Consumo e Estilo

Forró sem contraindicações

A retrospectiva de hoje é de uma reportagem especial sobre o tradicional “Forró dos Véi”, publicada em nosso portal em 2016.
Por Pedro Philippe • 27 de setembro de 2019
Maria deu início ao Forró dos Véi, em Barbalha, para esquecer da dor e não deixar ninguém parado.

É comum em cidades pequenas da região algumas pessoas terem seu segundo nome substituído pelo nome do seu ofício ou do pai, da mãe, do irmão, e ainda, como no caso de Maria, o do marido. Por isso que ela era chamada Maria de Raimundo até o dia em que a sua participação no forró dominical no Parque Tasso Jereissati, em Barbalha, a fez conhecida como Maria do Forró. Ela ainda prefere ser chamada com o nome do marido junto ao dela, mas é inevitável não associá-la à festa que ela promove, o Forró dos Véi.

Frequentadora de um grupo de amigos da Vila Santo Antônio, há 18 anos dona Maria assumiu a liderança da turma e passou a organizar passeios frequentes à zona rural do município ou cidades próximas que oferecessem uma tarde de lazer e música para velhinhos ainda dispostos a dançar. Depois de muito viajar, ela pensou em promover o forró deles no Parque da cidade. Maria viu no forró com os seus amigos uma maneira de esquecer uma sequência de acontecimentos tristes – o falecimento de três de seus sete filhos. Depois da tragédia, Maria ainda adotou mais quatro filhas.

Com a voz embargada ela conta, segurando o choro, que não é fácil perder um filho, muito menos três. Logo em seguida, ela se ajeita na cadeira como se fosse levantar e repete a mesma cura que prolongou a vida do pai: “O forró também me salvou, sabia? Era pra eu ter enlouquecido”. Quando dona Maria Rodrigues chegou com o pai no consultório do médico cardiologista, havia, como nas novelas, uma notícia má e uma boa. A má era que o agricultor octogenário padecia de cardiomegalia, uma doença grave e incurável. E a boa: supreendentemente, pelo estágio da doença, ele aguentava mais do que o esperado. “Era pra ele ter morrido há mais de dez anos. O médico disse ‘foi o forró que salvou o senhor, seu Manoel!’”, Maria conta, imitando o doutor enquanto gesticula com os braços no ar e jurando que foi o som da sanfona uma vez por semana que deu ao pai mais uns anos na Terra.

Em 2008 a prefeitura municipal pediu de volta a área onde os velhinhos dançavam com a justificativa de efetuar uma reforma. Ciente de que o show nunca pode parar, Maria prontamente comprou um galpão de 15x30m e chamou os amigos para inaugurar o Clube da Melhor Idade Adalva Maria, em homenagem à sua mãe, de quem ela diz ter herdado a vontade incansável de trabalhar. Quando a reforma ficou pronta em 2012, a festa pôde voltar ao lugar de sempre, mas ela teria de alternar as tardes de forró com outra pessoa, utilizando a barraca quinzenalmente. Sem problemas, já que o forró abriga-se no endereço fixo, onde ela faz o forró nos domingos em que não está no Parque.

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Foto: Rafael Vilarouca

Para lá de disposta, ela acorda às 5h da manhã para montar a barraca e organizar o espaço onde homens e mulheres da terceira idade vão arrastar suas sandálias de uma às seis da tarde. Apesar de brincalhona, Maria impõe suas condições no terreiro: não quer ver idoso nenhum tomando bebida alcoólica quente e nem mulher usando roupa indecente. Cansada de alertar contra os dois riscos do forró, a cachaça e o rabo de saia, Maria até já recebeu um agradecimento: “Fiz um se comportar bem direitinho. O filho dele me viu na rua e veio me dizer: ‘Maria, você fez papai se comportar! Só você que conseguiu botar ele nos eixos’”, ela ri.

Ela recebe ajuda do marido e de duas filhas para fazer a festa acontecer, mas é responsabilidade dela contratar a banda – ou “o tocador”, como ela diz – e devolver o espaço do Parque limpo do jeito que encontrou. As despesas são pagas com o dinheiro que ganha da cerveja e dos lanches que vende. O lucro, no fim das contas, é quase nenhum. Maria faz porque gosta e porque, aos 61 anos, ainda tem disposição. Tirando uma dorzinha de cabeça que sente por causa do barulho do som, ela ainda acha que vai resistir por muito tempo.

Conhecedora dos gostos musicais da terceira idade, ela não mede esforços para trazer os tocadores que eles mais gostam. “Sanfoneiro eles gostam, mas já teclado não”, diz e depois baixa um pouco a voz para confessar que, apesar de ser a Maria do Forró, ela só dança bolero.

 

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