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Mexeu com uma, mexeu com todas

Por Redação Cariri • 8 de março de 2019

Por Alana Maria.

Feminismo deixou de ser palavrão? Mulheres que sonham e que lutam vão às ruas em todo o país, ocupam as redes sociais e criam iniciativas solidárias, apresentando uma nova maneira de discutir antigas questões delicadas. Se 2015 foi o nascer da primavera das mulheres, o que quer esse novo feminismo e quem ele representa?

FOTO: Samuel Macedo

Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede.

De mãos dadas, elas marcham na linha de frente da manifestação. Conduzem as palavras de ordem e as falas públicas, dialogando sobre a conjuntura política e exigindo mudanças. De corpo pintado, língua afiada e olhos atentos, à flor da pele elas marcham, principalmente, pelo direito de viverem com dignidade. “Companheira me ajude/ que eu não posso andar só/ Eu sozinha eu ando bem/ mas com você ando melhor”, entoam a pesadas passadas, com tambores ditando o ritmo.

Outubro de 2015. Mais de 15.000 mulheres e meninas ocupam as ruas, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na semana anterior, o Projeto de Lei 5069/13, apresentado pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tramitava com força no Plenário da Câmara dos Deputados, ameaçando direitos femininos como o de realizar aborto seguro em caso de estupro, garantido desde 1940 pela Lei 2848, e podendo dificultar o acesso à pílula do dia seguinte em postos de saúde.

Os atos se repetiram nas capitais e espalharam-se por outras cidades. Aos montes, foram levantados cartazes com os dizeres: “Pílula fica, Cunha cai”. As  feministas, apoiadas pela opinião dos profissionais da Saúde, viram no PL uma ofensiva aos direitos tão duramente conquistados. “É para punir quem violenta, não a vítima”, bradaram em uníssono.

“O grito trancado na garganta escapuliu e milhares de mulheres têm saído às ruas nos atos pelo ‘Fora Cunha’, em defesa de direitos que já conquistamos e pelos que ainda lutamos. Cunha é a manifestação do ataque conservador aos direitos das mulheres e também o símbolo máximo da putrefação de um sistema em que as mulheres não têm voz e nem vez”, escreveu Luciana Genro (PSOL-RS) em coluna especial para a Carta Capital.

Piquenique Feminista: elas fazem parte da nova onda feminista e querem revolucionar o mundo com ideais de igualdade entre os sexos (Fotos: Samuel Macedo).

Jornais e revistas de circulação nacional e os próprios movimentos definiram 2015 como o nascer da Primavera das Mulheres, uma nova etapa dos movimentos feministas. Isso porque, antecedendo os acontecimentos do fim do ano, a Marcha das Margaridas reuniu 70.000 mulheres camponesas, indígenas e sindicais em Brasília, local onde depois aconteceu também a primeira Marcha das Mulheres Negras contra o racismo, a violência e pelo bem viver, somando 10.000 mulheres dos quatro cantos do país. Mais cedo, em janeiro, a presidente Dilma Rousseff sancionou a Lei do Feminicídio, reconhecendo a disparidade de assassinatos entre homens e mulheres e categorizando de crime hediondo a morte motiva por violência de gênero. Sem esquecer das companhas virtuais contra o assédio, instrumentos de alerta, debate e união, mobilizando milhares de pessoas em torno de assuntos delicados à questão feminina.

De São Paulo ao Cariri, as pautas convergem, fortalecendo o grito de guerra feminista: “Mexeu com uma, mexeu com todas!”. Região que se destaca quando o assunto é insatisfação com políticas de segurança da mulher e promoção da igualdade de gênero, o Cariri figura também como uma das regiões mais violentas para as mulheres, com números alarmantes de casos de abusos, maus tratos e assassinatos. A reação consciente faz surgir movimentos em torno do combate à violência, agregando jovens que renovam o sangue e ateiam lenha ao incêndio feminista.

AS QUE COMANDAM VÃO LUTAR

Durante três anos, a Marcha das Vadias do Cariri, primeira experiência feminista regional a agregar a juventude, chocou ao expor a violência sexual contra a mulher nos mais diferentes níveis de vivência. E foi vitoriosa pelo trabalho de base, dialogando com camponesas e agricultoras que – pasmem – participaram das marchas por entenderem que “se ser livre é ser vadia, então somos todas vadias”. Em 2014, o conceito foi superado por deficiências internas, como não conseguir incluir as mulheres negras, historicamente sujeitas ao adjetivo “vadia”, que não as contempla, e reformulou-se na Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri.

