Especial

Um mundo de viagens e descobertas nas asas dos livros

Por Márcio Silvestre • 8 de janeiro de 2019

A leitura é um ato libertador, capaz de nos levar a territórios surpreendentes. Além de ser uma pausa no cotidiano repleto de atividades, podemos fazer da nossa leitura uma prática revolucionária.

 

O conhecimento é o melhor caminho para conseguir ampliar os horizontes, tornar-se mais atualizado, desenvolver o senso crítico e melhorar a argumentação. Tudo isso é possível de ser alcançado através do hábito da leitura. Em homenagem ao dia do leitor, comemorado na segunda-feira (07), a CARIRI Revista conversou com algumas pessoas que praticam esse exercício no seu dia-dia, dão dicas de leituras e explicam sua vivência pessoal com os livros. Boa leitura!

FOTO: Márcio Silvestre

Em cada livro uma aventura. Suelen Sobreira lê mais uma vez "O Diário de Anne Frank"

“Todos os livros que li fazem parte da minha vida”, afirma a jovem Suelen Sobreira, formada em Direito. Atualmente, ela estuda para concursos, uma rotina que exige preparo e prática constante da leitura sobre diversos assuntos. Mas para Suelen esse hábito é familiar e prazeroso. “Quando eu tinha uns seis anos, ganhei um livrinho com a história de ‘A Bela e a Fera’. Essa foi minha primeira leitura, desde então fui só desenvolvendo mesmo. Hoje meus gêneros literários preferidos são romance policial e biografias”, dentre as obras lidas, Suelen destaca “O diário de Anne Frankie”, livro escrito por uma adolescente durante a Segunda Guerra Mundial, que narra momentos vivenciados por um grupo de judeus confinado num esconderijo durante a ocupação nazista dos Países Baixos.

O Mediador de Cinema, Elvis Pinheiro, realiza desde 2008, na região do Cariri, o Lume – Ciclo de Leituras. Uma iniciativa que reúne pessoas para leituras coletivas de diversas obras. Ano passado em comemoração aos 10 anos do Lume, o grupo leu em conjunto “A Morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tolstói, considerado uma das obras-primas da literatura mundial. Para Elvis, a paixão pela leitura foi despertada ainda na infância, mas seguindo um caminho pouco habitual. “Tive sorte de ler nessa época autores que não escreviam para crianças. Li até pouca literatura infantil. Os poemas que lia eram do Manuel Bandeira, da Cecilia Meireles, do Drummond. Li muita crônica também, do Rubem Braga, da Clarice Lispector, do Fernando Sabino, do Marcos Rey e do Stanislaw Ponte Preta”, afirma.

Encontro do Lume – Ciclo de Leitura (Foto: Verônica Leite)

 

Elvis Pinheiro preparou uma lista com indicações de leituras clássicas, que foram essenciais na sua formação. Dentre elas estão: Orlando (Virginia Woolf), Cem Anos de Solidão (Gabriel García Marquez), A Montanha Mágica (Thomas Mann), O Cortiço (Aluizio Azevedo), Dom Casmurro (Machado de Assis), Feliz Ano Novo (Rubem Fonseca), Viva o Povo Brasileiro (João Ubaldo Ribeiro), Laços de Família (Clarice Lispector), Uivo (Allen Ginsberg), Uma Estadia no Inferno (Arthur Rimbaud), Cartas a um Jovem Poeta (Rainer Maria Rilke), Crime e Castigo (Dostoievski), História Universal da Infâmia (Jorge Luis Borges) e Histórias Extraordinárias (Edgar Allan Poe), além dos heterônimos de Fernando Pessoa e O Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago.

 

A Dama dos Versos

Cordelista, artesã e poetiza Josenir Lacerda (Foto: Marcos Vieira)

“A leitura foi e é fundamental na minha vida”, explica a cordelista Josenir Lacerda, que lembra a origem do gosto pela leitura em sua vida, adquirida através das histórias contadas pelos seus avós, quando ela ainda era criança. Narradas em prosa, as histórias que os seus avós contavam eram baseadas em clássicos da literatura de cordel, como “A princesa da Pedra Fina” e o “Pavão Misterioso”.

