Arte e Cultura

Francisca Lopes e a arte de fazer divinos

Por Redação Cariri • 6 de janeiro de 2020

Por Gilmar de Carvalho.

Artistas de Juazeiro do Norte com barro, madeira, flandres, gesso, pedra, vidro, tecido, palha e papel, fazem uma das artes tradicionais mais vigorosas e diversificadas no Brasil. O dom, palavra de conotação religiosa, mascara o trabalho e o suor. As crianças, mesmo sem o acompanhamento formal dos adultos, aprendem a partir do olhar, e se iniciam, de forma lúdica, até trilharem seus próprios caminhos.

Em meio a tantos artistas, propostas e estórias, entra a figura discreta de Francisca Lopes, conhecida por Francisca Coquinho, moradora de uma casa estreita e comprida, à rua Santa Teresa, bairro São Miguel. Ela e a filha Silvana fazem imagens do Espírito Santo, no formato de pombas, os Divinos, como chamados pelos fiéis e pelos estudiosos.

 Ancestrais

Nascida em Juazeiro do Norte, em março de 1941, é a filha mais nova do escultor e gravador Manoel Lopes, alagoano de União, nascido em 1901, vindo para o Juazeiro, criança, com a mãe viúva, em busca de uma vida melhor, e de Maria, piauiense de Aroeiras, município de Picos, também nascida em 1901, artesã desde o casamento, em 1919. Dos doze filhos do casal, apenas três se criaram: Teresinha, Anísia e Francisca.

Manoel e Maria Lopes marcaram a cena artística do Juazeiro. Ele começou como caixeiro viajante e passou a esculpir imagens do Padre Cícero e oratórios de madeira, iniciado pelo mestre Manuelzim. A mulher fazia santos e inaugurou a tradição dos Divinos.

Dona Maria morreu em 1955, seu Manoel em 1973. Viúvo, se casou com uma mulher mais jovem, responsável pela dilapidação do patrimônio acumulado pela família. O que importa destas histórias de vida e de desencontros, é a iniciação de Francisca, o talento que aperfeiçoou, o conhecimento do mercado, e a opção pelos Divinos.

Voltando no tempo

A religiosidade do Juazeiro se exacerbou, a partir de 1889, ano do “milagre”, quando a hóstia se transformou em sangue, no instante da comunhão da beata Maria de Araújo. A história correu o sertão. Vinha gente de lugares bem distantes, pedir ao Padre Cícero autorização para se fixar na cidade santa, na expectativa de trabalho e de uma vida melhor.

Logo começaram as peregrinações, e a circulação das medalhas, cédulas de propaganda, gravuras impressas, cordéis e xilogravuras, tendo o Padre como protagonista. Criou-se um polo de fabricação de esculturas em madeira para abastecer as romarias, que cresciam em incidência e no número dos devotos.

Francisca evoca o “imaginário” seu Marcílio, e Mestre Nésio, dono de uma oficina em Juazeiro. Outros artistas se lançaram no mercado, sempre com as bênçãos do “Padim”, como foi o caso de Noza, pernambucano de Itaquaretinga do Norte. Prevalecia a máxima beneditina, adaptada ao sertão: “Cada casa uma oficina e um altar”.

Veio gente do Rio Grande do Norte, de Pernambuco, da Paraíba, das Alagoas, de todo o sertão. Em 1934, depois da morte do Padre, chegou o italiano Agostinho Balmes Odísio, ex-discípulo de Rodin, autor de um diário, publicado em edição fac-similar, pelo Museu do Ceará (2006), onde criticava os santeiros da cidade, pela improvisação dos instrumentos, dureza do corte, e falta de “acabamento”.

Iniciação

Francisca começou a fazer seus primeiros santos aos dez anos, lixando as peças, fazendo consertos. Aos quatorze, “comecei a trabalhar para mim”. Até poder dizer, sem falsa modéstia: “Eu aprendi a fazer tudo”. Ajudava os pais. A irmã mais velha, Teresinha, não gostava de esculpir e preferia pintar.

Ela se casou em 1960, com o sapateiro Francisco Marinho. Teve três filhas: Neide, Cícera e Silvana. Não devia ser fácil alternar os trabalhos da oficina, dentro da casa, com as atividades domésticas. Ela tinha prazo para entregar as encomendas dos santos.

Francisca tentava não se agastar com as brincadeiras das meninas, que também se iniciavam na arte da escultura, depois exercida por Silvana. Davi Saulo, filho de Silvana, aos quinze anos, esculpe como gente grande, fala em dom, e mantém a tradição familiar, depois da debandada do irmão Aleksandro, que montou uma lanchonete.