No mesmo ano, uma tragédia. Em apenas um mês, 10 mulheres são assassinadas por seus ex-companheiros no Cariri. Um triste pesar que espelha a cultura machista de uma região que cresce, mas não supera seu passado coronelista. Vidas ceifadas por armas brancas, como na maioria dos feminicídios, as vítimas foram mulheres como as outras, como nós, que não terão justiça. De preto, amigas, colegas, militantes e desconhecidas descem, às centenas, a já simbólica Rua São Pedro, artéria importante de Juazeiro do Norte, obstruindo o trânsito, levantando cruzes e faixas, questionando quanto vale a vida de uma mulher.

Em 11 anos, foram 191 casos de mulheres assassinadas por crimes de gênero apenas nas cidades de Crato, Juazeiro e Barbalha. O Brasil também não dá bom exemplo. Segundo dados do Mapa da Violência de 2015, ocupamos a quinta posição no ranking dos países que mais matam mulheres. A taxa é de 4,8 assassinatos para cada 100.000 mulheres, o que nos coloca logo abaixo de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia, os campeões. “Essa situação equivale a um estado de guerra civil permanente”, caracterizou a socióloga Lourdes Bandeira para a ONU Mulheres.

“Lugar de mulher é onde ela quiser”.

“Quantas eram pobres? Quantas eram negras?”, questiona Verônica Isidoro, membro do Conselho Municipal de Direitos da Mulher Cratense. “Esses números não aparecem nos relatórios do Cariri, porque não são apurados. Mas quem trabalha com isso todos os dias, sabe que são as mulheres negras, são as mulheres da periferia as que mais morrem”, lamenta. Em tom de urgência, ela afirma que algo precisa ser feito para mudar essa realidade. A confirmação do racismo vem pelo mesmo relatório do Mapa da Violência, que aponta o estrondoso aumento de 54% dos homicídio de negras nos últimos 10 anos, nas cidades que têm o cuidado de marcar a etnia nos formulários.

“É pela vida das mulheres!”, branda outra palavra de ordem. Foi pelo bem viver das mulheres negras que 2.000 pessoas ocuparam as principais ruas do Crato, em março de 2015. “Foi a primeira vez que o movimento enegreceu”, diz Verônica Carvalho, presidente do Conselho da Mulher Cratense, também fundadora do Grupo de Valorização Negra do Cariri (GRUNEC). “Tudo o que fazemos é consequência de uma vida de reflexão”, afirma Verônica, e lembra dos resquícios de racismo e sexismo vividos em sua infância, quando professoras levantavam os vestidos dela e de suas irmãs para ver se suas calcinhas estavam limpas.

Nas estatísticas, ainda falta precisão em relação à sexualidade dessas mulheres, também motivação para a violência. Um crime hediondo ainda choca Barbalha, quando um homem invadiu a casa de um casal de lésbicas e, cheio de ódio, as estuprou e depois as assassinou a facadas. Não bastasse, 40% de todos os homicídios mundiais contra a população transexual são cometidos no Brasil, mas, ainda assim, a Lei do Feminicídio não protege mulheres trans.

Nesse cenário tão desolador, surgem novas iniciativas de organização, ativismo social e empoderamento de mulheres. Elas são estudantes, trabalhadoras, jovens, mães, casadas, solteiras, negras, brancas, camponesas, do bairro classe média e da periferia. Sufragistas, Margaridas, vadias ou clandestinas, todas são personagens da história que quer silenciá-las. Ao impor sua voz feminina no espaço público e político, ameaçam a ordem dominante, majoritariamente controlada por homens. A unidade dos movimentos feministas, assim intitulados em organização ou não, extrapolou o campo acadêmico e da esquerda política, movendo e abraçando cada vez mais a diversidade de mulheres existentes.

Respeita as mina: para elas, tudo o que precisamos para começar uma revolução é de uma amiga.

O NOVO SEMPRE VEM

O sol não poupou esforços naquela tarde de sábado, 7 de novembro de 2015, e mesmo assim mais de 25 meninas, entre 18 e 24 anos, se encontraram no Largo da RFFSA, em Crato, para a primeira edição do Piquenique Feminista. Em círculo para todas poderem se ver, compartilharam cafés e comidinhas, e conversaram sobre assuntos delicados às suas subjetividades: assédios, violências, discriminações, as barreiras e desafios que precisam enfrentar apenas por serem mulheres.

Semanas antes, algumas meninas que estavam naquela roda presenciaram casos de assédio e machismo na Universidade Federal do Cariri. Professores disparando comentários maldosos em sala de aula e depreciando alunas pelas roupas escolhidas. Estudantes homens assediando e ameaçando colegas mulheres caso elas se recusassem a ter relações com eles. O Piquenique, então, viria a ser um momento entre elas para compartilharem suas dores e experiências.

