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O sertão dentro de Tiago Santana

Por Redação Cariri • 8 de fevereiro de 2019

A fotografia de Tiago Santana é sensível, artística e poderosa na crítica social. Não à toa é, aos 51 anos, considerado um dos maiores fotógrafos brasileiros autorais da atualidade. Nascido em Crato e marcado pelas vivências culturais em Juazeiro do Norte, onde se encantou pelo trabalho com a imagem, Tiago diz “não ter dúvidas para onde apontar o olhar”. Entre livros, lentes e retratos, Tiago Santana compartilha sua história com o sertão, com o sertanejo e com a escrita da luz, revelando-se ainda um garoto fascinado pela fotografia.

 

 

 

FOTO: Jarbas Oliveira

Artista da luz preta e branca: Tiago Santana, 51, filho do Crato, criado em Juazeiro do Norte. Fotógrafo da vida no sertão e segundo brasileiro, ao lado de Sebastião Salgado, a ser publicado pela Coleção Photo Poche.

Por Alana Maria.

Quando criança, Tiago Santana adorava o seriado Shazan, Xerife & cia, tendo suas fabulações de menino marcadas pela ideia de ter uma bicicleta voadora como a dos personagens. Curioso, Tiago propôs ao pai, Eudoro, a tarefa de juntos desenvolverem um protótipo que permitisse o voo. Como bom engenheiro, Eudoro sabia que, por mais que o filho pesquisasse e tentasse, dificilmente conseguiriam realizar a façanha. Dito e feito. Tiago lembra em detalhes o dia em que convidou os amigos para verem o primeiro teste de sua bicicleta voadora que nunca conseguiu sair do chão. “Parece besteira mas, no fundo, essa história teve um impacto grande em minha vida”, revela. “Mesmo sabendo que não seria possível, ele me deixou sonhar e foi comigo nesse sonho até o fim. Esse exercício de se permitir tentar e ousar foi bastante educativo”, analisa.

Foi justamente este aprendizado sobre a possibilidade de ousar que fez Tiago Santana deixar para trás, ainda na juventude, a graduação em Engenharia Mecânica para se dedicar a uma obsessão inconsciente: a imagem e tudo aquilo que compunha o retrato do sertão nordestino. Talvez a Engenharia nacional tenha perdido um excelente profissional, não saberemos. No entanto, a certeza é que esta escolha presenteou os olhos de todos com a sensibilidade afetiva, a crítica e o poder de síntese de um dos maiores fotógrafos brasileiros autorais da atualidade.

Nascido em 1966, em Crato, mas com fortes vivências em Juazeiro do Norte, onde morou na infância, Tiago é filho de Eudoro Santana, natural de Quixeramobim, e Ermengarda Maria de Amorim Sobreira, fortalezense com raízes no Cariri. É casado com Luciana Lobo Miranda, psicóloga e phD, com quem teve dois filhos, João, 19, e Maria, 15, e atualmente divide o tempo entre Fortaleza, Rio de Janeiro e Nova Iorque, onde a esposa cursa o pós-doutorado. Entre seus trabalhos estão os livros fotográficos Benditos (2000), Brasil sem fronteiras (2003), O Chão de Graciliano (2006), Patativa do Assaré: o sertão dentro de mim (2010) e Céu de Luiz (2014), obras que desde 1994 vêm destacando o fotógrafo em premiações, como os prêmios Marc Ferrez de Fotografia, Conrado Wessel, Associação Paulista de Críticos de Arte e o prêmio O Melhor da Fotografia no Brasil de 2007 a 2009.

Ao lado do inigualável Sebastião Salgado, apenas outro brasileiro teve seu trabalho publicado na Coleção Photo Poche, do francês Robert Delpire, ex-diretor do Centre National de la Photographie, considerada umas das mais importantes publicações fotográficas do mundo. Benditos e O Chão de Graciliano, de Tiago, caíram nas mãos de Delpire pouco depois do lançamento deste último, em 2006. Quatro anos depois desse encontro, a coletânea Sertão (2010) é lançada sob o selo internacional, fazendo o cearense Tiago ganhar o mundo pelas páginas dos livros.

Livros, aliás, são marca firme na trajetória do fotógrafo, que atualmente também é editor de projetos na Tempo d’Imagem, editora que ajudou a fundar e onde desenvolve projetos autorais que “geralmente outros não apoiam”, em suas palavras. Aliado aos livros de fotografia, verdadeiros manuais de inspiração para o jovem Tiago no final da década de 1980, outros dois fatores foram de grande contribuição para o envolvimento dele com a fotografia: o cenário caririense e as Semanas Nacionais de Fotografia, encontros promovidos pelo Instituto Nacional de Fotografia em diversas cidades do país.