Enviuvou em 1995, aposentou-se em 1999, mas não conseguiu ficar longe do que sabe e gosta de fazer, voltando aos Divinos com redobrado ânimo.

Línguas de fogo

É frequente ouvir depoimentos de escultores de que a matéria, como o mármore ou a madeira, escondem, magicamente, a peça que vai ser esculpida. A retirada dos excessos mostra o que não se pode, não se deve ou não se quer esconder.

Francisca Lopes não recorre a esta imagem, mas bem que poderia fazê-lo. Dá para imaginar um Divino adormecido ou amordaçado dentro da umburana, e seu processo de soltura, à medida que faquinhas, quicés, canivetes e goivas retiravam os excessos. O pássaro, desperto do torpor, assimilava a luz ou o fogo de Deus e se mostrava por inteiro.

Foi assim em Pentecostes, cinquenta dias depois da Ressureição de Cristo, com a manifestação das línguas de fogo. É assim nas festas do Divino, comemoradas em São Luís do Maranhão; Amarante, Piauí; Paraty, Rio de Janeiro; Pirenópolis, Goiás; e Morada Nova, Ceará, cujo padroeiro é o Espírito Santo.

Estava sendo criado e fortalecido, ao longo do tempo, um nicho de esculturas que reproduz a pomba, como a terceira expressão de Deus. As outras eram o Pai, cujo rosto nunca foi mostrado, e o Filho Crucificado.

O Processo

A pomba foi utilizada, ramo de oliveira no bico, para anunciar a baixa das águas no dilúvio. Contemporaneamente, tornou-se um símbolo da paz, com Picasso, por exemplo. Esculpida num tronco de umburana,

é pintada de esmalte branco. Os pés e o bico são vermelhos. A medalha, em forma de coração, também é vermelha, e o trancelim dourado. Pousa sobre um trono azul ou verde, que pode ser um globo, simbolizando a Terra.

Interessante que o Divino de Francisca Lopes tem personalidade. É escultura, tridimensional, foge dos similares mineiros, goianos ou paulistas, onde a pomba é afixada a uma superfície de madeira, ganhando auréola, raios de luzes e outros adereços.

Muitos reclamam da demora do esmalte para secar. Se ela terminar a peça na sexta-feira, no sábado já estará pronta para a venda e não precisará do sol, bastando o vento e o mormaço.

Ri, meio sem jeito, quando indagada se já alcançou alguma graça pela mediação do Divino. Diz que sim, mas complementa, cética: “A gente fazendo, não tem muita fé, não”. Vende bem, “o pessoal leva tudo”, faz questão de dizer. Gente de fora, ressalta, turistas: “as vendas para o pessoal daqui são muito poucas”. Ela e Silvana vendem para a CEART (Av. Santos Dumont, Fortaleza) e atendem aos pedidos que recebem em casa. Antes de se especializar no Divino, Francisca, instigada por Stênio Diniz, nos anos 1970, fez bandas cabaçais, carroceiros, reisados, lavradores. Um grupo de retirantes, de sua autoria, ilustrou o anúncio da inauguração do Banco do Estado do Ceará, no Rio de Janeiro.

Fecho

Devota, nunca se “astreveu” a cortar um Padre Cícero, mesmo sendo muito vendável. Está tranquila em relação à sobrevivência, depois da aposentadoria, curtida como ócio, durante algum tempo, até voltar aos Divinos.

Tem poucos santos na parede votiva. Culpa as sucessivas mudanças, as passagens pelas casas alugadas, e sente saudades dos quadros com estampas grandes, que pertenceram a avó e foram ficando pelo caminho. A festa da Renovação é feita todo dia 20 de setembro. Abre a casa para a família, os amigos, e os vizinhos, rezam, cantam benditos, comem bolos, biscoitos, sequilhos, e tomam Cajuína São Geraldo.

Nenhuma de suas peças está no seu oratório. Isso é o de menos: o Divino está dentro dela. Importante que tenha dado continuidade à tradição do pai santeiro Manoel Lopes e da mãe artesã dona Maria, tendo criado um estilo, e transmitido estes saberes para parte dos descendentes. Silvana é autora do Divino que faz parte do Museu de Amarante (PI).

Hoje, outras pessoas fazem Divinos. Ninguém como Francisca Lopes, que deu asas ao pássaro de fogo, no contexto do Cariri cearense.

 

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