Juntas, realizaram uma campanha nos campi da Universidade, usando relatos anônimos, mas reais, de assédios que aconteceram a elas ao longo da vida. Por essa iniciativa, foram convidadas a participar do programa Como Será, da Rede Globo, no episódio especial do Dia Internacional das Mulheres. No mesmo período, circulava na internet a hashtag #meuprimeiroassédio, criada pela ONG Think Olga, em reação ao caso Valentina, uma garota de 12 anos, participante do programa Masterchef Jr., que sofreu assédio virtual e insinuações de conotação sexual parte de homens nas redes sociais.

“O feminismo ainda precisa crescer, chegar em mais mulheres, mas é para isso que estamos aqui”, Maria Clara acredita.

A ação repercute, medidas são tomadas e os encontros mensais do Piquenique Feminista continuam a acontecer. Toda edição, um tema diferente: estética, mídia, religiosidade, pensamentos feministas, relacionamentos abusivos, classe e etnia, e assim por diante. “Me percebo necessária nessa luta, e essa luta necessária em mim, quando faço essa passagem de indivíduo para ser coletivo”, explica Maria Clara Rocha, universitária, uma das meninas à frente da organização do Piquenique. “Estou em desconstrução do machismo que me permeia, muito por causa das meninas que vieram antes de mim, das minhas amigas que me apoiam e porque vejo que estamos juntas nessa”, ela diz.

Para as meninas, o evento significa mais do que um encontro para lamentar a vida: é um lugar onde uma pode conhecer e se reconhecer na outra e, a partir disso, saber que suas questões não são tão individuais quanto achavam que fossem. “O melhor de tudo isso é a identificação, é contribuir umas com as outras, porque você sabe que elas passam pelas mesmas coisas que você”, relata Vamille Furtado, jornalista, participante desde o primeiro Piquenique.

“Se uma menina te relata algo que aconteceu com ela, sempre vai ter um pouco dela em você e um pouco de você nela. Temos os mesmos medos e, às vezes, nos aconteceram as mesmas coisas… ou apenas a possibilidade de algum dia acontecer com você. Isso não poderia jamais acontecer com seu pai, seu irmão, seu namorado, mas que podia ser com você”, desabafa a pesquisadora Andrea Furtado, ao fim de uma emocionante edição do Piquenique, traduzindo o sentimento de empatia de estar em um grupo assim.

Para Andrea, a voz da mulher ainda precisa ser ouvida na política e nos espaços públicos.

Em um dos primeiros questionamentos de uma garota na sua adolescência, Lícia Alves lembra de perguntar por que apenas a ela dependia as responsabilidades domésticas, enquanto seu irmão mais velho gozava da liberdade. “A única resposta que eles me davam era ‘porque você é mulher, porque mulher faz isso’. Mas como assim mulher faz isso? Toda mulher nasce querendo isso para si? Eu não quero isso para mim”, refutou. Daí em diante, ela só queria compreender o papel no qual a mulher é colocada para cumpri-lo e, a partir daí, romper com ele.

De voz meiga, mas palavras decididas, a universitária Pâmela Queiroz conta ao grupo sua jornada até ali, da identificação com o feminismo até a afirmação de sua etnia negra. “Nunca nada foi fácil na minha vida”, começa localizando seu bairro periférico como referência. Em detalhes, releva sua adolescência, a decisão de alisar o cabelo para sentir-se aceita, os momentos de medo (quando foi sexualizada pela melanina em sua pele), até a transição para quem é hoje, quando descobriu força em sua própria mãe.

“Quando comecei a ler sobre feminismo, era o feminismo de mulheres brancas. Eu entendia tudo aquilo, mas faltava algo com o qual eu pudesse me identificar. Foi aí que vi em minha mãe a força de uma guerreira negra”, diz Pâmela, emocionando-se. “Ela é minha representatividade”. Aos 19 anos, a garota sabe bem porque luta: “Eduardo Galeano dizia que a utopia serve para caminhar… Eu caminho porque agora é inevitável acreditar que a mudança possa vir”.

No Piquenique, elas se organizam horizontalmente: todas, e cada uma, têm o mesmo poder de voz. Indiferentes às organizações tradicionais, a maioria dessas garotas não estão em partidos políticos, mas em coletivos de juventude, movimentos estudantis ou em nenhum desses. Inconformadas, não se satisfazem apenas com uma pauta: estão preocupadas em desconstruir o racismo e a homofobia, em entender e mudar o sistema político e econômico que se apresenta e em lutar para que mais pessoas possam ter acesso à educação gratuita e de qualidade. São novas formas de ser ativista, são sinais de que o movimento rejuvenesce, mas que também precisa se aprofundar.

