Esporte

Futebol feminino no Cariri: o sonho da profissionalização pode estar mais perto

Campeonato Intermunicipal revelou talentos da região
Por Bruna Vieira • 27 de dezembro de 2018

Seleção Feminina de Futebol de Juazeiro do Norte. Foto: Pedro Paulo Vieira/ Ascom Juazeiro do Norte

Viver somente de futebol no interior do Ceará ainda é difícil. Quando esse sonho é das mulheres então é quase impossível. Esta realidade começa a mudar no Cariri. Não há clubes profissionais na região, mas, para o técnico da Seleção de Juazeiro do Norte, que conquistou o 3º lugar no Campeonato Intermunicipal, essa é uma questão de tempo, pouco tempo. Há jogadoras talentosas e a equipe de Juazeiro é um exemplo. Cinco delas foram selecionadas por olheiros do Ceará Sporting Clube e vão realizar o sonho da profissionalização. A competição revelou-as como em uma vitrine.

Dizem mundo afora que “O Brasil é o país do futebol”. Esse campo, no entanto, é hegemonicamente masculino. Eles detêm a maior visibilidade e incentivos. Em 1991 foi realizada a primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino, 61 anos depois da modalidade masculina. Apenas em 2015, ela foi televisionada no Brasil: pelo SporTV (canal fechado) e TV Brasil (emissora educativa), com pouco alcance no grande público. Para 2019, alguns futeboleiros acreditam que pela primeira vez na história, a maior TV aberta do país fará a transmissão dos jogos. Os avanços vêm em um lento conta-gotas e são comemorados como uma vitória em final de campeonato. E Vitória é o nome dela, a atacante é uma das mulheres que vivem de futebol no Cariri. Ora como jogadora amadora, ora como treinadora de crianças.

Vitória Hellen Sá, 22, deseja se formar em Educação Física. Começou a jogar bola na rua e na escola aos 10 anos. E são meninas nessa idade que ela treina futsal todo sábado pelo projeto Escola de Iniciação Esportiva realizado pela Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte. A modalidade feminina é recente, foi criada em abril deste ano. As aulas com Vitória começaram há cerca de um mês no Ginásio Poliesportivo, no bairro Triângulo. Na modalidade masculina, Vitória afirma que já saíram atletas para clubes de futebol da região, como Icasa, Guarani e Campo Grande. A única exigência para participar é a presença escolar. Mais de 60 meninos entre cinco e 15 anos também são treinados por Vitória no Espaço Esportivo Márcio Allan, escolinha de futebol particular.

Garotas do Projeto Escola de Iniciação Esportiva. Foto: Arquivo Pessoal

Machismo nas quatro linhas

Viver profissionalmente de futebol no Cariri é difícil, especialmente para as mulheres. “A visibilidade é pouca, não tem olheiros na cidade. Não é fácil revelar atleta aqui por conta das oportunidades que são mais escassas. O incentivo maior é o sonho de se tornar atleta profissional, a seleção montada abriu portas e os olhos de algumas meninas que não tinham um objetivo. Não sei se continuará, mas é um estímulo a mais para que participem das competições, por sermos acompanhadas por profissionais, seguir uma rotina de treinos. O futebol feminino também é bonito, bem trabalhado”, apontou Vitória.

Além dos obstáculos de acesso aos clubes, elas também enfrentam o machismo. “Diminuiu bastante, mas sempre tem pessoas que tratam com menos importância. Por exemplo, a gente pode perceber no jogo que a arbitragem não foi tão severa, releva algumas coisas. Noto o olhar de alguns pais por achar que mulher não tem competência para treinar seus filhos”, revelou.

Após dois dias de peneira, Vitória foi selecionada pela equipe técnica da Seleção de Juazeiro do Norte, montada pela Secretaria Municipal de Esporte e Juventude (Sejuv). A atleta já participou de outras competições estaduais, porém, destaca que o Campeonato Intermunicipal deste ano foi especial. “A emoção é grande porque é um local diferente do que nós que jogamos futebol amador no interior estamos acostumadas. Com estrutura maior, campo excelente. Uma competição dessa é sempre bem rica, uma experiência a mais. O melhor momento foi o primeiro jogo da semifinal, não saímos vitoriosas, mas foi aquele momento de tensão de primeiro jogo, campo novo, campeonato nesse nível, com atletas diferenciadas, uma cerimônia de futebol grande mesmo”, descreveu.