Quando menina, Josenir encontrou uma coleção de livros do Monteiro Lobato na casa de uma tia e começou a ler. Sua imaginação a levou ao sítio do pica-pau amarelo e foi nesse momento que ela se encantou pela leitura. “Através da leitura temos lazer, conhecimento, enriquecemos nosso vocabulário, alimentamos a criatividade, à medida que lemos, imaginamos cenários, histórias, personagens fantásticos. Graças a Deus o que eu sei hoje, a facilidade que tenho para a compreensão e o diálogo com as pessoas vieram a partir da leitura”, afirma a poetiza, que junto com o Mestre Elói Teles fundou em janeiro de 1991, a Academia de Cordelistas do Crato. De lá pra cá, Josenir já publicou 70 cordéis autorais.

A cordelista cratense foi convidada em 2010 para compor a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, sendo reconhecida pelos seus versos nacionalmente. Sobre indicação de leitura, Josenir destaca o escritor Érico Veríssimo autor de livros como Música ao Longe, Olhai os Lírios do Campo, Incidente em Antares e muitos outros.

Josenir fez alguns versos sobre a leitura no cordel “VIVA A LEITURA”, escrito em parceria com a também cordelista Dalinha Catunda:

13.
Quem se dedica à leitura
Garante a facilidade
Na hora de escrever
Não sente dificuldade
Quem é assíduo leitor
De ser um bom escritor
Cria a possibilidade.
14.
A leitura rasga o véu
Do olhar retira a venda
Quem tem costume de ler
Abraça encantada lenda
Sendo o livro boa fonte
A leitura vira a ponte
Que um novo mundo desvenda.
15.
E nada como voar
Nessa mágica aventura
Chegar até *Avalon
Sobre as asas da leitura
E com os deuses e fadas
Fazer lúdicas jornadas
Sobrevoando a cultura.
16.
A leitura nos eleva
Ao mais alto patamar
E nos mostra o universo
Sem sairmos do lugar
O livro faz o roteiro
Mesmo com pouco dinheiro
Conseguimos viajar.
17.
A criança deve ser
Logo cedo incentivada
As histórias infantis
Atraem a meninada
Que vendo tanta magia
Mergulham com alegria
Nesta lagoa encantada.

 

Projetos de leitura

Além do Lume, é importante destacar outros projetos de incentivo a leitura, que acontecem no Cariri. O Serviço Social do Comércio (SESC) realiza, na região do Cariri, a “Biblioteca Itinerante”, que consiste em levar a literatura para comunidades, escolas e equipamentos públicos, de forma lúdica, através de oficinas e contações de história, com alvo no público infantil.

O Programa Território da Palavra, idealizado pelo Coletivo Camarada, na Comunidade do Gesso, em Crato, é um exemplo de iniciativa inspirado no conceito de formação de uma cidade leitora. De acordo com o pedagogo Alexandre Lucas, o programa envolve vários projetos que incluem grupos e rodas de poesia, pontos de leitura nas budegas da comunidade, lançamentos de livros na rua, como forma de democratização e popularização do livro, dando uma nova dimensão e incluindo a participação de intelectuais juntamente com outros atores sociais.

A intervenção “Poste Poesia” (que já publicamos aqui na Cariri), também faz parte do Programa Território da Palavra, uma iniciativa que se propõe a tornar os postes de iluminação pública uma espécie de páginas de livros, o que acaba possibilitando que a poesia esteja na via pública instigando a leitura, que está na altura dos olhos do adulto e da criança. “Nós entendemos que essa série de ações possibilita pensar novos espaços para produção e desenvolvimento de atividades literárias. A ideia de tornar a literatura algo acessível, também está vinculada a ideia de desinvisibilizar uma área que historicamente é estigmatizada”, ressalta Alexandre Lucas.

Márcio Silvestre

Márcio Silvestre

Formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), com experiência em Assessoria de Imprensa e Produção Cultural. "A comunicação e a arte se cruzam no meu caminho. Descobri no jornalismo a oportunidade de contar histórias e compartilhar conhecimento".