Para Pâmela, 19, “é inevitável acreditar que a mudança possa vir”.

POR NÓS, PELAS OUTRAS E POR MIM

A professora universitária Claudia Rejanne Granjeiro, também uma das militantes feministas mais relevantes do Cariri, acredita, assim como Belchior, que o novo sempre vem. Sorridente, Claudia revela seu incansável entusiasmo com o engajamento de jovens meninas na luta feminista e se emociona ao exemplificar com a iniciativa do Piquenique Feminista: “Vejo com muita esperança e alegria que meninas tão jovens estejam nesse debate, se empoderando, discutindo as questões relativas ao que é ser mulher nesse mundo capitalista, patriarcal, racista que temos”.

“Me reconheço nelas”, diz, relembrando seus 12 anos quando, impressionada com a falta de notícias sobre o que acontecia no Brasil, passou a participar às escondidas de reuniões de partidos políticos de esquerda. O ano era 1984 e a chama pela redemocratização ardia forte. A pouca idade não foi barreira suficiente e Claudia logo se filiou à Convergência Socialista, corrente interna do Partido dos Trabalhadores, fazendo parte ativa dos movimentos. Teve, inclusive, seu nome citado no Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), a polícia secreta da Ditadura Militar.

Ela falava sobre a situação da Nicarágua, de Cuba, da juventude Palestina contra a intifada, mobilizava campanhas de coleta de mantimento aos guerrilheiros e tocava congressos dos estudantes secundaristas. A “urgência da revolução” cobria como um véu as demandas das próprias mulheres desses movimentos, que nem mesmo nos ambientes da esquerda política encontravam apoio. Aos 15 anos, engravidou – algo que os dirigentes viam como invalidez – e foi expulsa da organização. “Foi um claro sintoma de que não havia discussão sobre a mulher. A preocupação era com o capitalismo, mas não existe capitalismo sem racismo, sem patriarcado”, afirma.

“Começávamos a pressionar dentro das correntes, mas não era uma discussão fácil. Éramos bloqueadas. Eles ficavam nessa coisa de que ‘ah, não, só o socialismo vai tirar as mulheres da escravidão’. Mas era muito tempo para esperar, você não acha?”, Claudia provoca. “Era uma esquerda careta e machista, que começou a mudar dos anos 2000 para cá”, reflete, explicando que as adaptações aos modelos tradicionais de fazer política foram exigências dos tempos. E o novo sangue que corre passou a entender que é preciso empreender uma autoavaliação das políticas, trabalhar com as especificidades e subjetividades de cada “minoria” e fazer disso a força para modificar o sistema.

A cada 5 minutos uma mulher é agredida em casa e, a cada 2 horas uma delas é assassinada. Para mudar essa realidade, elas avançam, sem admitir nenhum direito a menos.

De lá para cá, muita coisa mudou. Os partidos, principalmente os de esquerda, trabalham de forma efetiva na pauta das mulheres, negros e negras e LGBTTs, assim como os coletivos de estudantes e juventudes, que pensam, a partir de onde estão, políticas de autonomia do que chamam de “setoriais de combate à opressão”.

A pesquisadora e assistente social Suamy Soares, militante feminista há 15 anos, considera que houve uma popularização do feminismo, e que isso pode ser bom mas, ao mesmo tempo, não tão bom assim. “Na internet, se você for ver, são infinitas as páginas que existem, sejam pró-feminismo ou contra o feminismo. Temos uma popularização que é boa, porque expande para todas as classes sociais, para todas as mulheres, mas não expande com profundidade”. E isso ela considera uma deficiência, pois pode alimentar ideias rasas, e muitas vezes sectárias, sobre a luta das mulheres.

Enquanto os pensamentos de igualdade de gênero se popularizam e são conquistados espaços nos meios de comunicação e na indústria cultural para que artistas como Karol Conká e Karina Buhr discutam em suas músicas o papel da mulher e as questões de gênero, Suamy avalia que, do outro lado, existe a ampliação do discurso conservador, da pequena política, das pessoas dizendo que o mundo está muito chato e “vai para Cuba, sua feminazi”. Essas, muitas vezes, são falas baseadas em crenças particulares, endossadas por pretensões de ódio que descaracterizam questões públicas. “As duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. Damos um passo à frente e essa parte da sociedade responde com um Eduardo Cunha, um Bolsonaro, um Silas Malafaia, um Feliciano da vida…”.

