidadãos conscientes de seu papel de mantenedores da biodiversidade do planeta. Pela mesma sala, já passaram professores discutindo consciência ecológica, legislação ambiental e o papel do Geopark Araripe como território de proteção da fauna, flora e cultura caririense.

Pergunto a duas meninas o que elas entendem quando alguém fala “Geopark”. Ana Vitória, dez anos, fivelinha no cabelo, diz com jeito doce: “O Geopark é um lugar que cuida dos animais, estimula as crianças a cuidar da natureza, do ambiente, das matas, a não queimar e não soltar balão”. Thaís Héllen, nove anos, disserta eloquente: “Pra mim é o contato com a natureza, o que você deve aprender com ela. Não pode tocar fogo, porque o que você faz volta pra você. Quando você faz uma coisa boa, a natureza retorna essa coisa boa pra você. A natureza não se vinga. Ela só precisa do que é dela”.

Guardiãs ambientais em formação. Foto: Rafael Vilarouca.

A resposta desconcerta. Faço a mesma pergunta ao loirinho Ramon, de 11 anos, que balança ligeiro a cabeça: “O Geopark é um lugar onde tudo é preservado, os fósseis, a floresta. E nesse lugar há professores e professoras que cuidam da biodiversidade caririense”. E ele já teria visitado algum geossítio? “Sim, já visitei os oito geossítios e em cada um ganhei uma experiência. Na cachoeira aprendi que até as coisas do mar precisam ser preservadas. Não tem sentido destruir, destruir e destruir. E quem mais destrói é o homem. Não se contenta com o que já tem, não se contenta com nada. Nem com a Amazônia! Sabia que um terço da Amazônia já foi destruída?”.

Se fosse um teste, Ramon, Thaís e Vitória teriam passado com louvor. Espaço de preservação, construção de conhecimento e pesquisa, o Geopark Araripe é isso tudo e muito mais.

Ciência e Natureza

“O Geopark Araripe nasceu no intuito de reunir informações sobre as riquezas geológicas e naturais da região do Araripe. O conjunto dessas informações, uma vez catalogadas, organizadas, descritas e fotografadas, é encaminhado para o Órgão de Ciência da Terra ligado à Unesco”, explica o professor Patrício Melo, vice-reitor da Universidade Regional do Cariri (Urca).

Compreendendo uma área de 3.520,52 km2 da bacia sedimentar do Araripe, região do Cariri, sul do Ceará, o Geopark Araripe abrange seis cidades: Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri. Dentro desse território existem porções territoriais menores que se denominam geossítios. Geossítios são afloramentos de raridades de importância global sobre o ponto de vista geológico, da biodiversidade, da cultura, da arqueologia e da paleontologia.

“A Urca se transformou na gestora do projeto Geopark Araripe e para isso teve o apoio do Governo do Estado e do Governo Federal, porque se trata de um projeto de desenvolvimento territorial sustentável. A municipalidade, a iniciativa privada e os órgãos públicos estão envolvidos para fortalecer esse projeto”, completa o professor Patrício.

Único geoparque do Brasil, o Geopark Araripe foi criado em 2005 através de uma resolução do Conselho Superior da Urca. Após pleitear o selo da Unesco para o projeto em 2006, numa solenidade em Belfast (Irlanda do Norte), a Urca recebeu parecer favorável e aprovação para a ratificação do Geopark.

Herança geológica no chão do Cariri. Foto: Rafael Vilarouca.

Em um primeiro momento, de 2005 até 2008, o projeto passou por uma etapa de candidatura, descrição e planos de gestão. De 2008 a 2010 houve um período do aparelhamento orçamentário. Agora, o foco de trabalho está sendo a divulgação do Geopark para as pessoas de todo o Cariri, trabalho este que envolve um conjunto de atividades que se estruturam na educação ambiental, no turismo sustentável e no conhecimento sobre o patrimônio.

Exuberante, o Geopark Araripe poderia ser descrito como um manancial inesgotável de riquezas. A máxima não fica descabida ou superlativa por um fato que de tão repetido já se tornou clichê: a bacia sedimentar do Araripe é uma das mais importantes bacias fossilíferas do mundo. Por causa disso, uma procissão de pesquisadores e cientistas de todo o globo chegam aos borbotões ao Cariri em busca de fósseis raros e inacreditavelmente conservados, formações geológicas quase tão antigas quanto a Terra.

