Especial

Tocando Guantanamera sem parar

Por Redação Cariri • 4 de junho de 2019
Foto: ANNA JEDYNAK/SHUTTERSTOCK

 

Por Alan Luna – Jornalista e publicitário barbalhense, radicado no Rio de Janeiro. Em abril ele esteve em Cuba com a esposa e, na volta, nos contou suas experiências na ilha da revolução, onde assistiu à marcha no Dia do Trabalhador e visitou o bar onde Hemingway enchia a cara.

 

O Dr. José Diaz coordena uma das nove faculdades de Medicina de Havana. Numa noite chuvosa do fim de abril, em um hotel no centro da capital cubana, ele ergue as mãos para o céu e roga “dez mil vezes” para que Hillary Clinton seja eleita a próxima presidente dos Estados Unidos.

O arroubo hiperbólico do Dr. Diaz traduz um sentimento frequente nas conversas que mantive com os cubanos durante a semana que passei em Havana: a esperança de que o reatamento de relações diplomáticas com os vizinhos ricos do norte, e o presumível fim do embargo comercial, signifiquem um salto de prosperidade para a ilha — algo que, eles creem, depende da eleição de um político democrata, e não um republicano, para suceder Barack Obama.

Diaz tem forte ligação com o Brasil: antes que o termo “médico cubano” virasse bússola do Fla x Flu ideológico por aqui, ele morou por duas longas temporadas, entre os anos 1990 e os 2000, no Hospital São Vicente, em Barbalha. Dois dias depois do nosso reencontro, a sua categoria, a dos profissionais de saúde, lideraria um dos grandes eventos do calendário cívico cubano: o desfile do Primeiro de Maio, na Plaza de La Revolución. Numa ditadura do proletariado, como não poderia deixar de ser, o Dia do Trabalhador é algo bastante apoteótico. Como numa final de campeonato brasileiro por aqui, mesas-redondas de comentaristas na TV debatem e buscam prever como será o grande dia. Repórteres de campo fazem flashes ao vivo do local, no afã de transmitir “como está a expectativa” dos que ali preparam o espetáculo.

 

FOTO: KAMIRA/SHUTTERSTOCK

As cores, ritmos e charutos da ilha onde o amor faz a revolução.

No dia da marcha, tomei um cocotáxi. Comuns em Havana, essas motos adaptadas carregam até dois passageiros, além do motorista, e levam esse nome, presumo, porque simulam o formato da fruta que lhes batiza. Parecem querer soar tropicais.

Já na praça, ladeada pelos enormes painéis de Che Guevara e de Camilo Cienfuegos que adornam os ministérios do Interior e das Comunicações, pude perceber que assistir ao desfile de Primeiro de Maio em Cuba era algo atrativo não só a mim. Ao meio-dia, turistas das mais variadas nacionalidades faziam do espaço por onde mais cedo passaram Raul Castro e Nicolás Maduro uma quarta-feira de cinzas improvável: sob o olhar atento de um guarda em verde oliva e entre cartazes de Fidel e Chávez, bebia-se rum Havana Club e fumava-se charutos sem cerimônia.

Entregar-se a tais prazeres em Cuba, a propósito, não é muito difícil: além de realmente delicioso, o rum é bastante acessível ao estrangeiro. No heterodoxo sistema cambial da ilha, há duas moedas – e um peso de turista (o CUC), que custa cerca de um euro, vale 25 vezes o peso que recebem os cubanos (o CUP). De modo que comprar garrafas da bebida ou tomar drinques na cidade não é proibitivo.

 

 

Boa razão para deixar-se ficar em bares obrigatórios, como a Bodeguita del Medio, o Floridita (onde, reza a lenda, Hemingway acaba-se no daiquiri) e o Hotel Nacional (a área comum dos hotéis costuma ser aberta mesmo a quem não está neles hospedado). Fora do clássico, uma boa opção é o Sia Kará, espécie de oásis indie, por trás do Capitólio, onde é possível ouvir um pouco de rock anglofônico quando a salsa com acento jazzístico – soberbamente executada, mas onipresente em 99% dos bares da cidade – estiver fazendo você falar guantaname- ra como quem pontua vírgulas entre as frases.