É matar um leão por dia. Dos pequenos grupos de estudo à imensidão dos shows de TV e redes sociais, espalharam-se as ideias feministas de igualdade entre homens e mulheres, de empoderamento feminino, de conexão com as raízes culturais, de respeito à identidade de gênero e à autonomia da mulher sobre seu corpo. Assim, 2015 ficou marcado pela ampliação de vozes femininas que exigem espaço e representação na mídia, pedem políticas públicas eficientes à suas demandas e criam iniciativas que estimulam a solidariedade não só entre as mulheres, mas entre todas as pessoas. É como dizem: “Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede”.

Verônica, protagonista

Sua vida inteira tem sido dedicada à luta pelos direitos dos eternamente oprimidos. Verônica Carvalho é presidente do Conselho Municipal dos Diretos da Mulher, em Crato, fundadora do Grupo de Valorização Negra do Cariri, membro da Cáritas Diocesana, agita a Frente de Mulheres dos Movimentos e participa ativamente do Fórum das Águas. Revolucionária de berço, tem a maior inspiração na sua própria Dandara guerreira, a mãe Gilbertina, referência de luta e coragem. Consciente da condição de vida de quem não nasce em berço de ouro, ela diz: “Minha militância é consequência do que vivi, mas a minha luta não é só minha”. Sem pensar em parar, aos 58 anos tem um objetivo claro em mente: “Não estou atrás do que nos separa politicamente. Estou mais interessada naquilo que nos une e disso construir a unidade”.

“Por que as piores estatísticas estão ligadas à população negra?” questiona o Grupo Pretas Simoa.

O FEMINISMO SERÁ NEGRO, OU NÃO SERÁ

Dandara dos Palmares, Tia Preta Simoa, Lélia Gonzales e Angela Davis foram grandes, fortes e independentes mulheres negras que conquistaram seu lugar na História. Em homenagem à jangadeira e líder revolucionária cearense, o grupo de mulheres negras do Cariri Pretas Simoa destaca-se pela atuação combativa ao racismo e à misoginia tão latentes em nossa sociedade. Para enegrecer as lutas, articulam grupos de estudo e discussão, realizam debates públicos sobre assuntos pertinentes à classe trabalhadora, manifestam-se pela identidade da cultura negra e escracham quando necessário.

“Onde estão as mulheres de cor?”, questiona Dayze Vital, cientista social e militante do Pretas Simoa. “No último relatório do DIEESE, mais de 75% das empregadas domésticas no país eram negras. Será que é falta de capacidade de ocupar outros cargos ou é a inexistência de oportunidades? Para mais perto de nós, as mulheres que mais são agredidas e violentadas também são negras. Isso tudo é reflexo da nossa sociedade racista”, afirma, explicando que os feminismos devem pensar e atuar sobre as especificidades de cada grupo de mulher. Caso contrário, não libertarão ninguém.

 

EMPODERE DUAS MULHERES

A ONG Think Olga detectou que, entre 2014 e 2015, a busca pelas palavras-chave “empoderamento feminino” e “feminismo” tiveram o significativo aumento de 354,5% e 86,7%, respectivamente, na internet. A Olga, então, traçou a linha do tempo de 2015, mostrando porque este foi o ano das mulheres na internet. Veja alguns exemplos:

#AshHerMore

Em Hollywood, atrizes participam da campanha que pede aos jornalistas que, no tapete vermelho, deixem de lado perguntas sobre vestido e foquem no real trabalho delas.

#DistratinglySexy

O cientista Tim Hunt, vencedor do prêmio Nobel, declara que mulheres em ambiente de trabalho são distrações por causa de suas roupas. Ao redor do mundo, elas publicam fotos com roupas de laboratórios. Sexy, só que não.

#NãoTiraOBatomVermelho

A web celebridade Jout Jout explica em vídeo viral o que é comportamento abusivo em relacionamentos. Já foram mais de 1,6 milhões de visualizações!

#PrimeiroAssédio

Mulheres relatam os primeiros assédios que sofreram. A campanha relevou que 9,7 anos é a idade média em que esses casos acontecem.

#AgoraÉQueSãoElas

Homens colunistas cedem seus espaços na mídia para mulheres escreverem sobre feminismo, chamando atenção para a falta de vozes femininas nos canais tradicionais.

#MeuAmigoSecreto

No fim do ano, elas botaram a boca no trombone e revelaram atitudes machistas dos homens em suas vidas.

Redação Cariri