Vitória Hellen segura a taça do Campeonato Intermunicipal de Futebol Feminino. Foto: Arquivo Pessoal

A magia de se sentir valorizada

Cosma Silva começou a jogar em time formal aos 16 anos, quando os treinos dos projetos sociais perto de casa viraram coisa séria. A jovem que está concluindo o ensino médio já mostrou seu talento em quadras e campos de várzea do Cariri, porém, o Campeonato Intermunicipal foi a primeira competição fora de casa. E com direito à torcida. “Não vou dizer que foi muita gente, mas, tinham pessoas assistindo, principalmente dos times de lá. Para mim, o mais importante foi estar perto das minhas companheiras de jogos todos os dias. Até no último dia de jogo estar com elas. Pretendemos jogar o cearense no próximo ano e no começo de 2019 temos jogos de quadra”, apontou.

A promissora atleta revela seu descontentamento com a desvalorização do futebol feminino e demonstra otimismo com as perspectivas futuras e o sentimento sublime de ser valorizada. “Difícil sempre foi, mas, com o apoio profissional que tivemos dá para a gente ser um pouco feliz. Nós sofremos preconceito, mesmo com a trajetória da melhor do mundo seis vezes (Marta), a mídia não dá a mesma visibilidade que o Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo. Muitas meninas desistem de seus sonhos por não conseguirem enfrentar tanta discriminação. Com a Seleção de Juazeiro, tivemos incentivo”, destacou.

A atleta Cosma Silva era só alegria nos jogos disputados em Fortaleza. Foto: Arquivo Pessoal

 

“Precisa avançar nas escolinhas, incentivos na nossa região, campeonatos como esse. Precisamos ser vistas pela mídia com o nosso futebol” – Cosma Siva, atleta de futebol.

 

Celeiro de atletas

Há 20 anos, Roberto Alves fundou o Nápoles, time que segundo ele, é o único representante do futebol amador feminino de Juazeiro do Norte. Escolhido para comandar a Seleção Municipal, contou com apoio de um educador físico, preparador de goleiro, auxiliar técnico, roupeiro, massagista, assessor de imprensa e de logística. Uma equipe completa treinando as três goleiras e 20 atletas de linha selecionadas há três meses. Todos eles funcionários da Secretaria de Esporte e Juventude de Juazeiro do Norte.

O futebol não tem idade, a jogadora mais velha tinha 44 anos. Nenhuma delas recebia remuneração, o que não diminuía sua dedicação. Os treinos eram realizados na Areninha do Parque São Geraldo e no estádio Romeirão. “O intuito era dar maior sustentação ao futebol feminino. Minha camisa 10, Jussara, foi escolhida pelo Ceará. Junto com Milena Rayane (08), Pollyana, (09), Dayara (07) e Nila (19). Tivemos um placar elástico no último jogo. Vencemos por 6 x 1 com dois gols de Dayara, um de Karine, um de Popó (Pollyana), um de Nila e outro de Nayara”, enumerou o técnico.

De acordo com Roberto, o Cariri tem cerca de 400 atletas, metade delas com futuro promissor. “Temos que colocar essas meninas no lugar que merecem. No Nápoles, das 25, pelo menos 20 são boas de bola. No próximo ano profissionalizaremos o time. Temos a melhor goleira da região, Alice Pinto, pega muito, tem boa postura, base. Com a lei da CBF e Ministério dos Esportes que determina que os clubes como Icasa, Guarani, Barbalha, Crato e Campo Grande tenham equipes femininas para competirem em 2020 a perspectiva é muito boa. Virá verba da CBF para dar sustentação aos clubes. O objetivo é estruturar o futebol feminino para bater de frente com as grandes potências mundiais que são o Canadá, Espanha e Estados Unidos”, revelou.