Foi em um desses encontros, em Fortaleza, na Universidade Federal do Ceará, onde Tiago ainda estudava na Faculdade de Engenharia, que ele teve seu primeiro contato com a fotografia profissional. “Eu caí de paraquedas naquele mundo e descobri, maravilhado, que existia todo um movimento, um universo fotográfico de pensamento e de intensa reflexão sobre o assunto”, recorda. “Aquele foi meu despertar. Quando percebi que a fotografia era muito mais do que o mundo que eu vivi no Cariri, aquilo me abriu a cabeça, sabe? Descobrir que não era apenas uma experiência isolada, mas muito mais!” e conta sobre as aventuras do pai com a fotografia amadora, com a sala escura e com as filmagens em Super-8, das quais ele acompanhava.

Aos poucos, foi deixando a abstração dos cálculos e imergindo no trabalho com a imagem. Assistiu palestras, participou de oficinas e seguiu, quase como em caravana, as Semanas de Fotografia que aconteciam Brasil adentro. Não demorou muito, Tiago deu seus primeiros passos trabalhando aqui e acolá com fotografia comercial, de arquitetura e fotojornalismo. Cliques conceituais já apareciam, mas foi apenas em 1992, quando decidiu pela fotografia como meio de vida, que iniciou seu primeiro trabalho autoral e consistente: o projeto Benditos. “Eu só tinha uma coisa em mente: fazer meu trabalho sobre Juazeiro”, dispara. “E esse trabalho foi minha formação, minha graduação e mestrado… Foram 8 anos pensando e trabalhando em torno de Juazeiro do Norte e suas místicas”.

Em 1994, o projeto Benditos recebe apoio da Bolsa Vitae de Artes, ajuda importante para a continuidade do trabalho sobre a cidade de sua infância, e fôlego ao artista, que naquele período se encontrava em processo de amadurecimento “como fotógrafo e como pessoa”, o próprio avalia. Usufruindo da dádiva do tempo, Tiago encontrou romeiros, jornalistas, editores e outros fotógrafos. De cada encontro, extraiu um pouco para seu crescimento e doou também um pouco de si. Além da familiaridade com o cenário que desejou retratar, foi crucial para a qualidade do fazer fotográfico sua sensibilidade com o outro e a criticidade social diante da conjuntura.

Se a fotografia pode atuar como a personificação de uma ideia, os registros por Tiago Santana em Benditos (2000) refletem importantes momentos de sua história e da história de Juazeiro do Norte em um esplendor visual de dedicação, comoção e martírio movidos pela fé de um povo característico, o povo nordestino. Tamanha é sua aproximação com o retratado que seus enquadramentos assimétricos no meio da romaria é um recado para o leitor: o fotógrafo está entre as pessoas e este trabalho nada mais é que um longo mergulho nessa multidão de sentidos.

Luz e enquadramento: Nada é por acaso na fotografia de Tiago Santana.

“Juazeiro do Norte é a síntese do Nordeste”, o fotógrafo costuma dizer quando perguntado o que há, afinal, de especial sobre a região. “Juazeiro é repositório de desejos”, completa, poetizando. “Foi um privilégio ter nascido na região do Cariri, ter vivido as experiências que vivi em meio de todas as características do local, com toda aquela magia, loucura e universo de sentidos da arte, da cultura popular, do artesanato e das tradições. Tudo isso foi marcante, em todos os sentidos, inclusive visualmente. Eu não conseguia esquecer Juazeiro. Então, de certa forma, acabar me voltando para o trabalho com a imagem é consequência de ter nascido ali, naquele lugar”, declara.

“Benditos foi minha devolução à minha terra natal. Foi o trabalho mais importante que fiz”, entrega. Na época de seu lançamento, uma das primeiras ações do fotógrafo foi alugar um rancho ao lado do Museu do Padre Cícero, transformando-o em um “rancho de fotógrafo, um local de romaria”. Ali expôs as fotografias- que fizera utilizando candeeiros como iluminação base, lençóis para projeção das imagens e sistema integrado de som no qual se ouviam os benditos cantados.

Estreando em grande estilo, os recortes sobre Juazeiro do Norte postos no livro também foram expostos no Sesc Pompéia, em São Paulo, em 2001. Audálio Dantas, jornalista de longa data, estava à procura de um fotógrafo que o acompanhasse na missão de contar a história e o trabalho do escritor Graciliano Ramos. Ao ver aquelas imagens, soube que Tiago seria a escolha certa, se não fosse pela origem nordestina e sensibilidade ao tema, fosse por sua preferência, assim como Graciliano, por retratar pessoas, deixando as paisagens como pano de fundo.

O Chão de Graciliano é lançado em 2006, fruto de três anos de trabalho da dupla percorrendo o sertão de Pernambuco e Alagoas. Aperfeiçoando o olhar e incluindo em sua bagagem de equipamentos uma câmera panorâmica Linhof, Tiago mostrou propriedade, aprofundamento e consistência em suas composições imagéticas. Manteve de Benditos a preferência pelo clique em preto e branco, o qual o fotógrafo defende como reforço do mistério criado pelo enquadramento e do sentido dramático que a cena oferece. “O uso da cor é mais um elemento visual na composição da fotografia e a minha intenção é que ela seja forte e pesada, sem meio tom, assim como uma xilogravura é, e assim como o que estou tentando retratar”, explica.