Cigarros são outro item muito barato (a produção é, em boa parte, feita pela Brascuba, joint venture do governo local com a brasileira Souza Cruz). Apenas os charutos, sobretudo os de marcas como Cohiba e Monte Cristo, custam mais caro – e não será raro que algum cubano insista em vendê-los a você se perceber tratar-se de um gringo. Essa prática, conhecida grosso modo como jineterismo, é o ponto fraco da ilha: insistentes como se não houvesse amanhã, os jineteros enxergam no turista aquele dólar ambulante que lhes proverá alguma renda extra.

São chatos, mas nada que tire o prazer de interagir com o cubano “comum” – em geral culto e simpático, embora talvez um pouco melancólico – e descobrir a cidade, em seus aspectos óbvios e outros nem tanto assim. Disneylândia da utopia, Havana tem pontos irrecorríveis: o Museu da Revolução e o Memorial Gramna, por exemplo. Apesar do certo aspecto de “Feira de Ciências ginasial” na disposição do acervo, são pontos obrigatórios.

Menos badalado, o Museo Nacional de Bellas Artes é ainda melhor: a produção cubana contemporânea é incrivelmente instigante, e, como bem observou um amigo meu historiador da arte, guarda bastante semelhança com as preocupações, de forma e conteúdo, expressas pela arte brasileira. Ali me questionei porque sabemos tanto do que há no Louvre e no MoMa e tão pouco do que produz a arte latino-americana.

Outro ponto de interesse é o Palácio de los Capitanes Generales, sede de vários governos coloniais. Foi nele que uma simpática guia me proporcionou um momento de epifania: enquanto ela explicava o que víamos, perguntei-lhe algo como “mas isto foi antes da independência?”. Ao que ela respondeu: “Nós nunca fomos independentes… até a revolução”.

A revolução cubana, a que ela se refere, deu-se em 1959. São 56 anos. Um ontem, para a história. Isso talvez explique o fascínio ou a repulsa – nunca a indiferença – que a simples menção à palavra Cuba costuma provocar: trata-se de um país em formação, algo mais ou menos sintetizado pelo escritor Leonardo Padura em coluna recente na Folha de S. Paulo: “Viajar a Cuba está definitivamente na moda, pois há muitos que viajam para ver o que ainda é o país que, segundo pensam, em pouco tempo deixará de sê-lo”.

MI CASA, SU CASA

Outro que curtiu de perto a experiência cubana foi o advogado José Wilson Damascena, que desde que se casou com Edineusa, em 2003, vive viajando pelo mundo. Atualmente, só faltam três países para eles riscarem da lista de lugares a conhecer na América Latina. Ele passou 15 dias em Havana este ano e, depois de tantas aventuras, tem muitas dicas de viagens para compartilhar.

FAÇA AMIZADE, TROQUE EXPERIÊNCIAS

O salário médio dos trabalhadores cubanos é cerca de 20 dólares. Como não é permitido à televisão dar as notícias do mundo, eles ficam “fechados” e acham que o governo não está passando as informações completas, de forma que muitos pensam que o mundo do “lado de cá” é melhor. Mas, indo a Cuba, a gente vê que um morador de lá vive bem melhor que uma pessoa de classe média do Brasil.

APRENDA A DIVIDIR

O transporte público é baratíssimo, mas há opção de táxi para cinco pessoas, que funciona como um sistema de “carona”. Lá, todo mundo tem essa noção de coletividade, então as pessoas dividem as coisas. Quando voltamos, minha esposa achou que podia compartilhar do táxi e, claro, dividir o valor. Aí o taxista falou “Não! Aqui as pessoas gostam de privacidade”. Nós temos muito isso de “é só meu” e não queremos compartilhar como os cubanos.

VÁ À PRAIA DE VARADERO

Eu recomendo o leitor a ir a Varadero, se quiser conhecer o mar do Caribe. É como qualquer outro lugar turístico do mundo. Porém, se quiser conhecer a vida da população e entender como vivem os cubanos, saiba que muitas pessoas recebem turistas nas próprias casas. É só acessar o Airbnb e se informar sobre a hospedagem. Uma diária para casal, por exemplo, custa 25 CUCs.

MALECÓN

O pôr do sol no Malecón é indescritível. O muro de concreto que impede que o mar engula Havana tem um pôr do sol sensacional.

 

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