O Nápoles reúne jogadoras de diferentes municípios caririenses e exporta atletas para clubes profissionais. “Como conhecedor do futebol feminino há décadas digo que é possível sobreviver só de futebol. A Taís Ferrer foi para o Tiradentes e a Luciana Mendes para o Abelhas Rainhas. É preciso melhorar nos incentivos, não temos aparato financeiro como o masculino, os empresários preferem investir no que é mais visto. Agora isso pode mudar. O único secretário da história que se preocupou com as mulheres foi Luciano Basílio, que coordenou nossa participação no Campeonato, junto com os diretores de esporte e geral. Viajou conosco, somos muito gratos. O projeto vai continuar. Se as meninas forem para o profissional, novo peneirão será feito. Também não tenho certeza se seguirei na equipe, pois, posso assumir um clube profissional feminino”, concluiu.

Atletas da Seleção Feminina de Futebol de Juazeiro do Norte em visita à estátua do Padre Cícero, antes de embarcarem para a disputa do Campeonato Intermunicipal, em Fortaleza. Foto: Lino Fly/Ascom Juazeiro do Norte

Em direção ao gol

É pra frente que se joga. O ataque avança para balançar as redes. O secretário municipal de Esporte e Juventude de Juazeiro do Norte, Luciano Basílio, afirmou que dará continuidade ao trabalho iniciado com a Seleção. “Demos apoio integral, material, uniformes, treinos, jogos, ônibus, alimentação e todo o suporte necessário. A expectativa é continuar, o projeto deu resultado. Meninas vão disputar campeonatos de nível nacional, como a Copa do Brasil pelo Ceará, então, já deu frutos. Sem falar no 3º lugar, entre as melhores do estado. Houve visibilidade muito grande, Juazeiro nunca teve seleção. Somos pioneiros e estamos no caminho certo. Precisa mais suporte e tempo e tudo isso aí a gente vai procurar fazer”, declarou.

Jogadoras de Juazeiro do Norte realizaram treinos no Estádio Romeirão, antes de estrearem na competição. Foto: Joelton Barboza/Ascom Juazeiro do Norte

Campeonato Intermunicipal

Organizado pela Secretaria de Esporte do Governo do Estado, o Campeonato Intermunicipal foi dividido por regiões, restando quatro equipes para as semifinais. O Cariri só inscreveu um time e por isso Juazeiro do Norte seguiu direto para o mata-mata. Perdeu a semifinal por 3 x 2 para o Pacajus no Castelão, em Fortaleza no dia 13 de dezembro e no dia seguinte, na disputa pelo 3º lugar contra Beberibe, golearam por 6 x1. Madalena fechava o grupo.

Seleção de Juazeiro do Norte em treino técnico no Centro de Treinamento do Fortaleza E.C. Foto: Arquivo pessoal

Futebol Nacional

Mesmo com grandes atletas, a Seleção Brasileira nunca foi campeã da Copa do Mundo. O máximo que chegou foi ao 2º lugar na Copa da Alemanha, em 2007 e às duas medalhas de prata nas Olimpíadas, em 2004 e 2008. E não é por falta de talento, já levantaram a taça da Copa América sete vezes. Marta é a maior artilheira em copas com 15 gols, superando Pelé (12). Há 30 anos foi realizado o primeiro Torneio Experimental da Fifa na China. No próximo ano, a França será palco para a 8ª edição da Copa do Mundo. O Brasil está no Grupo C e vai estrear contra a novata Jamaica no dia 09 de junho em Grenoble. Austrália e Itália estão na mesma chave. São 24 equipes no total em 30 dias de jogos (07 de junho a 07 de julho). Antes de 2015 eram apenas 16.

Sem contato

A reportagem entrou em contato com a Confederação Brasileira de Futebol, CBF, para saber quais clubes se enquadram na obrigatoriedade de formarem equipes femininas como condição de participarem de competições oficiais, todavia, até o fechamento desta produção, não houve retorno.

Atletas caririenses sonham com a profissionalização do futebol feminino na região. Foto: Joelton Barboza/Ascom Juazeiro do Norte

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