Mantém também o uso do filme, em contraposição ao arquivo digital já devidamente popularizado. O fotógrafo considera o filme mais adequado aos seus trabalhos, como uma tentativa de se mesclar ao máximo no tempo do sertão que captura. Essa decisão também influencia em sua percepção do tempo fotográfico. Seus cliques não são desperdiçados pela pressa. Ele trabalha a paciência e a sensorialidade. “Fotografia não é roubo; é doação”, determina.

Assim como Graciliano foi conciso, alguns diriam cirúrgico, nas palavras de suas obras São Bernardo (1934), Angústia (1936) e Vidas Secas (1938), para citar algumas, Tiago Santana foi preciso no uso de sua câmera. “Não tenho dúvidas de para onde apontar o olhar”, afirma. Suas fotografias, além de poéticas e ricas em estimulam longos debates teóricos, revelam uma trágica realidade social a partir de recortes artísticos e sutilezas que somente um mestre da “escrita da luz” poderia ter. “A fotografia que me interessa é aquela que não entrega tudo, é aquela que falta algo. Ela é fragmentada e existe um mistério a ser completado por quem a vê”, explica Tiago.

É clara a herança dos pensamentos do pai, Eudoro Santana, na percepção de mundo do filho e, consequentemente, no trabalho dele. Militante estudantil na juventude e sindicalista na fase adulta, Eudoro foi perseguido politicamente pela Governo Militar, durante a Ditadura, por seus posicionamentos progressistas mais à esquerda. Não apenas na teoria, mas na práxis política pela igualdade social, pai, mãe e filhos, desde cedo, trilharam caminhos populares: frequentemente participavam de atividades educativas e emancipatórias em comunidades rurais e sítios Ceará adentro. Fruto deste movimento paterno também está a liderança política de Camilo Santana, irmão de Tiago, ex-Deputado Estadual e atual Governador do Estado do Ceará pelo Partido dos Trabalhadores.

Para o processo produtivo de O Chão de Graciliano, Tiago Santana reafirma seu interesse pelas relações sociais e humanas. “A obra (de Graciliano Ramos) em si não é sobre a paisagem, mas sobre as relações humanas, psicológicas e o que mais for entre os personagens daquela trama. É isso que me interessa. Não sou um fotógrafo de paisagens. É claro que a paisagem importa, que tem seu devido impacto, mas sou fotógrafo de pessoas”, diz.

Não à toa, a fotografia é pretexto pra Tiago. “Para mim, fotografia é encontro. Ela nasce de encontros para gerar outros encontros. Ela é meu encontro com a história do meu pai, com a lembranças de Juazeiro e comigo mesmo”, conclui. Neste universo de convergências, em 2014, o fotógrafo e o jornalista Audálio Dantas repetem a parceria em Céu de Luiz, um livro que se desdobra para dar de conta do tamanho da história do maior trovador do Nordeste, o rei do baião, Luiz Gonzaga, e também para comportar as séries de panorâmicas que Tiago faz dos sertanejos na infinita paisagem áspera do semiárido.

Ante do mergulho nas notas dadas pela sanfona de Luiz, Tiago, o artista da luz preta e branca, revisitou o amigo poeta Antônio Gonçalves da Silva, em Assaré. O resultado é o memorável livro Patativa do Assaré: o sertão dentro de mim (2010), com fotografias intimistas dos últimos anos de vida do poeta popular mais admirado do Brasil, textos assinados pelo historiador Gilmar de Carvalho, em um “ABC do Patativa”, e xilogravuras do mestre José Lourenço.

Imagem, palavra e som são contemplados nas imersões fotográficas de Tiago Santana, que declara nem sempre a foto em si ser o mais importante no processo. “Escolhi a fotografia como uma forma de me comunicar com o mundo e de estar próximo das pessoas. Isso, inclusive, mudou a maneira como me relaciono. Eu me aproximei demais…”, diz, julgando seu processo mais como uma troca de experiências e a construção de uma história e menos como simples captura de uma fração de segundo que passou.

Em quase 30 anos dedicados exclusivamente ao trabalho com câmeras, lentes, pessoas, quadros e livros, Tiago Santana, na idade dos 51, fotógrafo renomado em território nacional e expoente da identidade cultural nordestina no exterior, cabeça à frente da Editora Tempo d’Imagem e curador do Instituto de Fotografia, em Fortaleza, ainda se mostra um garoto encantado pela descoberta mágica da caixa preta. “Existe algo de fantástico na fotografia que é seu poder de síntese, seu poder de contar uma história em uma única foto. E mesmo assim ela não dá de conta de tudo. Esse mistério me fascina”.

 

Redação Cariri