De milhões em milhões se faz um Geossítio

“Sem geologês, professor, por favor”, peço ao geólogo Idalécio de Freitas, professor da Universidade Regional do Cariri (URCA). É uma quarta-feira tipicamente caririense. Muito sol, céu azul sem nuvens. Estamos exatamente em uma das extremidades da cachoeira de Missão Velha, um afloramento impressionante composto por rochas negras, imensas, polidas e reluzentes. O som da água se precipitando sobre as rochas domina o ambiente. A queda d’água e as piscinas que se formam em seu entorno, de tão lindas, acabam sendo um problema para quem vem sem um traje de banho apropriado. A impressão que fica é que a queda d’água foi esculpida por dentro da terra até vir à tona, o que não é de todo errado.

O professor Idalécio explica que a rocha que vemos é diferente das demais porque foi formada muito próxima ao assoalho da bacia do Araripe, sendo assim mais dura e fragmentada. “Essa formação antecede a origem da bacia do Araripe. Porque a bacia do Araripe é do período Mesozóico, o que significa uns 145 milhões de anos. Essa cachoeira que você está vendo tem em torno de 400 milhões de anos, época em que os continentes americano e africano ainda eram um só”.

Deparar com artefatos tão antigos causa uma profunda sensação de reverência. Quatrocentos milhões de anos depois e o passado se ergue absoluto, imemorial, debochando da transitoriedade da vida. O professor continua a explicar que afora a sua importância para o entendimento da formação da Terra, a cachoeira é pródiga em histórias do passado caririense. “O homem que vinha de Aracati e do Icó vinha seguindo os leitos de água, e o rio era perene nessa época. Então se fala muito em batalhas que se deram aqui entre o índio e o homem branco”.

Palco do primeiro aldeamento de índios Kariris, a cachoeira possuía um valor mágico para as tribos. Era ali que se refrescavam, depois de dias andando em marcha pelos sertões, e nas paradas realizavam rituais para honrar a queda d´água. Tanta beleza e história juntas não pouparam a cachoeira de depredações. Segundo o técnico agrícola Aluísio Silva, há alguns anos a cachoeira foi dinamitada pela esposa de um fazendeiro dono de vastas terras em Missão Velha. O motivo pífio foi o aborrecimento gerado pela insistência da população em se banhar nas suas águas.

Atravessando a ponte, uma vegetação de cactos se distingue junto à água. O solo, duro demais para ser perfurado, impede o crescimento de uma vegetação frondosa. Ali, o professor Álamo Feitosa, coordenadordo Geopark Araripe, indica um caminho em meio aos espinhos. “Tenho que lhe mostrar algo”, fala já apontando para o chão. De começo não faz muito sentido: apenas veios esculpidos na pedra. “O que é?”, indago. “Icnofósseis. Túneis de vermes”, responde prontamente. A visão é inacreditável. Após 400 milhões de anos, os túneis estão totalmente à vista. “Os vermes que aqui habitavam faziam esses túneis para se locomover”, explica o professor.

Antes de irmos embora, Álamo lembra de algo importante. Embrenhando-se novamente no matagal o professor desvenda outra cena inacreditável. “Olha só no que a cachoeira ia se transformar”. O formato não engana. Paralelepípedos. Dezenas, escondidos pela vegetação já crescida. “É para isso que serve o Geopark, para não deixar que a destruição aconteça. Quando chegamos aqui a retirada das pedras já tinha destino certo. Empresários e prefeituras da região. É difícil colocar na cabeça das pessoas que não é porque elas possuem uma terra que podem explorar de qualquer jeito”, pontua o coordenador.

Uma floresta petrificada

A alguns quilômetros dali, uma placa no meio da rodovia CE 295 indica o próximo destino: Floresta Petrificada do Cariri. Irrequieto, o professor Idalécio não esconde o prazer de falar sobre a floresta. “Fiz mestrado sobre ela”. Após uma caminhada em que vemos muitos seixos pelo chão, o professor aponta. “Olha lá, tudo isso é tronco”. E não há dúvidas. A casca dos troncos ainda mantém a forma. Alguns deles nem parecem tão antigos, mas na verdade carregam 70 milhões de anos nas “costas”.

