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Tesouros talhados no Cariri

Por Redação Cariri • 21 de maio de 2019

Na pancada do martelo, o ‘olho esperto’ poderá visualizar um verdadeiro tesouro no cuidadoso e hábil manejo dos instrumentos. O minerador, que todos os dias está na lida da retirada da pedra Cariri para comercialização, voltada principalmente à construção civil, é o maior agente desse processo de identificação inicial de fósseis encontrados na área da Bacia Sedimentar do Araripe. Mesmo com os avanços da ciência na região. Ainda são poucos os pesquisadores para exploração de um universo tão vasto e pródigo de novas descobertas.

FOTO: Allan Bastos

Por Elizangela Santos

Nos locais de extração há minas de fósseis da era Cretácea a céu aberto, de até 120 milhões de anos. No meio desse olhar, outra visão se encantou pela descoberta do dia-a-dia dos homens das minas do calcário laminado. Trata-se do fotógrafo Allan Bastos, que por mais de dois anos realizou uma pesquisa para expor a história destes trabalhadores das pedras e a árdua tarefa de vislumbrar o que é importante para a ciência, dentro da busca pela sobrevivência, por meio de um trabalho primitivo. O projeto ‘Talhado Cariri’ terá uma segunda etapa, mesmo ainda exclusivo em sua quase totalidade.

Na poeira fina das pedras, as imagens surgem inéditas para Allan. Em sua pesquisa, ele acompanhou trabalhos importantes que estarão também voltados para o processo de conscientização, como o projeto Jovens Paleontólogos, desenvolvido pelo Geopark Araripe, que busca de preservar um tesouro muitas vezes perdido ou até comercializado por meios ilegais.

Desde a chegada dos operários nas minas em suas motos, bicicletas, ou a pé, e a sua forma de vida. Todos os passos foram acompanhados pelo fotógrafo, dentro do processo de extração. A atribuição veio por meio de uma pesquisa pelo CNPq, de poder fazer esse registro para um documentário, ainda inédito, e que a por meio da Cariri Revista divulga com exclusividade, em primeira mão.

 

Para Allan, esse foi um primeiro momento, já que a partir de agora a sua meta é poder captar o impacto que os rejeitos estão causando ao meio ambiente. As montanhas de pó de pedra já não alimentam mais as fábricas de cimento e transformam a paisagem de municípios como Nova Olinda e Santana do Cariri. O impacto ambiental da exploração nas jazidas e do refugo do material após a retirada das placas de calcário laminado tem sido uma realidade nos terrenos, sem nenhum apelo constante dos órgãos ambientais para um controle mais efetivo. O fotógrafo pretende acompanhar esse processo, tanto nos períodos de estiagem como na fase de chuvas, no intuito de verificar a mudança de paisagem nesse intervalo. Será, então, a complementação do seu trabalho.

‘Gente’ é o seu foco de registro. Allan se debruçará agora com uma perspectiva diferenciada. Em mais de 20 anos de atividade no ramo, focará na conclusão de uma uma etapa de trabalho que considera importante para a conscientização, tanto da população como também do ponto de vista institucional.

Das minas, ele pôde perceber muito bem que não há controle do que sai em termos de fósseis. Não há paleontólogos nos locais de extração para verificar o que é encontrado nem fiscalização adequada, com aval científico. Por enquanto, o ‘olho esperto’, bem acompanhado por Allan, ainda parece ter uma grande vantagem em relação à ciência, mesmo com o crescimento no número de pesquisadores da área que o Cariri vem tendo nos últimos anos. Quanto ao livro sobre o “Talhado Cariri”, não há perspectiva de lançamento. A luta agora é por parcerias e apoio institucional para a publicação do trabalho.

Fotos: Allan Bastos.

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