A floresta petrificada se formou de uma copiosa floresta original, composta por pinheiros, araucárias e sequoias. Na época, pequenos rios cortavam a região, constituindo o que se chama de leque aluvional. Chuvas torrenciais que assolavam a região eram responsáveis por enxurradas que arrastavam pedras e árvores. Na medida em que a chuva diminuía, os troncos das árvores se depositavam nos leitos dos rios e iam sendo recobertos pelos sedimentos. “Isso foi no final do Jurássico, então começa outro período diferente, o Cretáceo, mais seco, mais quente… Quando era seco, era muito seco. Quando era chuva, era muita chuva. Isso deu condições futuras para que se formasse um lago, e esse lago entrou em contato com o mar. Isso aqui é 40 milhões de anos mais velho que os peixes do Araripe. Quando esse material já era fóssil, os peixes estavam nadando”, explica Álamo.

No processo de fossilização, as moléculas de celulose e lignina que formavam a parede celular dos troncos foram sendo substituídas por óxido de silício e óxido de ferro. “É por isso que ele mantém a forma, mas não a estrutura química. Então aparentemente é um tronco, mas é um tronco dez vezes mais pesado do que se fosse um tronco de madeira”, esclarece o professor. “Visitei a Ilha de Lesbos, na Grécia, sabe? Lá eles se ufanam da floresta petrificada deles. Movimentam por ano mais de 50 milhões de euros através do turismo científico. A nossa tem 70 milhões de anos”. A frase do professor para no ar. E nem precisa ser completada para entendermos que a Floresta Petrificada do Cariri não anda recebendo a atenção devida. Uma evidência que o internauta curioso pode conferir na tela: no item “Missão Velha” da Wikipédia, em plena seção “Atrativos Turísticos”, não há nem sinal da Floresta.

Geopark na ponta do cinzel

A garota trabalha em um fóssil. Devagarzinho ela retira o que há de sedimento para deixar o que realmente importa, o peixe que se revela praticamente intacto. Trabalho rotineiro no Laboratório de Paleontologia que fica na sede do Geopark Araripe, no Crato. Em nada se parecendo com o expedicionário que acompanhou a reportagem na visita aos geossítios, Álamo Feitosa debate com a aluna a espécie do fóssil que ela tem em mãos e se põe à vontade com calça jeans e camisa leve.

“Aqui é que começa o trabalho de verdade”, diz o professor, que aponta para as centenas de amostras fósseis em cima das mesas. Eles são provenientes da primeira escavação controlada feita no interior do Nordeste, no município de Araripe, distante 40 km do Crato. “Na escavação encontramos bons exemplares de peixes e camarões e estamos descrevendo excelentes e novas espécimes de plantas. Isso fora a asa de pterossauro, que ainda vai levar de oito meses a um ano para ficar pronta”.

Foto: Rafael Vilarouca

O objetivo do laboratório é basicamente produzir conhecimento sobre o Geopark Araripe e formar paleontólogos que deem andamento aos estudos. “Aqui a gente discute parâmetros, levanta hipóteses, testa uma por uma. O pesquisador é meio fanático. Você quer ver o fim daquilo. Mas tem que ter a consciência de que trabalho terminado não existe na ciência. É como levantar um iceberg: tem a ponta, mas 90% está pra baixo e vem alguém pra levantar”.

E não foi pouco o que os estudos capitaneados pelo laboratório já revelaram. As pesquisas paleontológicas em torno dos fósseis são as de maior visibilidade, afora isso os ciclos de mortandade na região, já identificados, mostram que já havia períodos de seca no Nordeste de 110 milhões de anos atrás. Pergunto a Álamo qual o seu maior sonho, e ele responde de pronto. “Formar dez doutores para dar continuidade ao trabalho feito aqui. E se cada um formar outros cinco, posso morrer sossegado”.

 

CATEGORIA:

Redação Cariri